As mudanças que a indústria da moda sofreu nos últimos anos

Em um momento de incertezas, a sabedoria e a segurança que vêm com a idade passaram a ser motivo de exaltação também pela moda. Para entender as mudanças que a indústria passou nos últimos anos, Vogue conversou com modelos experientes, agentes e estudiosas da longevidade
CAMILA YAHN

A modelo Michele Ronson em foto do inverno 2021 da Ashish (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
A modelo Michele Ronson em foto do inverno 2021 da Ashish (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

Acompanho o mundo da moda há 20 anos, nunca me esqueci de uma entrevista que fiz no começo da carreira, na qual a modelo não podia dizer a idade.

Quando perguntei ao booker o motivo, senti como se cometesse uma gafe. A menina era mais velha do que os clientes imaginavam e revelar sua idade podia fazê-la perder trabalhos. Vale contar que estamos falando de uma jovem profissional de 20 e poucos anos que se passava por 17. Naquela época, começo dos anos 2000, uma modelo de 25, 30 anos estava com os dias contados.

Outra história sobre a intolerância da moda como envelhecimento quem me conta é a antropóloga Mirian Goldenberg. “Quando tinha 35 anos, no início dos anos 1990, fui comprar uma calça jeans em uma marca conhecida, a estilista olhou bem para mim e disse: ‘não quero a minha roupa desfilando por aí em uma mulher mais velha’. Com 35 anos, fui considerada uma mulher velha”, lembra Mirian, que também é pesquisadora e autora do livro “A Invenção de uma Bela Velhice”, sobre as novas maneiras de viver as etapas mais maduras da vida.

Iman na capa de março de 2018 da Vogue Arábia. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Iman na capa de março de 2018 da Vogue Arábia. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

Hoje, esses relatos parecem incoerentes e absurdos, ainda bem. Os padrões de beleza, que por décadas dominaram a comunicação da indústria da moda no Brasil e no mundo, passaram a ser confrontados pela parte mais interessada no assunto, a mulher. Sai o olhar masculino e branco por trás da criação das imagens para a exaltação da beleza real, na esteira das discussões raciais e de gênero.

A icônica Cindy Crawford na capa desta edição de aniversário da Vogue é prova disso. Aos 55 anos, a supermodelo norte-americana continua sendo o rosto de grandes marcas, fazendo participações bombásticas em desfiles e estampando capas de Vogue mundo afora. Cindy é um dos nomes mais proeminentes de um movimento maior: a celebração da maturidade na moda.

Isa Berenice no inverno 2020 de Fernanda Yamamoto (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Isa Berenice no inverno 2020 de Fernanda Yamamoto (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

Se antes a velhice era invisível e socialmente indesejável, hoje vemos mulheres com 50+ à frente de desfiles e campanhas de marcas como VersaceChanelDiorHermèsFendi Gucci – Alessandro Michele foi um dos primeiros diretores criativos do segmento de luxo a escalar uma mulher mais velha, colocando a atriz britânica Vanessa Redgrave, 84 anos, na campanha de cruise de 2017.

Naquele ano, outras mulheres notáveis também reiniciaram sua carreira à frente das câmeras: Joan Didion (Celine), Jane Birkin (Saint Laurent), Joni Mitchell (Saint Laurent) e Iris Apfel (Alexis Bittar) foram escaladas para grandes campanhas.

Virgínia Rodrigues no verão 2019/20 da Handred.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Virgínia Rodrigues no verão 2019/20 da Handred. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

“A moda mudou porque as mulheres mudaram, o conceito de velhice mudou. E o mercado finalmente percebeu que nós não somos invisíveis”, diz Goldenberg.

Em seus livros e palestras, a antropóloga mostra que após os 50 anos, a curva da felicidade cresce porque é quando a mulher se sente mais livre. “Não se pesquisava a velhice do ponto de vista da felicidade e da libertação. Só se falava enquanto doença e perdas. Essa visão de ser o melhor momento da vida para muitas mulheres é nova”, diz.

Danah Costa no verão 2020/21 da Handred.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Danah Costa no verão 2020/21 da Handred. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

Nesse contexto, os designers, que tradicionalmente antecipam mudanças de comportamento, passaram a valorizar a experiência, o estilo e o autoconhecimento de modelos mais velhas em seus trabalhos.

Em entrevista à Vogue britânica, Nadège Vanhee-Cybulski, diretora criativa da Hermès, explicou os motivos que a levaram a criar um casting diverso para apresentar a coleção de verão da marca. “Ampliar a noção de feminilidade nos ajuda a ver como a sensualidade é importante em diferentes fases da vida. Quero que as gerações mais novas saibam que o charme não diminui como passar dos anos e que as mulheres da minha idade e mais velhas saibam que continuam sendo desejadas”, afirma Nadège, de 42 anos.

Ana Luiza Nascimento no verão 2020 da Água de Coco.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Ana Luiza Nascimento no verão 2020 da Água de Coco. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

Prova da força desse movimento é o que tem experenciado a modelo Constanze von Oertzen com marcas nacionais. Aos 56 anos, ela desfilou ou estampou campanhas para Lenny Niemeyer, Amaro, Renner, Hering, Água de Coco, Haight, À La Garçonne, Handred, Aluf, entre outros.

Apesar das quatro décadas em contato com a moda, só recentemente se sentiu representada. “Fico muito feliz em ver que o mercado entendeu que precisa representar todos os tipos de mulheres. A nossa sociedade é múltipla, e a moda deve retratar essa diversidade”, diz. “Impossível a gente se imaginar num vestido mostrado por uma jovem de 20 anos”, completa.

Shirley Mallmann, uma das primeiras top models brasileiras, é outro exemplo de longevidade neste novo momento da profissão. Ela estourou em meados dos anos 1990, fazendo trabalhos para Jean Paul Gaultier, John Galliano e Alexander McQueen e hoje, aos 44 anos, ainda está na ativa. Entre seus trabalhos mais recentes, estão campanhas para a norte-americana Macy’s e as brasileiras Cris Barros e Lilly Sarti. “É algo que veio para ficar”, diz Shirley. “Ninguém vai desistir de ser representado.”

Kate Moss na alta-costura de verão 2021 da Fendi.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Kate Moss na alta-costura de verão 2021 da Fendi. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

Impacto econômico
Mas o que está impulsionando essa transformação? Um forte movimento de libertação feminina vem se fomentando há anos tendo como base o aumento da longevidade.

“Com isso, foram se criando novas nomenclaturas para as fases da vida”, diz Guita Debert, professora da Unicamp, antropóloga e pesquisadora do envelhecimento. “Essas fronteiras, atualmente, não são mais definidas por idade e, sim, por estilo de vida. E vemos, especialmente nos habitantes dos grandes centros, independente de classe social, que há um aproveitamento maior dessa fase mais velha.”

Hoje vivemos mais e melhor. As mulheres estão mais ativas e ganhando proeminência econômica. O impacto desse grupo tem sido chamado de She-conomy. Em um artigo sobre o tema, a diretora global de mercado da Ernst & Young, Annette Kimmitt, diz que “as mulheres representam o maior mercado e economia global emergente porque estão começando a ter enorme poder sobre política, esportes, negócios e sociedade”.

As marcas estão despertando para essas grandes oportunidades. Esse empoderamento das consumidoras, portanto, pauta a nova comunicação da indústria. “As diferenças de corpo, idade, tamanho, tom de pele, identidade trans agora são glorificadas e normalizadas”, disse a jornalista britânica Caryn Franklin, membro do Fashion Academics Creating Equality, um grupo de estudiosos que promove a inclusão na moda, à Vogue britânica.

Paulina Porizkova na capa da Vogue Checoslováquia deste mês. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Paulina Porizkova na capa da Vogue Checoslováquia deste mês. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

pandemia também acelera essa transformação. Em alguns estados brasileiros, a Covid-19 chegou a diminuir em três anos a expectativa de vida da população.

“Em um momento de tanta incerteza e mudança, a moda entendeu que a perenidade é importante. Não é à toa que tantas marcas passaram a levar a sustentabilidade tão em conta neste último ano”, diz Pedro Sales, diretor de moda da Vogue Brasil.

Constanze von Oertzen no verão 2019/20 da Aluf.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Constanze von Oertzen no verão 2019/20 da Aluf. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

Essa recente “descoberta” resultou numa mudança de mindset que ainda está em curso.

“Por muito tempo, o mundo da moda nos fez acreditar que, ao comprar algo de uma campanha representada por uma modelo jovem e magra, nós também alcançaríamos esse objetivo”, diz a empresária e modelo Luíza Brunet, 58. “Hoje, nos percebemos como mulheres maduras, com poder econômico, e sabemos o que queremos.”

Assim, o mercado foi obrigado a se mobilizar, e agências de casting precisaram se reinventar e buscar outros perfis de beleza, mais plurais, reais e, por isso mesmo, mais inspiradores e representativos. Anderson Baumgartner, sócio da agência Way Model, que representa estrelas como Carol Trentini e Alessandra Ambrosio, conta que seu negócio viveu essa mudança. “Estou há 23 anos na área e, durante minha vida inteira, as mães vinham me apresentar suas filhas. De um tempo para cá, as filhas vêm me apresentar suas mães. Olha a volta que a gente deu!”, diz.

Coco Mitchell no inverno 2020/21 de Christopher John Rogers.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Coco Mitchell no inverno 2020/21 de Christopher John Rogers. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

O caminho a ser percorrido é longo. Segundo Mirian Goldenberg, existe uma verdadeira velhofobia no Brasil. “Ainda há uma série de preconceitos aos corpos que são considerados fora do padrão de juventude, magreza e sensualidade”, diz. “Quanto mais liberdade, maior a reação dos velhofóbicos.”

Avançamos, mas ainda temos outras muralhas para derrubar até que idade e diversidade não sejam mais bandeiras. “Temos que chegar a um ponto onde a inclusão de todos os tipos não seja mais uma novidade”, diz a modelo Shirley Mallmann. Que assim seja e nós possamos chegar neste destino em que beleza é se sentir confortável em sua própria pele.

Helena Christensen no desfile que celebrou os 40 anos da Michael Kors, em abril passado.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Helena Christensen no desfile que celebrou os 40 anos da Michael Kors, em abril passado. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Setsuko Saito no inverno 2021 da A.Niemeyer.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Setsuko Saito no inverno 2021 da A.Niemeyer. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Farida Khelfa na alta-costura de verão 2021 da Fendi.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Farida Khelfa na alta-costura de verão 2021 da Fendi. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Greta Cuneo em editorial da Vogue Brasil de 2019 (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Greta Cuneo em editorial da Vogue Brasil de 2019 (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Michele Ronson no inverno 2021 da Ashish.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Michele Ronson no inverno 2021 da Ashish. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Penelope Tree no verão 2021 da Fendi.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Penelope Tree no verão 2021 da Fendi. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Georgina Grenville no verão 2021 da Hermès.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Georgina Grenville no verão 2021 da Hermès. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Pat Cleveland no verão 2019 de Tommy Hilfiger.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Pat Cleveland no verão 2019 de Tommy Hilfiger. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen no verão 2018 da Versace.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen no verão 2018 da Versace. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Étale Wainer no verão 2019/20 da Handred.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
Étale Wainer no verão 2019/20 da Handred. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
JoAni Johnson em campanha de 2019 de Ozwald Boateng.  (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)
JoAni Johnson em campanha de 2019 de Ozwald Boateng. (Foto: Getty Images, Imax Tree e Divulgação)

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