Fora do padrão: Conheça os rostos reais que habitam a região do Vale do Silício

Para muitos engenheiros de nível médio, trabalhadores de food truck e residentes de longa data, uma região marcada pelos extremos está se tornando cada vez mais desigual
Mary Beth Meehan e Fred Turner, The New York Times

Ravi e Gouthami moram em um apartamento alugado de um quarto. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Os trabalhadores do Vale do Silício raramente parecem os homens idealizados na tradição desse lugar. Às vezes, são mais gordos, às vezes mais velhos, frequentemente mulheres, frequentemente de pele mais escura. Muitos migraram de algum outro país. E a maioria deles ganha muito menos do que Mark Zuckerberg ou Tim Cook. Este é um lugar de disparidades.

Dada a maneira como as companhias de tecnologia do vale conduziram a economia americana desde a Grande Recessão, a região permaneceu uma das mais desiguais dos Estados Unidos.

Durante os períodos mais complicados da pandemia, quatro em dez famílias da área com filhos não podiam ter a certeza de que teriam o suficiente para comer todos os dias, segundo uma análise do Silicon Valley Institute for Regional Studies. Meses mais tarde, Elon Musk, o diretor executivo da Tesla, que recentemente  acrescentou “Technoking” ao seu título, tornou-se rapidamente o homem mais rico do mundo. O preço médio das casas no Condado de Santa Clara – sede da Apple e da Alphabet – agora é US$ 1,4 milhão, segundo a California Association of Realtors.

Para os que não foram afortunados o bastante para constar nas listas de bilionários para os engenheiros de nível médio e os trabalhadores com caminhões de comida, há muito tempo residentes na área, o vale tornou-se cada vez mais inóspito, testando a sua capacidade de resistência e determinação.

Aqui estão 12 deles, que originalmente apareceram no nosso livro, Seeing Silicon Valley, do qual foram extraídos.

Ravi e Gouthami

Ravi e Gouthami são donos de vários títulos – em biotecnologia, ciências da computação, química e estatística. Em 2013, depois de estudarem na Índia e trabalharem em Wisconsin e Texas, eles aterrissaram na Bay Area, onde agora trabalham como programadores estatísticos na indústria farmacêutica.

Eles moram em um apartamento alugado de um quarto, na cidade de Foster City, na baía, e frequentam regularmente um templo hindu em Sunnyvale, que é um centro da comunidade indiana desde o início dos anos 1990.

Embora o casal tenha trabalhado duro para chegar aqui, e tenha ganho um bom dinheiro – seus salários iniciais foram de cerca de US$ 90 mil cada – eles acham que o seu futuro no Vale do Silício está fugindo deles. O seu apartamento, por exemplo, custa quase US$ 3 mil mensais. Eles poderiam mudar-se para qualquer outro lugar menos caro, mas, com o trânsito, perderiam horas vindo e voltando do trabalho todos os dias. Gostariam de ficar, mas não confiam na possibilidade de poupar, investir, começar uma família. Não têm certeza do que farão depois.

Diane

Diane
Diane mora em uma casa espaçosa em Menlo Park. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Diane mora em uma casa espaçosa em Menlo Park, a cidade que é a sede do Facebook. Sua casa está repleta de lindos objetos de toda uma vida de viagens com o marido, um empresário chinês e filantropo, hoje falecido. O casal se mudou para a Bay Area há mais de 30 anos, quando ele se aposentou, e eles adoraram o lugar – a luz do sol, o oceano, os espaços abertos.

Desde então, Diane vem observando a mudança da área: “Hoje, está superpovoada. Era um lugar adorável – tinha espaço, não havia trânsito. Era um lugar absolutamente maravilhoso. Agora está densamente povoado – edifícios estão surgindo em toda parte, como se não houvesse amanhã.”

“O dinheiro que rola aqui é inacreditável,” prosseguiu, “e está nas mãos de pessoas muito jovens agora. Elas têm dinheiro demais – não há sentimentos espirituais, apenas materialismo”.

Victor 

Victor
Victor mora em um pequeno trailer branco em Mountain View. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Victor veio para o Vale de El Salvador há mais de 25 anos. Mora em um pequeno trailer branco em Mountain View, a poucos quilômetros do campus do Google. Ele morava em um apartamento nas proximidades, mas teve de sair quando o aluguel subiu demais.

O seu trailer está estacionado em uma longa fila de trailers, onde moram outras pessoas que perderam suas casas. Victor, hoje com 80 anos, não tem eletricidade nem água corrente, mas os porteiros do seu antigo apartamento muitas vezes o deixam entrar para tomar banho e lavar as suas roupas.

Victor sempre carrega um vidro de pomada na mochila e quando os vizinhos torcem um tornozelo ou estão com o pescoço duro, batem à porta do trailer de Victor . Ele coloca uma cadeira fora para eles e massageia o lugar dolorido até a dor passar.

Teresa

Teresa
Teresa mora em um apartamento em Redwood City com as quatro filhas. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Teresa trabalha em tempo integral em um caminhão de comida. Prepara comida mexicana destinada a uma clientela do Vale do Silício: tortillas de milho moído à mão, tamales veganos, burritos de acelga orgânica. O caminhão viaja para cima e para baixo do Vale, servindo funcionários da sede da Tesla, estudantes de Stanford e consumidores da Whole Foods em Cupertino

Teresa mora em um apartamento em Redwood City com as quatro filhas. No outono de 2017, seus pais vieram do México para visitá-la, era a primeira vez que ela os via em 22 anos. “Bienvenidos abuelos”, anunciava um desenho em crayon. Bem-vindos, avós. “Es muy dificil para uno”, ela disse. É realmente difícil.

Konstance

Konstance
Konstance ainda aguarda pela construção da sua casa. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Como professora, Konstance está entre os milhares de funcionários públicos do Vale do Silício que não têm condições de morar erto de onde trabalham. Durante anos, ela viajou com bombeiros, policiais e enfermeiras todos os dias até o trabalho, sentados durante horas no trânsito nas rodovias ao redor da San Francisco Bay, vindo de lugares mais acessíveis a dezenas de quilômetros de distância.

Em julho de 2017, Konstance ganhou um lugar em uma loteria do Facebook. Ela oferecia apartamentos a 22 professores no distrito escolar ao lado da companhia na sua sede de Menlo Park. Os professores pagariam 30% dos seus salários de aluguel; e o Facebook cobriria a diferença. Então Konstance e as duas filhas mudaram a poucas dezenas de metros de distância da escola da família. De repente, ela foi circundada por algo que lhe faltava: tempo. O tempo de preparar comidas quentes em casa em vez de comer no carro, tempo para sua filha entrar nas Girl Scouts.

Em 2019, o Facebook anunciou que concederia empréstimos por um total de US$1 bilhão em bolsas e terras para a construção de habitações mais acessíveis na área. Da cifra prometida, US$ 25 milhões iriam para a construção de casas para os educadores: 120 apartamentos, incluindo o de Konstance e os dos outros professores do piloto original enquanto estivessem trabalhando nas escolas próximas.

Na época do anúncio, o Facebook disse que o dinheiro seria usado ao longo da década seguinte. A construção da habitação da professora ainda não foi concluída.

Geraldine 

Geraldine
Geraldine conseguiu evitar que sua igreja fosse derrubada. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Um dia, Geraldine recebe um telefonema de uma amiga: “Eles estão tomando as nossas igrejas!”, ela disse. Era o ano de 2015, quando o Facebook estava se expandindo no bairro de Menlo Park, onde ela morava. Seu sogro havia criado uma pequena igreja no lugar 55 anos antes. Geraldine, uma líder da igreja, não podia permitir que fosse derrubada. A Câmara Municipal havia promovido uma reunião para a comunidade naquela noite. “Então eu fui para a reunião”, ela disse. “Você tinha de escrever o seu nome em um papel para ser ouvido. Eu assinei. Eles chamaram o meu nome e eu fui lá bravamente, e falei.”

Geraldine não lembra exatamente o que disse, mas ficou de pé e orou; por fim, a congregação pôde manter a igreja. “Foi Deus quem fez isso na verdade”, ela disse. “Eu não tive nada a ver com aquilo. Foi Deus.”

Gee e Virginia

Gee e Virginia
Gee e Virgínia adquiriram uma casa de cinco quartos em Los Gatos. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Em 2016, Gee e Virgínia adquiriram uma casa de cinco quartos em Los Gatos, uma cidade cara, aos pés das colinas costeiras. As casas na sua rua custavam pouco menos de US$ 2 milhões na época e a sua era suficientemente grande para cada um dos seus dois filhos terem um quarto próprio, e também para os seus pais quando viessem de Taiwan para visitá-los.

Juntos, os dois ganhavam cerca de US$ 350 mil ao ano – mais de seis vezes a média nacional da habitação. Virgínia trabalha no departamento de finanças da Hewlett-Packard de Palo Alto e Gee foi um dos primeiros funcionários de uma startup que desenvolveu um aplicativo de leilões online.

Agora, eles querem comprar uma mobília bonita para a casa, mas entre a hipoteca e os gastos com as crianças acham que não conseguirão pagar tudo de uma vez. Alguns dos quartos agora estão vazios. Gee disse que salários do Vale do Silício como os seus parecem a própria riqueza para o restante do país, mas isso nem sempre corresponde à verdade.

Jon

Jon
Jon mora em uma área tradicionalmente para famílias de renda menor. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Jon mora em East Palo Alto, uma área tradicionalmente para famílias de renda menor, separada do restante do Vale do Silício pela rodovia 101.

Na época em que Jon estava na oitava série, soube que queria ir para a faculdade e foi aceito por uma rigorosa escola secundária particular para crianças de baixa renda. Ele descobriu que tinha aptidão para a computação e teve um desempenho excelente na escola e em seus estágios profissionais. No entanto, à medida que ele avançava na carreira, se dava conta de que, aonde quer que ele fosse, havia poucas pessoas como ele.

 “Fiquei realmente preocupado”, contou. “Eu não sabia com quem conversar, e vi que isto não era um problema para ele. Senti que teria de fazer alguma coisa a respeito.”

Agora Jon tem pouco mais de 30 anos e voltou para East Palo Alto, onde desenvolveu a capacidade de abrir espaços. E levou projetos de formação relacionados à tecnologia aos membros de sua comunidade.

Erfan

Efran
Marido de Efran foi trabalhar no Google e eles se mudaram para Montain Valley. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

“É impressionante a gente viver aqui”, disse Efran, que foi morar em Montain Valley quando seu marido conseguiu um emprego de engenheiro na Google. “Mas não é o lugar onde quero passar toda a minha vida. Há muitas oportunidades de trabalho, mas tudo no campo da tecnologia, a velocidade para a nova tecnologia, novas ideias, novo tudo.” O casal morara anteriormente no Canadá depois de emigrar do Irã.

“Nós nunca tivemos estas oportunidades no nosso país, o Irã. Eu sei – não quero me queixar”, acrescentou. “Quando falo para as pessoas que moro na Bay Area, elas dizem: ‘Você tem sorte – deve ser um verdadeiro paraíso! Vocês devem ser muito ricos’.”

Mas o custo emocional pode ser elevado. “Nós, às vezes, somos felizes, mas também muito ansiosos. Muito estressados. A gente se preocupa com a possível perda do emprego, porque o custo de vida é muito alto, e o ambiente é muito competitivo. Não é tão fácil – venha para cá, more na Califórnia, torne-se um milionário. Não é tão simples.”

Elizabeth

Elizabeth
Elizabeth trabalha como segurança para uma importante empresa de tecnologia. Foto: Mary Beth Meehan/University of Chicago Press

Elizabeth estudou em Stanford e trabalha como guarda de segurança para uma importante empresa de tecnologia da área. Ela não tem casa.

Sentada em um painel que versou sobre este problema na State University San Jose em 2017, ela disse: “Por favor, lembrem-se de que muitos não têm casa – e há muitos mais como nós que não são mencionados pelo censo – trabalham nas mesmas companhias em que vocês trabalham.” (Ela não quis revelar em que companhia ela trabalhava por medo de represálias.)

Embora às vezes trabalhadores sem-teto sirvam comida nas cafeterias ou limpem edifícios, acrescentou, muitas vezes são profissionais de colarinho branco.

“Às vezes, basta cometer um único erro, um erro financeiro, às vezes basta apenas uma catástrofe médica. Ou um pequeno lapso no seguro – podem ser várias coisas. Mas o fato é que há muitas pessoas de classe média que caíram na pobreza recentemente,” acrescentou. “Sua situação de sem-teto que imaginavam fosse durar apenas um mês ou dois até que se recuperassem, ou três meses, de repente passa a durar anos. Por  favor, lembrem-se de que há muitos como nós.” /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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