Por que as Angels caíram do céu da Victoria’s Secret?

As imagens que levaram a marca a faturar fortunas e que fizeram de suas modelos parte da cultura pop hoje parecem inimagináveis e retrógradas
Vanessa Friedman, do New York Times

A partir da esquerda: a modelo Karlie Kloss, no desfile anual da Victoria’s Secret, em 2011; a modelo Adriana Lima no desfile de 2016, realizado no Grand Palais, em Paris Foto: NYT

Desde que foi divulgada a notícia de que a Victoria’s Secret, gigante da lingerie e dos espetáculos de moda, estava aposentando seu bando de angels em favor de um grupo diversificado de mulheres com currículo igualmente diverso, a mídia tem publicado uma série de comentários comemorando que “já tinha passado da hora”, bem como fotos de antes e depois que nos fazem lembrar de incontáveis decotes, fantasias e clichês de gatinhas sensuais.

Em vista do movimento #MeToo e das manifestações recentes por justiça social, as imagens que levaram a Victoria’s Secret a faturar fortunas e conquistar público – tornando suas modelos favoritas uma parte da cultura pop – parecem não apenas retrógradas, mas praticamente inimagináveis, como se olhássemos para uma civilização perdida, enterrada sob um monte empoeirado de cintas-ligas e meias-calças.

Há, por exemplo, uma imagem de Heidi Klum, feita em 2003, usando asas brancas e fofas de três metros e meio de altura, calcinha e sutiã pushup brancos cravejados de cristais, salto agulha branco com tira no tornozelo e uma gargantilha branca correspondente, tipo coleira de cachorro, em volta do pescoço; também há fotos de 2005 de Gisele Bündchen, Karolina Kurkova e Alessandra Ambrosio usando calcinha branca com acabamento em pele, sutiã, capuz e botas de cano alto até o joelho, como ajudantes travessas do Papai Noel.

Há novamente uma foto de Klum, dessa vez em 2008, com um laço gigantesco de lantejoulas nas costas e correntes cravejadas de brilhantes ao redor de sua minúscula calcinha vermelha; há Isabeli Fontana em 2010 com um uniforme metálico de halterofilista e sutiã prata, carregando um par de halteres, e também Karlie Kloss como um cavalo-marinho sexy, Adriana Lima como uma super-heroína sensual e Joan Smalls como um tigre sexy atravessando… uma falsa roda de fogo?

Afinal, em seu auge, o desfile de moda da Victoria’s Secret, que durou de 1995 a 2018, foi transmitido em mais de cem países, tendo sido visto por milhões de pessoas em todo o mundo, e ajudou a empresa a gerar quase US$ 7 bilhões em vendas anuais. A Victoria’s Secret investiu grandes somas para conquistar sua legitimidade no mundo da moda – e aos olhos de quem acompanha o setor.

Antes que os desfiles de moda itinerantes viajassem pelo mundo, os desfiles da Victoria’s Secret já viajavam; quando o desfile chegou à França em 2016, foi realizado no Grand Palais, local normalmente reservado para a Chanel. Olivier Rousteing (da Balmain), Clare Waight Keller (então na Chloé) e Riccardo Tisci (então na Givenchy) estavam na plateia. Lady Gaga e Bruno Mars competiram para se apresentar. Os sutiãs e as asas eram tratados como verdadeiras notícias do setor por revistas como a “Harper’s Bazaar”, a “Vogue” e a “Elle” (e, na ocasião, também pelo “The New York Times”).

— Era algo extremamente legítimo. As modelos faziam editoriais de alta-costura, desfiles, campanhas publicitárias – e trabalhavam para a Victoria’s Secret — disse Ivan Bart, presidente da IMG Models and Fashion, a agência que representou angels como Bündchen e Kloss.

Sim, as mulheres realmente desejavam desfilar em uma passarela que parecia um bordel comandado pelo muppet Garibaldo. Queriam de fato ser conhecidas (ou pelo menos aceitavam ser conhecidas) como angels, termo que a marca inventou em 1997 e que agora dá vergonha alheia, referindo-se ao estereótipo da “Playboy” da moça de família que sabe ser má entre quatro paredes. É um lugar-comum que nos acompanha desde Stendhal e “As Ligações Perigosas” até a bibliotecária que tira os óculos e solta o cabelo para revelar que, na verdade, é muito sensual. Um lugar-comum que ignora o grau de esforço envolvido na obtenção do corpo necessário para participar de um desfile que muitas vezes tem uma semelhança desconcertante com a pornografia softcore.

Ao mesmo tempo, a Victoria’s Secret entendeu o fascínio da marca pessoal, ascendendo pouco antes de o Instagram transformar a noção de fama. Ao escolher suas angels e promovê-las como pessoas e estrelas – na verdade, treinando-as para a mídia –, a marca deu às modelos poder, destaque e segurança. Tudo isso prometia servir de trampolim para a próxima etapa de sua carreira, além de torná-las mais competitivas em relação aos atores e atrizes que ocupavam cada vez mais as capas das revistas de moda.

E a Victoria’s Secret pagava bem: quando Bündchen deixou a empresa, em 2006, era a modelo mais bem paga do mundo e disse à “Refinery29” que a Victoria’s Secret representava 80 por cento de sua receita. Não é de admirar que algumas de suas angels tenham incluído Karen Mulder (a primeira angel), Tyra Banks, Naomi Campbell e Miranda Kerr.

Em 2013, quando a WME, a gigantesca agência de talentos de Hollywood, comprou a IMG, a empresa de gerenciamento de moda e esportes, parte do motivo foi que ela viu a oportunidade de desenvolver a moda como entretenimento. Em 2015, seus executivos, Ari Emanuel e Mark Shapiro, estiveram na primeira fila do desfile da Victoria’s Secret, fazendo anotações.

Esse efeito contribuiu para esconder o lado sombrio da história: as dietas malucas (sem comida sólida por dias antes do desfile!) e as rotinas de condicionamento físico (pelo menos dois treinos por dia) que as modelos realizavam em busca do esquivo corpo perfeito (sem falar na conexão com Jeffrey Epstein), promovendo uma versão irreal do corpo feminino para o mundo.

Isso acabou, o que não quer dizer que essa versão de “sexy” tenha desaparecido totalmente. Na verdade, percebemos que a feminilidade exagerada que as angels foram criadas para representar não subiu aos céus nem foi para o inferno, dependendo do ponto de vista.

Em vez disso, essa imagem ainda existe na comunidade drag (na qual, sem dúvida, as angels podem ser encontradas o tempo todo), embalada para consumo popular e positivo na forma de programas como “RuPaul’s Drag Race”. E a força de caráter merece seu devido valor como uma forma poderosa de sedução. Uma que realmente tem asas.

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