Série ‘Physical’ tem humor e drama em dosagens exatas

Rose Byrne em cena da série ‘Physical’ (Foto: Apple TV+)

Estreia da Apple TV+“Physical” nos leva a 1981, em San Diego, na Califórnia. Os sutiãs queimados pelo Movimento de Libertação Feminina já viraram cinzas. O Vietnã é passado, vencido pela onda pacifista. É nesse ambiente que somos apresentados à protagonista. Sheila (Rose Byrne) foi uma jovem militante na época da faculdade, em San Francisco. Casou-se com o líder estudantil que todas as outras moças queriam namorar, Danny (Rory Scovel). E virou uma dona de casa com um cotidiano banal. Esse passado cheio de sonhos e ambições derivou numa vida que se resume a levar e buscar a filha pequena na escola, preparar o jantar e passar no supermercado.

O dia a dia de Sheila é aparentemente desprovido de surpresas. Por dentro, porém, ela está longe de se sentir pacificada com tanta monotonia. Sofre de inanição intelectual. E de um apetite não saciado no sentido objetivo também: tem bulimia. Todas as tardes ela se dirige ao drive-thru de uma rede de fast-food e compra um monte de sanduíches e refrigerantes. Depois, segue para um motel barato e cumpre um ritual: tira a roupa e dispõe a comida sobre o lençol. Devora tudo para, em seguida, ir ao banheiro e vomitar. Assim, de diária em diária, vai consumindo, escondido, as economias que ela e o marido fazem há anos.

E falando no marido. Incapaz de se preocupar com quem está em volta, ignora o distúrbio dela. Danny é autocentrado, vaidoso, galinha e não presta atenção aos desejos de Sheila. Aquele charme que ela enxergava nele quando se conheceram, na juventude, se desfez. Já no primeiro episódio (serão dez no total) perde o emprego de professor. Decide então se lançar na política. A mulher o consola, se mostra solidária e só tem palavras de encorajamento. Mas não nutre qualquer admiração por ele. Só irritação e desprezo. Em muitos momentos, sente ódio.

Conhecemos duas Sheilas. Uma é a da superfície, doce e diligente. A outra, complicada, tem uma voz, mas ela é mental e só os espectadores escutam. Quando ela soa, é a personagem comentando com crítica, mordacidade e amargura todos os acontecimentos de sua vidinha entediante. Sheila expressa a opinião sincera que tem sobre o marido. Admite as dificuldades de resistir à tentação de devorar todos os doces do mundo. É um pensamento claro e de uma franqueza absoluta. É um recurso da dramaturgia que faz lembrar, mesmo que de longe, a série britânica “Fleabag”. Ele ajuda a estabelecer uma cumplicidade com o espectador, que é tratado como uma espécie de confidente.

“Physical” é ambientada naquele mundo das aulas de ginástica à la Jane Fonda tão populares nos anos 1980. Trata da objetificação da mulher, de feminismo, de maternidade e de distúrbios alimentares que, daquela época até hoje, só se multiplicaram. É profunda como os pensamentos irrevelados de Sheila. Mas não se leva tão a sério e faz rir. Vale conferir também para apreciar o trabalho do elenco e a reconstituição de época. PATRÍCIA KOGUT

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