Joel Chadabe, experimentador da música eletrônica, morre aos 82 anos

Compositor e defensor do gênero, Chadabe devotou-se ao que um crítico qualificou como o “casamento entre os humanos e seus computadores”
Por Alex Vadukul – The New York Times

O compositor Joel Chadabe  na State University of New York em Albany, onde foi contratado aos 27 para dirigir o estúdio de música eletrônica da universidade

Joel Chadabe, um dos compositores que introduziram a música eletrônica nos anos 1960, que posteriormente desenvolveu softwares de composição musical e criou a Fundação da Música Eletrônica, uma organização de defesa desse gênero musical, morreu em 2 de maio, em sua casa em Albany, Nova York. Ele tinha 82 anos.

Sua mulher, Françoise Chadabe, afirmou que a causa foi câncer ampular, uma rara forma da doença, semelhante ao câncer de pâncreas.

Em 1965, quando Chadabe tinha 27 anos e a música eletrônica ainda era incipiente, a Universidade do Estado de Nova York em Albany o convidou para dirigir o estúdio de música eletrônica da instituição. Ele havia se graduado recentemente na faculdade de música de Yale e gostava de jazz e ópera, mas precisava de um emprego, então aceitou a proposta. De sua posição na universidade, Chadabe começou a explorar as maravilhas de fazer música com máquinas.

“Aceitei, acho, porque porque para mim isso era uma fronteira”, afirmou em uma entrevista à Universidade de Minnesota, em 2013. “Era a nova fronteira da música, e vi possibilidades ilimitadas.”

Logo depois, Chadabe (pronuncia-se cha-da-BII) incumbiu Bob Moog, que começava a desenvolver um sintetizador comercial, de construir um para o estúdio. Inicialmente, Chadabe pôde pagar apenas por parte do sintetizador (que ele alimentava com uma bateria de carros), mas depois de conseguir financiamento suficiente, pediu a Moog para criar o que chamou de “supersintetizador”. O resultado, conhecido pelo acrônimo em inglês CEMS (Estúdio Coordenado de Música Eletrônica), foi um sistema que ocupava completamente uma sala da universidade e oferecia vastas possibilidades sonoras. Estudantes logo passaram a fazer fila para experimentar o equipamento.

Chadabe logo se viu maravilhado com as máquinas. Ele esperava o campus esvaziar e, de noite, ficava a sós com o sintetizador, girando seus botões para criar paisagens sonoras. Ele passou a compor música eletrônica prolificamente e lançou vários álbuns experimentais, incluindo “After Some Songs”, de 1995, que apresentava abstrações do músico sobre standards de jazz, e “Many Times …”, de 2004.

Chadabe organizava concertos na universidade para os quais convidou compositores avant-garde como Alvin Lucier e Julius Eastman para apresentar suas obras. Em 1972, John Cage visitou o estúdio para gravar “Bird Cage”, uma colagem sonora composta por estridentes pios que ele havia registrado em aviários. Chadabe também comprou para a universidade um dos primeiros sistemas Synclavier, o sintetizador digital usado por grupos como KraftwerkDepeche Mode e Genesis.

Em uma crítica de um desses concertos, em 1983, Bernard Holland escreveu no New York Times que “Chadabe parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, fazendo perguntas gentis e tímidas a respeito de quem seria o regente e quem faria  acompanhamento nesse novo casamento entre os humanos e seus computadores, a respeito de como e quão completamente as pessoas lidarão com as potenciais riquezas e as intimidantes complexidades dessa nova adição à nossa família de instrumentos musicais”.

Nos anos 1980, Chadabe começou a desenvolver softwares de composição que músicos podiam usar para criar temas eletrônicos em casa. Ele fundou uma empresa chamada Intelligent Music, que lançou programas como M, Jam Factory e UpBeat, que a banda New Order usou para gravar seu álbum “Technique”, de 1989.

Em 1994, Chadabe constituiu a Fundação da Música Eletrônica, uma organização sem fins lucrativos com objetivo de divulgar a música eletrônica. O grupo organizou concertos e festivais; tinha um selo de gravação que lançava obras de compositores como Cage, Laurie Spiegel e Iannis Xenakis; e manteve uma loja online de CDs.

“Muita gente importante na cena eletrônica não era exatamente relevante em termos de público, mas Joel era incrivelmente interconectado com a comunidade e atingiu muitos ouvidos com a Fundação da Música Eletrônica”, afirmou Kyle Gann, que foi por muito tempo crítico de música de vanguarda do jornal alternativo The Village Voice. “Ele tinha uma tremenda influência no underground.”

Quando artistas como Daft Punk e Chemical Brothers chegaram ao sucesso nos anos 1990, Chadabe considerou que era vital documentar a história da música eletrônica enquanto os pioneiros do gênero ainda estavam vivos. Ele publicou o livro “Electric Sound: The Past and Promise of Electronic Music”, com mais de 150 entrevistas com personalidades como Moog e compositores como Milton Babbitt, Pierre Henry e Éliane Radigue, além de Ikutaro Kakehashi, fundador da Roland Corp. e um dos arquitetos do padrão de interface MIDI (inevitavelmente, as contribuições do próprio Chadabe também foram incluídas no livro).

Ao entrevistar seus personagens, Chadabe tentou descobrir o que os motivou a fazer música com máquinas.

“Eu perguntava para as pessoas, ‘Por que você usa a eletrônica’”, recordou-se na entrevista para a Universidade de Minnesota. “Uma das respostas que eu mais escutava era, ‘Para produzir qualquer tipo de som’.”

Joel Avon Chadabe nasceu em 12 de dezembro de 1938, no Bronx, e cresceu na região de Throgs Neck. Seu pai, Solon, era advogado. Sua mãe, Sylvia (Cohen) Chadabe, era dona de casa.

Joel frequentou a escola particular Bentley, em Manhattan, e estudou piano erudito. Seus pais queriam que ele fosse advogado, mas em vez de direito, ele estudou música na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, onde de formou em 1959. Em Yale, ele estudou com o compositor Elliott Carter e depois que se graduou no mestrado, em 1962, continuou os estudos com Carter na Itália. Ele estava em Roma quando ouviu falar da incomum vaga de trabalho na Universidade do Estado de Nova York em Albany.

Além de sua mulher, ele deixa o filho, Benjamin, e uma irmã, Susan Strzemien. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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