Giovanna Nader e a sua sustentabilidade sem neuras e moralismos: ‘ser uma mãe lixo zero é uma pressão gigantesca’

A consultora de moda sustentável lança esta semana o livro “Com que roupa?”, que funciona como um guia de como reinventar a relação com o consumo
Lívia Breves

A consultora de moda sustentável lança esta semana o livro “Com que roupa?”, que funciona como um guia de como reinventar a relação com o consumo Foto: Sher Santos | Edição de moda LARISSA LUCCHESE

O primeiro ambiente que a consultora de moda sustentável Giovanna Nader, de 35 anos, apresenta a quem chega em sua nova casa é a horta. Um sonho antigo, mas que a mineira que viveu temporadas em Barcelona (onde se formou em Branding pela Universitat Pompeu Fabra) e em São Paulo antes de fincar os pés no Rio, não havia realizado em nenhum dos endereços onde morou. Ela, o marido Gregório Duvivier, de 35 anos, e a filha Marieta, de 3, se aconchegaram no novo lar ao mesmo tempo em que a plantação foi tomando forma. Hoje, toda a salada verde consumida pela família já vem do quintal. “Realizei meu sonho da horta própria. Não há nada mais prazeroso do que comer o que você mesmo cuidou. Comecei há seis meses, plantei PANCs, principalmente, e agora já está tudo enorme. Tiro o meu sábado para ficar com a mão na terra”, conta ela.Vinagreira, amaranto africano, almeirão, couve, tomate-cereja, alecrim, salsa e coentro já estão em colheita na área externa do apartamento em Laranjeiras. “Acredito muito nessa soberania alimentar. E isso não é exclusivo para quem tem lugar aberto em casa, dá para produzir em canteiros nas ruas, ocupar o espaço público com agroflorestas e cultivar comida”, reflete.

Giovanna Nader Foto: Sher Santos | Edição de moda LARISSA LUCCHESE
Giovanna Nader Foto: Sher Santos | Edição de moda LARISSA LUCCHESE

Formada em Administração e referência em sustentabilidade, Giovanna entrou para esse universo pela moda, quando se desencantou com o mercado tradicional (muito por conta do desabamento do prédio Rana Plaza, em Bangladesh, onde funcionavam diversas fábricas têxteis e que deixou mais de mil mortos, revelando um lado obscuro do setor) e lançou o Projeto Gaveta, em 2013.

São eventos de trocas de roupa que acabaram embalando um movimento maior de consumo consciente e sustentabilidade ao mostrar que a roupa que andava encostada no armário de uma era exatamente o que a outra buscava. E assim foram trocadas mais de 70 mil peças.

“A moda foi um fio condutor para expandir a minha consciência na sustentabilidade. Mas a virada de chave veio com a maternidade. Durante o puerpério, me deparei com questões muito fortes. Pensava em como seria quando a Marieta tivesse 30 anos e os oceanos com mais plástico do que peixes, de acordo com as previsões. Em algum momento nossos filhos vão nos cobrar sobre o que estávamos fazendo quando a boiada passava e a gente não fez nada. Pensar no futuro dela foi meu grande start”, relembra.

Giovanna Nader Foto: Sher Santos | Edição de moda LARISSA LUCCHESE
Giovanna Nader Foto: Sher Santos | Edição de moda LARISSA LUCCHESE

Sem empresas por trás ou qualquer apoio financeiro de marcas, ela pegou os anos de teatro cursados, se jogou em pesquisas e começou a falar sobre sustentabilidade em suas redes sociais. “Foi quando me reafirmei como comunicadora”, diz. Durante os primeiros dias de pandemia, isolada em casa, Giovanna passou a se questionar sobre o que iria fazer naquele período. Dessa angústia nasceu o podcast “O Tempo Virou”, sobre conscientização ecológica. Semanalmente, ela recebe convidados para um bate-papo sobre meio ambiente e questões contemporâneas. O foco é apresentar pessoas que tocam projetos que estão fazendo a diferença para o planeta. Desigualdade ambiental, moda ética e ecológica, MST, o risco de novas epidemias, ecossocialismo, ecofascismo, lixo, agrofloresta e muito mais já foram temas debatidos ali.“Todo dia eu acordo pensando em como vou furar a minha bolha. Preciso ir além dos meus seguidores. Quero falar com quem acha que o aquecimento global não existe. A pandemia descortinou a desigualdade. Como já disse Chico Mendes, pensar a ecologia sem falar de luta de classes é fazer jardinagem”, diz.

Mas, apesar de querer mais e mais pessoas militando junto, Giovanna frisa que é preciso ter uma sustentabilidade sem neuras. Ela sabe o quanto pode ser frustrante querer abraçar todas as boas maneiras de uma só vez e não conseguir. “Nos primeiros anos da minha filha, tentei ao máximo usar fralda de pano, por exemplo. Mas nunca fui 100% satisfeita nisso. Criança é plástico a todo momento. Ser uma mãe lixo zero é uma pressão gigantesca. Vejo muita gente com ecoansiedade. Já é tanta coisa para se culpar na criação de um filho, ter mais essa é maldade. Para além das mudanças individuais, o importante é que as empresas se responsabilizem pelo seu lixo, que haja atuações do governo, leis federais e internacionais pensadas na ecologia e no social”, acredita.

Nos últimos dois anos, Giovanna se dedicou a escrever livro “Com que roupa?” (Companhia das Letras), lançado esta semana. O projeto começou focado em moda, mas virou um guia de como reinventar a relação com o consumo. São dicas que passam por armário cápsula, mas também por autoconhecimento, importância de consumir menos e melhor, como estender a vida útil das coisas e a maneira certa de descartá-las. “Quando o céu de São Paulo ficou com uma nuvem negra por causa da fumaça das queimadas, em setembro de 2019, fiquei paralisada. Questionei como eu poderia falar de moda enquanto o mundo acabava. Comecei a achar o livro raso e mudei. Ampliei para o mercado de moda. Depois veio a pandemia. Paralisei novamente. Até que resolvi fazer um questionamento do mundo, uma reflexão maior. Nunca me imaginei ativista, mas a vida me obrigou”, conta ela, que também apresentou a série “Se essa roupa fosse minha”, exibida em 2019 no GNT, sobre a delícia que é garimpar em brechós.

Giovanna Nader Foto: Sher Santos | Edição de moda LARISSA LUCCHESE
Giovanna Nader Foto: Sher Santos | Edição de moda LARISSA LUCCHESE

Uma das primeiras pessoas a linkar sustentabilidade com a moda, Chiara Gadaleta, fundadora do Movimento Ecoera, criado em 2007, entende a importância de novas gerações envolvidas com esses temas. “Quando começamos nossa jornada integrando a sustentabilidade no mercado da moda, 15 anos atrás, éramos os únicos a levantar essa bandeira. Hoje, somos muitos mensageiros a favor do planeta e das pessoas. A Giovanna polemiza e mistura ativismo com a linguagem das redes sociais. Isso é importante, e precisamos cada vez mais de indivíduos que espalhem a urgência de uma moda mais responsável e consciente”, percebe.

Gregorio Duvivier, com quem namora desde 2016 e se casou dois anos depois, já com Marieta no colo, acompanha os movimentos sustentáveis da rotina com prazer. “O jeito de ela fazer política é muito propositivo, sem moralismos. Nunca vi a Giovanna dando bronca em alguém, usar um tom de cima para baixo. Prefere muito mais fazer pontes”, comenta ele. “Além disso, ela também gamifica as coisas. De jogar o lixo no lugar certo à moda, quando explica que o jeito de se vestir é uma maneira de se expressar, sobretudo politicamente. Mais do que impedir alguém de gostar de fast fashion, ela apresenta todo um universo de trocas, brechós, upcycling. Aprendi a bordar, fiz a bainha de uma calça e estou todo orgulhoso. Criei relações mais afetivas ao invés de pensar que são coisas descartáveis”, elogia.

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