Em Cannes, filme brasileiro ‘Medusa’ afronta extremismo religioso na era Bolsonaro

Longa de Anita Rocha da Silveira fala muito sobre o Brasil atual com trama aparentemente distópica
Bruno Ghetti

Cena do filme 'Medusa', que Anita Rocha da Silveira apresenta no Festival de Cannes
Cena do filme ‘Medusa’, que Anita Rocha da Silveira apresenta no Festival de Cannes Bruno Mello/Divulgação

Nenhum filme 100% brasileiro disputa a Palma de Ouro deste ano, mas a Quinzena dos Realizadores, mostra que ocorre paralelamente em Cannes, reservou espaço para ao menos um longa “puro sangue” do Brasil.

E põe Brasil nisso. “Medusa”, da carioca Anita Rocha da Silveira, que estreia em Cannes nesta segunda, fala muito sobre o país de hoje, ainda que por meio de uma trama aparentemente distópica, repleta de fantasia e com uma estética que investe no artifício.

Assim como em seu longa de estreia, o instigante “Mate-me por Favor”, de 2015, a cineasta usa e abusa de uma linguagem propositalmente excessiva —desta vez, para falar de um Brasil em que o fanatismo neopentecostal revela sua face mais conservadora.

Mostrando cultos performáticos altamente kitsch, fiéis que defendem o reacionarismo como se fossem soldados e um pastor que seduz pelo discurso e pela pinta de galã, o filme chega por vezes a soar como uma caricatura do extremismo religioso no país.

“Mas essa parte da igreja é a que é mais próxima da realidade [no filme]”, diz a cineasta, em entrevista por vídeo, durante sua quarentena em Paris pouco antes do festival. “A gente viu muitos cultos. Tem muita coisa no YouTube, alguns filmados até com múltiplas câmeras. Transcrevemos sermões e começamos a entender essa linguagem”, conta a diretora, que recriou em seu filme muito do que descobriu em sua incursão pelo mundo da fé.

A protagonista é Mariana, a adorável Mari Oliveira, jovem evangélica, recatada e do lar. Ela e suas amigas participam do coro da igreja, em espetáculos com fundo de néon e letras musicais que misturam louvor com romantismo. Defendem valores tradicionais e aceitam o machismo daquele ambiente. Mas apesar da devoção a Jesus, são bem mais terrenas no que tange a própria vaidade –valorizam a aparência física tanto quanto a castidade e o pudor.

Os fiéis se policiam mutuamente o tempo todo e seguem o conselho do pastor de evitar contato com pessoas sem a mesma fé.

“Nos [cultos] neopentecostais, falam muito [a frase] ‘não confiem nas pessoas do mundo!’, que é uma expressão que nos ajuda a entender a desinformação que levou à eleição de 2018”, diz a diretora, em referência à potencial contribuição evangélica para o fenômeno do bolsonarismo. Embora ela mesma pondere que “é uma igreja que está dando apoio às pessoas em um lugar em que o Estado não vai”.

As garotas, apesar da vaidade, não podem aproveitar a própria formosura na satisfação de prazeres da carne. Talvez por isso hostilizem mulheres que levam uma vida mais mundana —à noite, saem mascaradas pelas ruas para espancar as sexualmente liberadas. O misterioso sumiço de uma das “pecadoras” guiará o filme, numa trama com ares de horror, em que o estranhamento formal coexiste com instantes cômicos e uma análise enfática daquela sociedade em desacerto.

“Em 2015, a gente já sentia esse retorno de uma certa extrema direita. Já desde [as manifestações de junho de] 2013 tinha alguma coisa ali pairando. O que me inspirou inicialmente foram histórias reais de garotas que se juntavam para agredir outra, que consideravam ‘piranha’”, afirma Silveira.

“E se juntavam não só para bater, mas às vezes para deixar a menina ‘feia’, cortando seus cabelos. Aí lembrei logo do mito grego da Medusa, que era uma sacerdotisa muito bonita, mas que um dia perdeu a pureza —por isso, foi castigada por Atena, que a tornou uma criatura horrorosa”, diz.

“Então fiquei pensando na construção da civilização, nessa lógica de uma mulher ter que ficar controlando outra e em como o machismo estrutural já está aí desde sei lá quando, impregnado em nós”, afirma a cineasta.

De fato, o grande alvo do longa é o conservadorismo patriarcal. O fanatismo religioso, claro, também está na mira, mas nunca há ali um questionamento no âmbito da espiritualidade. “Meu interesse não é criticar a fé de ninguém, mas certas vertentes que se apropriam da Bíblia para promover discursos homofóbicos, racistas e machistas, comportamentos intolerantes”, diz a carioca.

É difícil falar detalhadamente sobre “Medusa” sem incorrer em spoilers, mas digamos que a protagonista só consegue se liberar na base do grito. “Um berro contra o patriarcado”, conforme resume a própria diretora.

É um filme que causa estranheza, o que é coerente com o projeto estético da cineasta desde seus curtas, como o misterioso “Os Mortos-Vivos”, de 2012.

Há novamente uma câmera interessada na performatividade dos personagens e em sua dimensão mais corpórea, destacando organismos em decomposição, feridos, com hematomas —sintomáticos de uma sociedade não muito saudável.

Mas, desta vez, a fisicalidade feminina também cede espaço para a representação objetificada de corpos de homens; o exército evangélico traz rapazes se exercitando, com roupas coladas e músculos suados, em imagens que despertam tanto o pavor quanto a libido das personagens.

E o talento da diretora para mostrar ambiguidades por meio da reiteração excessiva do óbvio se mantém –a linguagem do excesso mobiliza sensorialmente o público.

Embora o filme não tenha o mesmo frescor de “Mate-me por Favor”, até pelo viés mais engajado, reitera que Silveira é uma das vozes mais autênticas do nosso cinema atual. Se a Medusa do mito tornava pedra quem olhava para ela, a de Silveira petrifica o espectador pelo poder de suas imagens —ao mesmo tempo em que o liberta, em sua mensagem progressista.

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