Eva Wilma: A verdadeira história da foto de atrizes em passeata contra a censura, em 1968

Tônia Carreiro, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Benghel e Cacilda Becker protestam contra censura, em 1968 | Foto do Arquivo Nacional

Os termômetros no Rio marcavam temperaturas de até 41 graus naquela segunda-feira, 12 de fevereiro de 1968, quando centenas de artistas se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal com faixas e cartazes. A manifestação acontecia no dia seguinte ao início de uma greve promovida por atores, atrizes, diretores, empresários e produtores teatrais, que decidiram fechar os palcos da cidade para protestar contra a Censura Federal. O movimento foi seguido imediatamente pelos artistas de São Paulo, que cerraram as cortinas por lá também.

O foco da indignação eram a falta de critérios e o despreparo intelectual dos censores da ditadura para cortar cenas ou mesmo proibir espetáculos com base na proteção da “moralidade”. As produções sofriam golpes arbitrários de pessoas sem formação cultural que implicavam com termos de “baixo calão” ou considerados subversivos à ordem e aos “bons costumes”. O estopim para os protestos foi quando o governo vetou uma montagem nacional do texto “Um bonde chamado desejo”, do americano Tennessee Williams, no Teatro Martins Pena, em Brasília.

Walmor Chagas, Odete Lara e outros na escada do Teatro Municipal, em fevereiro de 1968 | Foto de arquivo/Agência O GLOBO


Segundo os jornais da época, inicialmente, a censura determinara vários cortes no texto, mas, na estreia da peça, a atriz Maria Fernanda decidiu ignorar as tesouradas. Os censores haviam exigido, por exemplo, a substituição do termo “gorila” para se referir ao personagem Stanley Kowalski, um ex-militar. Chamada para se explicar no gabinete do chefe da censura, a atriz não se conteve e chamou os censores e o governo de “totalitários, ditatoriais e prepotentes”. Como retaliação, o espetáculo foi proibido, e Fernanda foi impedida de atuar por 30 dias

Revoltados, dezenas de artistas do Rio se reuniram no Teatro Princesa Isabel, no Leme, dia 11 de fevereiro de 1968, quando foi criada uma comissão para liderar o movimento. Logo em seguida, os membros da comissão, formada por personalidades como Cacilda Becker, Chico Buarque, Odete Lara e Marieta Severo, foram ao encontro do governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima, que estava inaugurando uma fonte luminosa no Largo do Machado. Mas Negrão era um opositor do regime militar e não podia ajudar.

Profissionais do teatro durante assembleia no Teatro Princesa Isabel, no Leme | Foto de arquivo/Agência O GLOBO

No dia seguinte, os artistas começaram uma ocupação nas escadas do Municipal para colher assinaturas do público com o intuito de amenizar a censura sobre produções culturais. Ainda que o país já vivesse uma ditadura militar desde o golpe de 1964, atos daquele tipo ainda eram tolerados. Mas mesmo esse “cheiro” de liberdade estava com os dias contados. O protesto acontecia no início de um ano de muita agitação política e que terminaria com a publicação, em dezembro, do Ato Institucional de número (AI-5), que acabou com qualquer espaço para críticas ao governo

De acordo com a edição do GLOBO do dia 12 de fevereiro de 1968, os artistas de pés fincados na entrada do Teatro Municipal chamavam atenção para as incoerências nas decisões da censura. “Um bonde chamado desejo” estivera em cartaz no Rio durante 13 anos, sem nunca ter enfrentado problemas. Eles também criticavam a proibição da peça “Senhora na boca de lixo”, que havia sido liberada em Portugal, na época governado por uma ditadura com censura “mais rigorosa que a do Brasil”.

Fernando Torres, com microfone, no Teatro Municipal, perto de Nelson Rodrigues (de terno) | Foto de arquivo/Agência O GLOBO

Estavam nas escadas do Municipal famosos como Walmor Chagas, Joana Fomm e Eva Wilma. O ator e diretor John Herbert apontou a contradição da censura, que liberara “Roda viva”, de Chico Buarque, para maiores de 14 anos, enquanto proibira espetáculos com textos menos críticos. Joana Fomm se colocou contra qualquer forma de censura, alegando que cabia ao público escolher o que queria ver. Já André Villon ironizou os equívocos dos censores, que para ele atuavam como “relações públicas” de produções que eram proibidas e, em seguida, liberadas. “A censura aumenta muito a curiosidade popular, causando ótima bilheteria para a peça só porque tinha sido proibida”, disse.

O movimento reivindicava uma reformulação da Censura Federal. Os grevistas pediam a descentralização do aparato, para que as delegacias regionais, e não apenas o gabinete em Brasília, tomassem decisões referentes a produções culturais. Também queriam participação da classe nas definições e que fosse garantida a liberdade de criação. Ou seja, queriam trabalhar numa democracia.

Chico Buarque cumprimenta o ministro Gama e Silva após reunião sobre censura | Foto de arquivo/Agência O GLOBO

Eles conseguiram uma audiência com o então ministro da Justiça, o jurista Luís Antonio da Gama e Silva, no dia 13 de fevereiro, da qual participaram artistas como Chico Buarque, Djanira, Nelson Rodrigues, Tonia Carreiro e Carlos Scliar. Durante o encontro, o grupo entregou a Gama e Silva uma petição com 10 mil assinaturas colhidas no Municipal. O ministro se mostrou receptivo, disse que tinha suas próprias ressalvas com a censura e prometeu rever tudo. Os artistas ficaram tão animados que até pediram a demissão do chefe da censura. Mas, antes de Gama e Silva responder, Nelson Rodrigues falou: “Cuidado, ministro, pois esse é um momento histórico”. Só que aí o jurista não prometeu mais nada

Depois da reunião, centenas de artistas partiram do Municipal em passeata até o Monumento aos Mortos na Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo. Eles andavam pela calçada, para não atrapalhar o trânsito, e cantavam o Hino Nacional. No trajeto, foram feitas as históricas fotos de Eva Wilma caminhando ao lado de Eva Todor, Tônia Carreiro, Leila Diniz, Cacilda Becker e Norma Bengell. Após a morte de Eva Wilma, aos 87 anos, no último domingo, muita gente compartilhou nas redes sociais as imagens como se fossem um momento da Passeata dos Cem Mil, que só aconteceu em junho daquele ano.

Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell | Foto de arquivo/Jornal do Brasil

A gente estava encerrando uma greve de três dias e três noites nas escadarias do Teatro Municipal. A gente ficava se revezando. Combinava quem ficava das 2h às 4h da madrugada e por aí vai – contou Eva Wilma no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Globo, em março de 2018. – Eu estava em cartaz no Rio (com a peça “Black out”, no Teatro da Aliança Francesa). O encerramento foi programado dessa maneira, as atrizes na linha de frente, levando flores para o monumento no Aterro. Foram momentos de luta, de batalha

Os artistas queriam depositar uma coroa de flores no monumento, em homenagem aos “heróis” da que lutaram pela “democracia e a liberdade”. Mas o oficial do Exército que fazia a guarda impediu a entrada dos manifestantes, alegando que o monumento já estava fechado. Depois de alguma discussão, Tônia Carreiro começou a pedir ao grupo que se dispersasse, mas recebeu voz de prisão do guarda, que a acusou de estar “fazendo discurso”. Após apelos, o militar desistiu de levá-la para a delegacia.

Cartaz da peça ‘Black out’, com Eva Wilma, em cartaz em 1968 | Reprodução

Os artistas voltaram da reunião dizendo que acreditavam no ministro Gama e Silva. Mas a História nos mostrou algo bem diferente do que ele dissera. O governo continou praticando e reafirmando a censura. Em julho do mesmo ano, um grupo de para-militares chamado de Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o Teatro Galpão, em São Paulo, agrediu o elenco de “Roda Viva” e depredou o espaço. Em outubro, a peça foi proibida na véspera de sua estreia em Porto Alegre. Antes que os atores deixassem a cidade, eles foram novamente agredidos por extremistas

Ao longo de 1968, a classe artística e o movimento estudantil estreitaram sua relação em atos como os protestos após a PM assassinar o secundarista Edson Luís, no restaurante Calabouço, da UFRJ, que culminaram com a Passeata dos Cem Mil. O evento, realizado no dia 26 de junho, foi organizado por universitários e contou com a participação de músicos, artistas plásticos, profissionais do teatro e cineastas. Mas aquele ano terminou com a edição do AI-5, que atirou o país nas trevas, autorizando prisões arbitrárias, tortura e mortes de opositores políticos. Foi o período mais duro da repressão. Manifestações na rua estavam completamente banidas.

Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas e trabalhadores contra a ditadura no Centro do Rio, em 26 de junho de 1968Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas e trabalhadores contra a ditadura no Centro do Rio, em 26 de junho de 1968 | Acervo O Globo

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