Nesta fazenda, os animais mandam, ou ao menos estão em pé de igualdade

As vacas não precisam produzir leite. Os porcos dormem tarde. Nenhum animal nesta antiga fazenda de laticínios atende a uma necessidade humana. O seu único propósito é viver pacificamente – e provocar perguntas sobre como nos alimentamos
Melissa Eddy, The New York Times – Life/Style , O Estado de S.Paulo

Kristina Berning e suas irmãs Celine e Michelle visitam Ellie, uma vaca que Kristina trouxe da fazenda de gado leiteiro de seu pai para Hof Butenland.  Foto: Lena Mucha/The New York Times

BUTJADINGEN, Alemanha – Tom colocará a cabeça no colo de qualquer pessoa que se senta para acariciar o seu pescoço, enquanto Tilda prefere fazer carinho no seu jovem filhote. Abraços, na realidade, não são algo que agrade a Chaya, mas quando ela está de bom humor, brinca combativa com um fardo de feno como se fosse uma bola gigantesca.

Em qualquer outra fazenda, essas três amigas não estariam mais vivas. Tom era pequena demais, Tilda doente demais e Chaya agressiva demais para sobreviver em uma fazenda industrial moderna. Cada uma delas estava condenada ao matadouro.

Em vez disso, o trio encontrou o seu lugar na Hof Butenland, uma antiga fazenda de laticínios transformada em casa de repouso animal que oferece um santuário a vacas, porcos, alguns cavalos, galinhas, gansos e cães resgatados.

Nenhum destes animais está ali para servir a uma necessidade humana; todos coexistem como iguais com os moradores e os trabalhadores da Hof Butenland.

“Precisamos pensar em como viver de maneira diferente, e deixar os animais em paz”, disse Karin Mück. Ela e seu marido Jan Gerdes, ambos com mais de 60 anos, dirigem a Hof Butenland, na península de Butjadingen varrida pelo vento, na Alemanha, que se estende Mar do Norte adentro.

A ideia de deixar a carne e os laticínios pode parecer revolucionária em um país mais conhecido pelos deliciosos bratwurstel e pelos schnitzel do tamanho de um frisbee juntamente com o café coberto com uma camada de espuma de leite, e cheesecake.

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Um funcionário alimenta um porco chamado Eberhard, que foi resgatado de um laboratório de pesquisa.  Foto: Lena Mucha/The New York Times

Mas os alemães estão consumindo menos carne – no ano passado, apenas 57 quilos por pessoa, a menor quantidade desde 1989 – enquanto o número de veganos aumentou consistentemente chegando a dois milhões.

Cada vez mais, mesmo os alemães que comem carne estão adquirindo produtos veganos enquanto a preocupação com o manejo dos animais está encorajando as pessoas a abrir mão dos produtos de origem animal, disse Ulrich Hamm, professor de ciências agrícolas na Universidade de Kassel, que estuda há décadas as tendências no consumo de alimentos.

Para os seres humanos da Hof Butenland, o afastamento da ideia de animais tratados como mercadorias não é apenas uma questão de moral humanitária, mas de sobrevivência do planeta, considerando o papel que as fazendas industriais exercem, contribuindo para a formação dos gases do efeito estufa na atmosfera.

“Para mim, está claro, se quisermos salvar o planeta, então devemos parar de usar e consumir animais”, disse Gerdes, durante o café, servido com um pouco de leite de aveia. “Nós temos o poder econômico para implantar mudanças, mas precisamos querer isso”.

Gerdes recebeu a Butenland do pai e introduziu práticas orgânicas na região nos anos 1980. Mas mesmo em uma fazenda orgânica, ele não pôde evitar o que ele chamou de “brutalidade” com que as vacas leiteiras são tratadas para produzir leite: retirando os bezerrinhos recém-nascidos das mães, que durante anos são inseminadas sem parar.

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Kristina Berning conduz Lily, uma vaca trazida da fazenda de gado leiteiro de seu pai.  Foto: Lena Mucha/The New York Times

O seu desconforto por causa de todo o processo – e as décadas ouvindo os bezerros chorando por suas mães – levou Gerdes a abandonar o negócio dos laticínios e adotar uma política de total igualitarismo para todas as espécies que vivem na fazenda como se fosse o seu lar.

Agora, os animais estão livres para vagar dos estábulos de tijolos vermelhos construídos em 1841, pelo corredor ladeado de árvores até os cerca de 40 hectares de pastos ricos de capim e voltando novamente, no seu próprio ritmo e no seu tempo. Aqui, não há horário de ordenha a ser cumprida, e os porcos, enfiados em uma pilha enorme de palha, dormem regularmente até muito depois do meio-dia.

Os animais de laboratório têm um lugar especial no coração de Mück, que passou semanas na solitária em 1975, suspeita de estar reunindo um grupo terrorista, depois que foi pega invadindo um laboratório para libertar os animais usados nos experimentos. Sozinha em sua cela, ela teve uma revelação.

“Um dia, me dei conta: é a mesma coisa que acontece aos animais”, ela disse. “Você não vê o sol, está separada dos seus amigos, não tem ideia do que está acontecendo ao seu redor, e não tem controle sobre sua própria vida”.

Depois de 20 anos trabalhando como enfermeira psiquiátrica, ela conheceu Gerdes que estava se preparando para deixar a agricultura e vender Hof Butenland, com os seus animais. Mas quando um trailer chegou para levar o gado, uma parte dos animais não coube.

Gerdes os levou de volta para o pasto e decidiu deixá-los ali, sem serem incomodados, para sempre. Nascia o santuário.

Para financiar o seu empreendimento, o casal inicialmente alugou apartamentos para férias. Muitos hóspedes queriam doar para ajudar a sustentar os animais, e isso levou Gerdes e Mück a criar a fundação Hof Butenland que atualmente é o sustentáculo financeiro para as suas operações.

Os canais de redes sociais estão repletos de vídeos de Chaya brincando, de outras vacas cochilando ao sol, e Hope, o ganso (inicialmente confundido com uma gansa), bicando os bolsos de Mück. Esses vídeos atraíram uma base de doadores leais, e os fundos são suficientes para cobrir os gastos mensais com veterinários, dois funcionários e custos gerais. A eletricidade é gerada no local com uma turbina eólica dos anos 1980.

Encomendas chegam aleatoriamente endereçados a uma vaca ou a Omic, um misto de pequinês recentemente resgatado da Romênia. Eles contêm tigelas, petiscos e notas escritas à mão em envelopes que frequentemente incluem uma nota de 20 euros. Os patrocinadores podem inscrever-se para excursões em grupo realizadas duas vezes por mês, mas visitantes não convidados, em geral, não passam da porteira.

“Somos chamados de o lar de descanso para vacas”, disse Mück. “Você não visita uma casa de repouso para vovós; por que seria diferente aqui?”

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Hof Butenland é uma fazenda alemã em que animais não vivem para serem ordenhados ou abatidos. Foto: Lena Mucha/The New York Times

Um vizinho, Henning Hedden, 60 anos, é um fazendeiro de segunda geração, e atualmente aluga a sua terra a um jovem que tem uma fazenda de gado leiteiro com 90 vacas. Ele já aceitou a ideia de preservação do projeto da Hof Butenland, e gosta de parar ali regularmente para tomar um café e dois dedos de prosa, embora insista: “Vou continuar comendo carne”.

Muitos vizinhos que têm leiterias funcionando afirmam que suas vacas são saudáveis, bem tratadas e ainda atendem à enorme demanda de derivados de leite do país. Alguns outros consideram a filosofia da fazenda uma ameaça ao seu ganha-pão.

“Seria ótimo se só ficássemos acariciando as vacas”, disse Mück. “Mas o que não agrada aos outros fazendeiros é que nós criticamos o sistema”./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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