‘Abraçar a diversidade é o caminho para o turismo’, defende diretor de feira do setor

Simon Mayle está à frente da WTM Latin America, que começa nesta terça, de maneira 100% virtual
Eduardo Maia

Um letreiro com a palavra “Love” no calçadão do Parque Marinho de Odaiba, em Tóquio, no Japão Foto: PHILIP FONG / AFP

RIO – Pela primeira vez em formato 100% digital, por causa da pandemia, a WTM Latin America chega à sua nona edição mais atenta a pautas como diversidade e sustentabilidade. É o que diz o Simon Mayle, diretor dessa que é uma das feiras do setor de viagens e turismo mais importante do Brasil. O evento começa nesta terça-feira, 10 de agosto, e vai até o dia 13, sexta-feira.

Com mais de três mil profissionais do turismo inscritos para participarem de reuniões com representantes de 352 expositores de 19 países (como Maldivas, Egito, Polônia, Israel, Argentina, Guatemala, Barbados e Chile), a feira retoma as atividades em 2021, após ter sido suspensa no ano passado por conta da pandemia. A Covid-19 continua entre nós, mas a organização do evento encontrou maneiras de realizar não só os encontros, mas as palestras e seminários de maneira virtual, através de uma plataforma própria.

Simon Mayle, diretor da feira de turismo WTM Latin America, que volta a ser realizada em 2021, de maneira 100% virtual Foto: Divulgação
Simon Mayle, diretor da feira de turismo WTM Latin America, que volta a ser realizada em 2021, de maneira 100% virtual Foto: Divulgação

Em entrevista ao GLOBO, Mayle falou sobre como a pandemia acelerou o debate dessas questões no mercado do turismo, que vivia tempos de crescimento “pouco sustentável”. Ele discorreu também sobre como a crise sanitária pode ter ajudado a abrir o horizonte dos brasileiros para outros destinos, dentro e fora do país. Acompanhe a seguir a conversa:

O turismo vai voltar diferente depois da pandemia?

Tínhamos números de desenvolvimento no turismo que não eram sustentáveis. Cada vez mais pessoas viajando para os mesmos lugares, sobrecarregando cidades e ecossistemas inteiros. Com a parada forçada, muita coisa começou a ser repensada.

Não é mais possível ter o volume de turistas em cidades como Lisboa ou Barcelona, onde a indústria do aluguel de temporada vinha tornando inviável para os habitantes continuarem vivendo ali. Também algumas cidades históricas, como Veneza, conseguiram finalmente impedir grandes navios de cruzeiro, que as estavam destruindo. Acredito que muitos governos estão focados em espalhar mais o visitante e promover o turismo sustentável.

Moradores de Veneza protestam contra a presença de grandes navios de cruzeiros na cidade, em junho de 2021 Foto: Manuel Silvestri / REUTERS
Moradores de Veneza protestam contra a presença de grandes navios de cruzeiros na cidade, em junho de 2021 Foto: Manuel Silvestri / REUTERS

De parte do público, a pandemia acelerou um processo que já vinha acontecendo. As pessoas já estavam procurando grandes espaços de natureza, mais abertos, onde pudessem se reconectar com elas mesmas.

O mercado já se adaptou a essas novas demandas?

A participação das empresas é muito importante, principalmente as agências de viagem, neste momento de retomada do turismo. O bom agente já sabe informar ao turista que queira ir, por exemplo, a Barcelona, que parte dos serviços da cidade podem não estar funcionando amplamente, e indicar outros destinos nos arredores, para que o viajante possa explorar ainda mais coisas sem entrar em aglomerações nem sobrecarregar um destino já sobrecarregado.

Na programação de palestras, percebemos a presença de temas como turismo LGBT, afroturismo, presença feminina na indústria de viagens. Esses assuntos também estão ganhando mais força no setor, durante esse momento de retomada?

A diversidade precisa sempre ser muito debatida no nosso setor, e é ótimo que esses temas estejam crescendo bastante em termos de espaço nos eventos gerais, como este, e não apenas nos voltados para esses segmentos.

Abraçar a diversidade é o caminho para o turismo. E por uma questão de mercado, inclusive. As novas gerações estão crescendo com mais liberdade e informação. Há pesquisas que indicam que, nos EUA, 8% dos “baby boomers” se identificam como LGBTs. Já na geração dos millennials, esse número sobe para 31%. Ou seja, um terço de todos os clientes que todo mundo do turismo vai querer atender.

O público LGBT, por exemplo, viaja bastante, de quatro a seis vezes a mais e com gasto cerca de um terço a mais que a média. Ainda assim, enfrenta questões desagradáveis, como chegar num hotel e ter que explicar que quer cama de casal no quarto, encontrar roupões e pantufas em dois tamanhos para um casal de homem e mulher… Esses problemas são ainda maiores com viajantes trans, que sofrem com problemas de identificação por causa de documentos.  Resumindo, é um público que viaja e gasta bastante em experiências que não são agradáveis.

De que maneira a pandemia alterou os gostos do viajante brasileiro?

Maldivas, no Oceano Índico Foto: CC/Pixabay
Maldivas, no Oceano Índico Foto: CC/Pixabay

O viajante brasileiro é um seguidor, ou seja, ele segue os passos de quem viajou antes dele, confia muito nas dicas e avaliações de amigos e conhecidos que já estiveram em determinados lugares. Durante a pandemia, isso fez com que muitos destinos, que não estavam entre os mais populares, mas que permaneceram abertos na maior parte do tempo para brasileiros, se tornassem um grande sucesso. Quem iria imaginar que Maldivas seria um sucesso no Brasil? Mas virou, não apenas pelas fronteiras abertas, mas pela boa experiência dos brasileiros lá. Ao lado do México, sobretudo a região de Cancún e da Riviera Maya, foi o destino que mais cresceu neste período, e continuará atraindo viajantes daqui mesmo após a normalização das viagens.

Outra consequência positiva é o desenvolvimento do turismo interno. A pandemia forçou muita gente a viajar dentro do próprio país, que tem destinos lindíssimos e únicos. Pelo meu círculo próximo eu tiro esses exemplos, de pessoas viajando para os Lençóis Maranhenses, as chapadas… E esse movimento também cria e fortalece todo um mercado de prestadores de serviços, que antes até podia nem existir nesses lugares. Antes da pandemia, o turismo era responsável por cerca de 10% do PIB mundial, e por um em cada cinco novos empregos. Essa força pode ser usada dentro do país também.

Após um ano de trabalhos interrompidos, a WTM Latin America volta com um formato 100% virtual. Isso pode virar uma tendência para eventos mesmo após a pandemia?

Acredito num modelo híbrido. A tecnologia veio para ficar, e permite que tenhamos a participação de expositores que nunca estiveram presentes nas feiras. Mesmo assim, ela ainda não substitui o contato humano, o encontro pessoal, os abraços, apertos de mão. E isso é muito importante para o nosso negócio. Afinal,  gente viaja mesmo é para conhecer outras pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.