Machismo até na Lua: só 2% das crateras lunares têm nomes de mulheres cientistas

União Internacional Astronômica tenta reverter a pouca representatividade feminina na nomenclatura dos corpos celestes do Sistema Solar
Katherine Kornei, do New York Times

A Lua Foto: Alexandre Cassiano

A superfície da Lua é marcada por crateras, relíquias de impactos violentos no passado cósmico. Algumas das maiores são visíveis a olho nu, e um telescópio amador pode mostrar centenas delas. Um observatório astronômico pode tornar visíveis milhões de crateras.

Bettina Forget, artista e pesquisadora da Universidade Concordia, em Montreal, tem desenhado as crateras lunares há anos. Como também é uma astrônoma amadora, seus desenhos combinam seus dois interesses na arte e na ciência.

As crateras da Lua são batizadas, por convenção, com os nomes de cientistas, engenheiros e exploradores do espaço. Algumas têm nomes muito familiares, como Newton, Copérnico e Einstein, mas outras não. E foi observando e desenhando crateras que Forget questionou: quem são essas pessoas? Quantas são mulheres?

Forget recorreu aos arquivos da União Astronômica Internacional, organização incubida de nomear as crateras da Lua e outras características dos corpos celestes no Sistema Solar. Ela decidiu procurar as crateras com nomes de mulheres.

— Não havia quase nada — diz Forget.

Das 1.578 crateras lunares que tinham recebido um nome, apenas 32 homenageavam mulheres (uma 33ª foi escolhida em fevereiro).

— Eu não esperava 50%, não sou tão otimista. Mas só 2%? Fiquei muito chocada — diz Forget, para quem ter tão poucas crateras lunares com nomes de mulheres é uma afirmação forte. — Isso cria um ambiente em que se pensa que as mulheres não deram sua contribuição.

Em 2016, Forget começou um projeto de desenhar todas as crateras que têm nomes de mulheres. Cannon e Mitchell, nomes de astrônomas dos século XIX e XX, estão no lado visível da Lua. Resnik e Chawla, homenagens a astronautas, estão no lado mais distante do satélite, que não é visível da Terra. Nesses casos, ela usou imagens da NASA. Esses desenhos se tornaram a exposição “Women with Impact” (Mulheres de Impacto), que circula por galerias e planetários do Canadá mostrando a pouca representatividade das mulheres nas chamadas STEM: ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

— Uma cratera é a ausência de matéria, um vazio. É um paralelo com o vazio de mulheres nas STEM.

Em fevereiro, a mais recente cratera lunar a receber um nome foi batizada em homenagem à cientista da computação e mulher negra Annie Easley.

O nome de Easley foi sugerido por outra cientista, a canadense Catherine Neish, que já tinha feito a União Astronômica Internacional nomear crateras em homenagem a Elisabetta Pierazzo e Marie Tharp, em 2015.

— Eu estava motivada a aumentar os números — diz Neish.

A cientista Kelsi N. Singer afirma que a escassez de crateras lunares com nomes de mulheres é uma surpresa ao mesmo tempo que não é.

— Não era permitido às mulheres serem cientistas, engenheiras e exploradoras até o século XX. Como as crateras costumam ser batizadas com os nomes de pessoas que já morreram, há um atraso histórico.

As mulheres são bem representadas quando falamos das características do planeta Vênus e dos satélites de Urano (mas estes últimos foram batizados com nomes de personagens das obras de Shakespeare e de Alexander Pope). Mas esses lugares são exceções no sistema Solar. A União Astronômica Internacional reconhece o problema e, hoje, prioriza os nomes de mulheres quando nomeia características dos corpos celestes, como as crateras da Lua.

— Decidimos que se temos a escolha de nomear uma cratera lunar, será com o nome de uma mulher — diz Rita Schulz, cientista no Centro Europeu de Tecnologia e Pesquisa Espacial, na Holanda, e chefe do grupo responsável pela nomenclatura do Sistema Solar na União Astronômica Internacional.

A cientista Catherine Neish já tem um nome em mente para outra cratera lunar:

— Poucas pessoas podem dar nome a uma cratera lunar porque não têm uma razão científica válida para tal. Eu quero usar o meu privilégio para reconhecer algumas das mulheres que vieram antes de mim — encerra.

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