Nasa tem um desafio para chegar à Lua até 2024: seu programa de US$ 1 bilhão para o traje espacial

Agência tem trabalhado há 14 anos na nova geração de trajes espaciais, que funcionam como mini espaçonaves enquanto protegem os astronautas do vácuo do espaço sideral
Christian Davenport, The Washington Post

Astronauta entra em traje espacial e se prepara para treinamento Foto: Jonathan Newton/Washington Post

Desde que a Casa Branca ordenou a Nasa a mandar astronautas à Lua até 2024, como parte do programa Artemis, todo tipo de desafio intimidador tem aparecido: o desenvolvimento do foguete que a agência espacial usaria sofreu reveses e atrasos; a espaçonave que levaria os astronautas à superfície lunar não ainda está pronta e foi atrasada pelas empresas que perderam a licitação para fabricá-la; e o Congresso não apresentou o financiamento que a Nasa afirma ser necessário.

Mas outra razão pela qual a meta de 2024 poderá não ser cumprida é que os trajes espaciais necessários para os astronautas caminharem na superfície lunar não ficarão prontos a tempo, e o programa total de seu desenvolvimento, que no fim das contas produzirá apenas dois trajes prontos para voar, poderia custar mais de US$ 1 bilhão.

O Escritório do Inspetor Geral (EIG) da Nasa afirmou em um relatório publicado na terça-feira que o desenvolvimento dos trajes atrasou quase dois anos em razão de faltas de financiamento, impactos da pandemia de coronavírus e desafios técnicos. Como resultado, o organismo auditor do governo concluiu que os trajes voadores ficarão prontos, na melhor das hipóteses, em 2025 e que “um pouso na Lua no fim de 2024, como a Nasa planeja atualmente, não é factível”.

A Nasa tem trabalhado na nova geração de trajes espaciais, que funcionam como mini espaçonaves enquanto protegem os astronautas do vácuo do espaço sideral, há 14 anos, afirmou o EIG. Em 2016, a Nasa decidiu reunir dois projetos de desenvolvimento de trajes espaciais num só programa, sob sua supervisão. Até 2017, a agência tinha gastado US$ 200 milhões e, desde então, gastou outros US$ 220 milhões, constatou o EIG. Mesmo que o programa tenha sido mantido na agência, componentes para os trajes ainda são fornecidos por 27 empresas.

No futuro, a Nasa planeja gastar mais US$ 625,2 milhões, afirmou o EIG. Isso levaria o montante gasto no desenvolvimento e nos testes a mais de US$ 1 bilhão até o ano fiscal de 2025, “quando o primeiro de dois trajes espaciais voadores estará disponível”, constatou o EIG. Além desses dois trajes, o programa desenvolveria um traje experimental que poderia ser usado na estação espacial, dois trajes “qualificatórios”, para testagem do sistema de suporte de vida durante o uso e um outro traje, “usado para testar o design e as funções do traje espacial antes de os astronautas o vestirem”.

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Foto de 1969 mostra o astronauta Neil Armstrong, que se tornou o primeiro homem a pisar na Lua, em traje espacial Foto: AP

Os problemas com o desenvolvimento do traje espacial “de nenhuma maneira são o único fator influenciando a viabilidade da agenda de retorno à Lua da agência”, afirmou o EIG. O organismo também afirmou que “atrasos significativos” no foguete do Sistema de Lançamento Espacial da Nasa e na espaçonave Orion também contribuem. E atrasos relativos ao desenvolvimento da espaçonave para pousar na Lua “também inviabilizarão um pouso em 2024”, afirmou o EIG.

Em abril, a Nasa concedeu à SpaceX, de Elon Musk, um contrato de US$ 3 bilhões para usar a espaçonave Starship para transportar astronautas à superfície da Lua, no programa conhecido como Sistema de Aterrissagem de Humanos. Mas os perdedores da licitação, a Blue Origin, de Jeff Bezos, e a Dynetics, uma empresa especializada em defesa militar com base no Alabama, protestaram contra a decisão. Os protestos não foram bem-sucedidos, mas forçaram a Nasa a atrasar a execução de seus contratos com a SpaceX.

O esforço marca a primeira vez em que a Nasa lidera o desenvolvimento de um novo traje que pode ser usado no vácuo do espaço sideral em mais de 40 anos. O relatório do EIG ressaltou que os trajes espaciais atualmente a bordo da Estação Espacial Internacional “excederam seu tempo de vida projetado em mais de 25 anos, necessitando de custosa manutenção para garantir a segurança do astronauta”.

Eles também não vestem todos os tipos de corpos. Em 2019, a astronauta da Nasa Anne McClain cancelou o que teria sido a primeira caminhada no espaço exclusivamente feminina, a partir da estação espacial, depois de decidir que o traje era grande demais para ela. Isso desencadeou uma onda de críticas, de que a Nasa não estava acomodando as necessidades das mulheres astronautas em um programa espacial há muito dominado por homens.

Os novos trajes terão “novo desenho, para acomodar uma gama maior de tamanhos e melhorar o caimento, o conforto e a mobilidade”, afirmou o EIG. Os trajes terão uma parte inferior mais flexível, que permitirá a astronautas caminhar e ajoelhar mais facilmente e evitar os “saltos de coelho” que os astronautas das missões Apollo davam na Lua entre os anos 1960 e o início da década de 1970.

Ao desenvolver os novos trajes, afirmou o EIG, a Nasa, que os desenvolve em instalações próprias, encontrou várias dificuldades técnicas e de design. Até as botas deram problemas.

Se a Nasa aterrissar no polo sul da Lua, conforme esperado, o traje e as botas têm de ser capazes de aguentar “mudanças extremas de temperatura” e a transição entre o “ambiente moderado” onde a espaçonave terá pousado e o “ambiente extremo”, da região permanentemente sombria do polo.

Isso cria um desafio, afirmou o EIG, porque “o acesso a materiais adequados é limitado e a tecnologia necessária para ajudar a enfrentar esses desafios ainda está sendo testada”.

No Twitter, Musk ofereceu os serviços de sua empresa, “A SpaceX poderia fazer isso, se necessário”. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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