Aos 92 anos, arquiteto Frank Gehry foca em projetos sociais e não pensa em se aposentar

‘O que eu faria?’, pergunta o ganhador do prêmio Pritzker, que está mais interessado em desenvolver projetos que promovam justiça social
Robin Pogrebin, The New York Times – Life/Style

Frank Gehry, aos 92 anos, em seu estúdio em Los Angeles, atrás do projeto que fez para a King Street de Toronto. Foto: Erik Carter/The New York Times

LOS ANGELES – No meio da tarde de uma segunda-feira, o arquiteto vencedor do Prêmio Pritzker Frank Gehry – apesar de ter completado 92 anos recentemente em meio a uma pandemia, concluiu o último andar de seu prédio no empreendimento Grand Avenue e se prepara para uma mostra de novas esculturas na Galeria Gagosian – estava pouco interessado em se sentar para refletir sobre este momento potencialmente significativo da vida e da carreira.

Em vez disso, ele estava se movimentando – visitando o estúdio pela primeira vez desde o surto da covid-19, muito mais ansioso para discutir a miríade de projetos que está conduzindo, a maioria em andamento. (Apenas um projeto empacou: um arranha-céu no Hudson Yards, na cidade de Nova York, e seu escritório teve de demitir oito dos 170 funcionários.)

Os projetos incluem a versão de Los Angeles da High Line de Nova York, ao longo do Rio Los Angeles; os novos edifícios comerciais para a Warner Bros. em Burbank; e a cenografia da ópera de jazz Iphigenia, de Wayne Shorter e Esperanza Spalding, que será apresentada no Kennedy Center, em Washington, em dezembro. A mais de 4.800 quilômetros de distância dali, o Museu de Arte da Filadélfia revelou na sexta-feira, 7, a reforma e a expansão da parte interna projetadas por Gehry.

Questionado se, devido à idade e às realizações, ele considerou fazer uma pausa ou diminuir o ritmo, Gehry rejeitou a ideia. “O que eu faria? Gosto dessas coisas.”

Movimentando-se em seu amplo espaço de trabalho, o arquiteto declarou que atingiu um ponto na carreira em que pode se dar ao luxo de se concentrar no que mais lhe interessa: projetos que promovam a justiça social. “Estou livre, agora que não preciso me preocupar mais com meus honorários.”

A ênfase crescente de Gehry em retribuir parece ter intensificado seu compromisso com a cidade. Ele está, por exemplo, projetando moradias no Wilshire Boulevard para veteranos sem-teto. E, há cerca de seis anos, ele e a ativista Malissa Shriver fundaram a Turnaround Arts: California, organização sem fins lucrativos que leva educação artística às escolas mais carentes do estado. “São trabalhos de amor”, comentou.

Ele se voluntariou para o projeto de uma nova casa para o braço educacional da Filarmônica de Los Angeles dedicado à juventude, a Orquestra Jovem de Los Angeles (YOLA), no Inglewood Civic Center, ao sul da cidade, que será finalizada em junho.

Gehry contou ter se inspirado no programa de educação musical da Venezuela com financiamento público, El Sistema, que dá a crianças carentes a chance de tocar em orquestras. Produto desse programa, Gustavo Dudamel, o diretor musical e artístico da Filarmônica de Los Angeles que desempenha as mesmas funções para a YOLA, chamou à criação de Gehry “uma metáfora que diz: ‘A beleza importa'”.

Para transformar um edifício bancário da década de 1960 em sala de concertos para a orquestra jovem, Gehry disse que pressionou a organização a angariar um pouco mais de dinheiro para construir um teatro de 14 metros, o mesmo tamanho do Walt Disney Concert Hall, outro projeto seu. “Ele emerge como um farol para a comunidade.”

Gehry – que projetou um centro para a New World Symphony, em Miami, bem como o Guggenheim em Bilbao, na Espanha, e a filial do Guggenheim planejada para Abu Dhabi – continua animado por projetos culturais com um componente educacional (ele recentemente ingressou no conselho do Instituto de Jazz Herbie Hancock, organização sem fins lucrativos que treina jovens músicos promissores).

Ele talvez esteja mais animado com o Projeto River – esforço financiado pelo Departamento de Obras Públicas do Condado de Los Angeles para revitalizar o canal de 82 quilômetros que vai do Parque Canoga até Long Beach e foi pavimentado em 1938 para evitar inundações.

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Gehry com um modelo do Centro Cultural Sela. Foto: Erik Carter/The New York Times

O River LA, grupo sem fins lucrativos – que conta com o apoio do prefeito Eric Garcetti -, recrutou Gehry para desenvolver um plano mestre para o local. Daí surgiu a ideia de um parque de plataforma urbana sobre o concreto com espaços gramados e um centro cultural de US$ 150 milhões. Chamado de Centro Cultural Sela (em referência à sua localização no sudeste de Los Angeles), será financiado com fundos públicos e privados, e servirá como um espaço para artistas locais e profissionais.

Mas alguns criticaram o envolvimento de Gehry no projeto – um período de audiências públicas sobre o plano terminou recentemente -, como líderes comunitários de grande porte, que comentaram que ele não tem experiência com espaços ao ar livre e que o projeto vai promover a gentrificação. “O potencial de um trágico tiro pela culatra é enorme. Vamos despejar milhões de dólares públicos em um plano que parece impressionante, mas que vai expulsar o público-alvo – comunidades que estão com dificuldades de simplesmente sobreviver nas últimas décadas”, advertiu um artigo recente no Los Angeles Times.

Gehry tentou abordar essas preocupações e enfatizou em uma entrevista que seu foco era a criação de moradias populares e espaços abertos: “Estamos trabalhando em projetos de habitação social, para que a população existente tenha acesso à casa própria.”

Embora possa ser um para-raios no Projeto River, Gehry também está envolvido em atividades mais leves, como a reinterpretação da garrafa Hennessy X.O para comemorar o 150º aniversário do conhaque no ano passado: uma capa enrugada de bronze com ouro 24 quilates, envolta em uma garrafa de vidro escultural.

Inspirado pela neta de cinco anos, que o chama de “Nano”, Gehry criou uma enorme festa do chá ao estilo Alice no País das Maravilhas, com direito a um Chapeleiro Maluco. Essa peça, ao lado de colossais luminárias verticais de polivinil e cobre em formato de peixe suspensas no teto, será apresentada em sua mostra de escultura, que estreia em 24 de junho no espaço Gagosian, em Beverly Hills.

“Nesta fase da vida, ele está realmente livre para ser criativo sem compromisso ou colaboração. Frank Gehry acha divertido fazer o que quer”, explicou Deborah McLeod, diretora sênior da galeria.

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Modelo do Luma Arles, que será inaugurado na França neste ano. Foto: Erik Carter/The New York Times

Embora o arquiteto pareça estar um pouco mais curvado e seu cabelo mais fino, ele continua exalando uma empolgação infantil com os detalhes do design. Um exemplo é a forma como brincou com blocos de metal para o complexo artístico Luma Arles, de US$ 175 milhões, da patrona suíça Maja Hoffmann, com inauguração programada para o fim de junho. Ou a maneira como está testando um metal mais macio para conseguir um efeito de aquarela no projeto para o museu de medicina da Universidade de Medicina Chinesa em Taichung, Taiwan. “Ao dobrar o metal, você obtém uma bela superfície”, comentou Gehry.

Isso não quer dizer que ele não mantenha um ego saudável. Ao falar sobre o popular museu de arte contemporânea que projetou para a Fundação Louis Vuitton em 2014, o arquiteto disse: “Acho que acertamos muito bem.”

E ele claramente se orgulha de projetar residências particulares para clientes importantes, como o elegante complexo familiar em Cabo San Lucas, no México, para Hassan Mansur, do grupo automotivo Surman. Ou a “Meeting House” do Colorado que ele projetou com um telhado de aço inoxidável contornado para Michael e Jane Eisner, em 2018.

Talvez o mais notável seja o fato de o Guggenheim Bilbao ter se tornado a arquitetura de destino da moda, embora Gehry diga que está focado nos próximos desafios, e não nos que já superou. “Não sei se levo o crédito por coisa alguma. Não estou muito interessado nisso. Tenho orgulho do que fiz, mas olho para os projetos e vejo todas as coisas que eu deveria ter feito de forma diferente.”

De um projeto ele tem orgulho especial: o par de torres que fazem parte do empreendimento King Street em sua cidade natal, Toronto – o projeto mais alto do arquiteto até hoje. “Nova York tem o Rockefeller Center; é uma peça arquitetônica coerente, durável, que se mantém. Espero que o projeto da King Street se mantenha assim.”

Apontando para uma representação na parede, Gehry prosseguiu: “A rua da minha avó fica logo ali em cima e a loja de ferragens do meu avô ficava aqui, ou seja, aqui era o meu pedaço. A cidade nos deu uma altura extra, porque eu estava voltando para casa.”

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