‘Um estranho cuspiu em mim no hospital’: preconceito atinge as médicas de origem asiática nos EUA

A maior atenção ao ódio antiasiático me força a reconhecer o quanto nós, médicas de ascendência asiática, somos humilhadas e como a coragem que mostramos na pandemia não nos protege do racismo nem do sexismo
Chaya Bhuvaneswar, do New York Times

Em depoimento, médica conta o preconceito que asiáticas sofrem nos EUA, até mesmo dentro de hospitais Foto: Shreya Gupta/NYT

No comecinho da pandemia, em meados de abril de 2020, um estranho cuspiu em mim. Depois de supostamente notar meu crachá e a máscara, anunciou que, mesmo sendo médica, eu trouxera a doença. Ele me chamou de “hindu”, além de soltar uma série de xingamentos. Eu me afastei rapidamente, tirei a saliva do cabelo no banheiro do hospital e comecei o dia de trabalho. Tinha outras coisas na cabeça: nós, profissionais da saúde, estávamos fazendo plantões extras, mesmo que o vírus tivesse virado nossa vida do avesso.

Tive um orgulho imenso de ser médica – sou psiquiatra de um hospital da Grande Boston – quando o país mais precisou de mim, e isso bateu fundo na minha americanidade. Eu me senti necessária e notada, comovida ao ouvir estranhos agradecidos batendo panelas, demonstrando sua admiração por todos nós na linha de frente, fazendo nosso trabalho sem reclamar.

Eu checava minha temperatura e minha saturação duas vezes por dia, e cumpri a quarentena longe dos meus filhos pequenos. Atravessava a cidade para chegar a lojas de suprimentos médicos, garantir o estoque de equipamentos pessoais de proteção e compartilhá-lo com os colegas e funcionários. Oferecia máscaras extras para caixas de supermercados e doava material de limpeza para hospitais que já estavam no limite. Eu nunca fora para a guerra, mas agora me via no campo de batalha.

Eu preferia me concentrar em tudo isso, e não nas palavras cruéis do estranho. Mas o fato é que eu já fora submetida ao mesmo tipo de ódio e preconceito que ele demonstrou, em locais públicos e no ambiente hospitalar, mas até este ano não tinha enfrentado nem reconhecido integralmente o impacto desse tipo de agressão. Meu treinamento médico me estimulava a focar o trabalho e negar/minimizar a discriminação que enfrentava.

Mas a maior atenção que vem sendo dada ao ódio antiasiático me força a reconhecer quanto nós, médicas de ascendência asiática, somos humilhadas como grupo, e como a coragem que mostramos, arriscando a vida para trabalhar durante a pandemia, não nos protege de ter de enfrentar o racismo e o sexismo.

Fui percebendo isso aos poucos, com o andar da pandemia, vendo o preconceito se intensificar. Donald Trump, usando expressões cruéis – como “vírus chinês” e “Kung Flu” (trocadilho em menção a gripe) –, sem dúvida foi inspiração para parte dos abusos. Com o assassinato das asiático-americanas em Atlanta e a proliferação de espancamentos brutais sofridos por membros desse grupo, incluindo idosos e mulheres, ficou impossível ignorar tal ódio.

Quando ouvi a suposta explicação do suspeito de matar oito pessoas, sendo seis asiático-americanas, eu sabia que estava ouvindo os estereótipos normalmente usados para nos caracterizar, independentemente de nossa profissão. “Tentação”, foi como se referiu às vítimas, de acordo com as autoridades. Para ele, o rosto e o corpo daquelas mulheres estavam relacionados com seu tormento.

Também já fui estereotipada por colegas e pacientes: dócil e passiva. Respeitosa. Hesitante. Servil. O preconceito insistente e pernicioso dos norte-americanos contra as mulheres como eu nos invalida diariamente. O jaleco branco e o crachá do hospital não desencorajam a agressão – pelo contrário, tornam-nos alvos. Nossa existência nesse papel relativamente poderoso desafia a dominância do homem branco.

Não é surpresa, portanto, o fato de que a uma das primeiras médicas asiático-americanas a clinicar nos EUA, a dra. Margaret Chung, foi permitido estudar, ainda que tenha sido forçada a atuar apenas como enfermeira nos primeiros meses depois da conclusão da faculdade de medicina, em 1916.

Quando as restrições às cotas de imigrantes foram afrouxadas na tentativa de acabar com a falta de médicos, no fim dos anos 60, uma geração inteira de médicas diplomadas em outros países abriu caminho para que suas filhas e netas pudessem praticar a medicina. Acontece que não só os estereótipos nos seguiram, mas a violência também.

Ouço casos de amigas, colegas de profissão e de faculdade, em uma espécie de “telefone sem fio” de médicas de origem asiática naturalizadas em vários pontos do país que dividem experiências que vão de microagressões à violência física, como ser tratada pelo primeiro nome e por apelidos humilhantes por médicos e enfermeiros brancos e ter de recusar com calma e paciência as exigências inapropriadas dos pacientes homens que pedem massagem. Nunca me esqueci da história de uma médica de origem coreana que me contou de um médico branco que lhe exibiu as partes íntimas na biblioteca da universidade, enquanto ela estudava para as provas.

Lidar com esses desafios pode ser uma experiência intensamente solitária e isolante. Não chegamos nem perto do número que muita gente imagina, baseada na infinidade de séries de TV e filmes que colocam mulheres asiáticas no papel de médicas. Em 2018, cerca de nove por cento dos quase 800 mil médicos entrevistados pela Associação de Faculdades de Medicina dos EUA se identificaram como mulheres asiático-americanas de acordo com a raça e o gênero (as médicas negras e hispânicas são ainda mais raras, representando cerca de três por cento cada). Só para comparar, 43 por cento dos participantes se identificaram como homens brancos.

No ano passado, somente 64 diretorias dos departamentos médicos do país, das mais de três mil registradas, eram ocupadas por médicas asiático-americanas (em relação a 2.037 por homens brancos e somente 49 por mulheres negras, que também enfrentam atitudes discriminatórias).

Desde que eu ainda era estudante, alguns pacientes disseram a mim e a outras médicas de origem asiática que não pertencemos a este país. Em março, Lucy Li, anestesista residente de ascendência chinesa, foi agredida verbalmente quando saía do plantão no hospital. Oranicha Jumreornvong, que imigrou da Tailândia em 2014, foi agredida fisicamente em fevereiro, a caminho da faculdade de medicina em Nova York, onde estuda.

Passei a crer que todos esses incidentes são insuflados pelas mesmas atitudes racistas e misóginas – e que a contribuição e os sacrifícios a que me disponho como médica nunca serão suficientes para proteger a mim e/ou a outras mulheres como eu.

Apesar de tudo, continuo tendo orgulho do meu trabalho durante a pandemia. Só não posso mais ignorar o ódio específico, fetichizado e misógino que a mulher asiático-americana sofre, tanto dentro como fora do ambiente hospitalar. Algo tem de mudar. Nossa coragem deveria se reservar apenas para o desafio da pandemia, e não ser necessária para tolerar percepções distorcidas e palavras feias como as que nos atingem todo dia.

* Chaya Bhuvaneswar é médica e autora de “White Dancing Elephants”, coletânea sobre experiências de mulheres de cor que enfrentam assédio sexual e violência racial

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