Quem é Eleanor Marx, filha caçula do autor de ‘O capital’ que inventou feminismo socialista

Novos livros mostram que as três herdeiras do pensador alemão, em especial a mais nova, tiveram papel político relevante e longe da sombra do pai
Ruan de Sousa Gabriel

Eleanor, filha caçula de Marx, por volta de 1870 Foto: Reprodução

Quando soube que a historiadora Rachel Holmes trabalhava numa biografia de Eleanor Marx, filha do autor de “O capital”, um quadro ilustre da esquerda britânica, cujo nome ela não revela, teria dito: “Eleanor Marx? Viveu à sombra do pai e cometeu suicídio. O que mais há a dizer sobre ela?” Quem enfrentar as mais de 500 páginas de “Eleanor Marx: uma vida”, recém-lançado pela Expressão Popular, há de reparar que Tussy, como era conhecida, tinha luz própria. Nascida em 16 de janeiro de 1855, em Londres, Eleanor era a filha caçula de Karl e Jenny Marx. Dos sete filhos do casal, apenas três chegaram à idade adulta: Jenny (apelidada de Jennychen), Laura e Eleanor, que afirmava ter herdado o nariz do pai (e que poderia processá-lo por isso), mas não sua genialidade. Holmes discorda e a descreve como “uma das grandes heroínas da história britânica”.

Oradora brilhante, a caçula dos Marx queria ser atriz. Ajudou a popularizar a obra do dramaturgo Henrik Ibsen na Inglaterra e traduziu “Madame Bovary”. Lutou pela melhoria das condições de trabalho nas fábricas, pela expansão do direito ao voto, pela universalização da educação e pela proibição do trabalho infantil. Sua maior contribuição, porém, foi usar as teorias do pai para pensar a “questão da mulher”: foi a pioneira do feminismo marxista. Naquela época, os socialistas afirmavam que a igualdade entre os sexos seria uma consequência da revolução proletária. Eleanor, porém, inverteu o argumento e em “A questão da mulher”, de 1886, insistiu que não haveria revolução nenhuma sem luta pela emancipação feminina.

— Eleanor admirava o pai, mas foi uma grande ativista por mérito próprio. Se Karl não tivesse morrido, os dois com certeza iriam brigar por ela ter uma visão mais favorável da luta parlamentar do que ele — diz Holmes. — Devemos a ela muito do que sabemos sobre Marx. Ela era a única, além da mãe e de Engels, capaz de decifrar a caligrafia do pai, editou o trabalho dele e foi sua primeira biógrafa.

Eleanor Marx, aos 16 anos, em 1871 Foto: Reprodução

Eleanor abandonou a biografia do pai quando Engels, em seu leito de morte, revelou que o amigo era pai de Freddy, filho de Helene Demuth, fiel governanta da família Marx. Engels assumiu a paternidade do rapaz, mas o excluiu de seu testamento.

Em sua biografia, Holmes mostra que as mulheres da família Marx-Engels foram tão importantes na formação política de Eleanor quanto os autores do “Manifesto comunista”. Quando ainda era a beldade mais cobiçada de Trier, na Alemanha, Jenny, a futura senhora Marx, usava uma presilha tricolor no cabelo em apoio às ideias revolucionárias que vinham da França. Cultíssima, ela era interlocutora do marido, passava a limpo e editava seus escritos. As irmãs de Eleanor, Jennychen e Laura, casaram-se com revolucionários franceses e se engajaram na luta socialista. Holmes ressalta ainda o papel desempenhado pelas irmãs Mary e Lizzy Burns na politização da caçula. Engels viveu maritalmente com a primeira e, após a morte desta, com a segunda.

Retrato de família tirado em Londres, 1864: Friedrich Engels (em pé, à esquerda) e Karl Marx, com suas filhas (da esquerda para a direita) Jenny, Eleanor e Laura. Foto: Reprodução

— As irmãs Burns tinham trabalhado em tecelagens e eram republicanas irlandesas. Informaram Eleanor da luta contra o domínio britânico e ela, desde cedo, apoiou a causa irlandesa — diz a biógrafa. — Elas lhe apresentaram um outro modelo de mulher, não burguesa, mas da classe trabalhadora, que tinha sua própria tradição de organização política.

José Paulo Netto, autor de “Karl Marx: uma biografia”, lembra que as principais obras lançadas nos últimos anos sobre o filósofo alemão dão destaque às mulheres da família, como “Karl Marx: uma vida do século XIX”, de Jonathan Sperber, e “Amor e capital”, de Mary Gabriel. Em 1992, saiu a biografia “Jenny Marx ou A mulher do diabo”, de Françoise Giroud. O filme “O jovem Marx”, de 2017, destaca a influência de Jenny e Mary sobre seus companheiros.

Visita à comuna de paris

As outras filhas de Marx também recebem atenção. A recém-lançada ficção “O caderno azul de Jenny”, do sociólogo brasileiro Michel Löwy e do político de extrema-esquerda francês Olivier Besancenot, imagina uma visita de Marx e sua filha mais velha à Comuna de Paris. Os autores inventam um diário escrito por Jennychen e preservado por um de seus descendentes, que relata uma viagem a Paris tomada pelos communards, os revolucionários de março de 1871. No livro, Marx entra na França com uma identidade falsa, sem a barba e com a cabeleira tingida. Na vida real, Jennychen se casou com um communard, Charles Longuet. Ela recorria a um pseudônimo masculino, J. Williams, para publicar textos em apoio aos irlandeses e morreu de câncer da bexiga aos 38 anos, dois meses antes do pai.

— Todas as filhas de Marx desempenharam funções políticas, mas é Eleanor quem mais responde aos nossos tempos por conta de seu feminismo avant la lettre — afirma Netto.

A mais incensada biografia de Eleanor, de Yvonne Kapp, publicada em dois volumes nos anos 1970, continua inédita no Brasil. Em 2020, ela ganhou uma cinebiografia com trilha sonora punk: “Miss Marx”, assinada por Susanna Nicchiarelli e exibida na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

— Eleanor ilustra a complexidade de toda a luta por emancipação — diz Nicchiarelli. — Ela era incrivelmente corajosa e inteligente, mas escolheu um homem que fez da vida um inferno. Apesar disso, a história de Eleanor nos dá energia para continuar lutando por aquilo de que precisamos mais do que nunca: mudar o mundo.

Sem sorte no amor

Eleanor Marx e Edward Aveling (à esquerda) em viagem aos Estados Unidos, em 1886 Foto: Reprodução

De fato, ela não teve sorte no amor. Todos a alertaram sobre o caráter de seu companheiro, Edward Aveling, dramaturgo e discípulo de Darwin. Aveling pedia empréstimos a todos os amigos dela, incluindo Engels e Freddy, o filho ilegítimo de Marx, e se casou em segredo com uma atriz de 22 anos enquanto ainda vivia com Eleanor. A caçula de Marx teve o mesmo fim da “Madame Bovary” que ela traduziu: cometeu suicídio ingerindo ácido em 31 de março de 1898, aos 43 anos, horas depois de uma discussão com Aveling. Biógrafos especulam o que teria pesado mais na decisão de Eleanor: a traição do companheiro, a decepção com o pai que não assumira um filho, ou o fracasso em combater o nacionalismo que crescia no movimento operário em detrimento da solidariedade internacional.

Capa de "Eleanor Marx: uma vida", biografia da filha caçula de Karl Marx escrita por Rachel Holmes e publicada pela Expressão Popular Foto: Reprodução / Divulgação
Capa de “Eleanor Marx: uma vida”, biografia da filha caçula de Karl Marx escrita por Rachel Holmes e publicada pela Expressão Popular Foto: Reprodução / Divulgação

Serviço:

“Eleanor Marx: uma vida”

Autora: Rachel Holmes. Tradução: Letícia Bergamini Souto, Lia Urbini e Cecilia Farias. Editora: Expressão Popular. Páginas: 576. Preço: R$ 60.

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