Gemma Chan – British Vogue September 2021 By Hanna Moon

At First Light   —   British Vogue September 2021   —   www.vogue.co.uk

Photography: Hanna Moon Model: Gemma Chan Styling: Kate Phelan Hair: Shon Hyungsun Ju Make-Up: Hiromi Ueda Manicure: Chisato Yamamoto Set Design: Arthur de Borman

Mayana Neiva fala sobre fotos de biquíni: ‘Se alguém criticar, é porque tem visão estreita’

Em plena ebulição na carreira, atriz volta aos cinemas com ‘O silêncio da chuva’ e prepara documentário sobre o avô

Atriz fala sobre corpo e feminismo em entrevista Foto: Divulgação/Henrique Resende / Divulgação/Henrique Resende
Atriz fala sobre corpo e feminismo em entrevista Foto: Divulgação/Henrique Resende / Divulgação/Henrique Resende

Prestes a voltar aos cinemas com “O silêncio da chuva”, de Daniel Filho, Mayana Neiva tem um discurso afiado na hora de falar de corpo e idade. “Outro dia, publicaram uma notícia sobre mim que dizia: ‘Aos 38, Mayana exibe corpo juvenil’. Fico me perguntando se fazem isso com os atores homens”, ironiza. “Nosso corpo não tem mais caixa. J.Lo é o novo 50, e Madonna é o novo 60. O mundo que lide com isso.”

A atriz, aliás, está em plena ebulição na carreira. Atualmente, está no ar na TV Globo, com a reprise de “Ti-ti-ti”, e na Globoplay, com “Rotas de Ódio”. No mês passado, retornou à Paraíba para produzir um documentário sobre o seu avô, como conta na entrevista abaixo.

‘Silêncio da Chuva’

“Participar desse filme foi um grande aprendizado. Trocar com atores como Lázaro Ramos, Otávio Müller, Thalita Carauta foi uma experiência muito gostosa, assim como trabalhar com o Daniel Filho é uma escola. Ele é um grande diretor de atores. Deixei esse set com muito mais aprendizado do que entrei. Também considero a Rose uma das personagens mais importantes da minha carreira. Acredito muito na força desse filme.”

‘Ti-ti-ti’

“Eu venho do teatro, com Antunes Filho, mas foi em ‘Ti-ti-ti’ que o grande público entrou em contato comigo. Só tenho lembranças maravilhosas de contracenar com a Claudia Raia, aquele ser maravilhoso, assim como o Murilo Benício. Era muito leve aquele set. Todas as vezes em que vejo alguma cena, me lembro de como era gostoso fazer essa novela”

‘Rotas do ódio’

“É uma série que me impactou muito, desde o roteiro, escrito pela Susanna Lira. Tivemos um set todo feito e pensando por mulheres, e a minha personagem é muito empoderada, uma mulher com fragilidades e forças muito surreais. Não é uma policial fria, adormecida, como vemos nas produções americanas. É uma mulher que se compadece das histórias ao seu redor.”

Fotos: Em ensaio sem Photoshop, Paolla Oliveira reflete sobre a liberdade de assumir as prórias curvas

Documentário sobre o seu avô

“Quando voltei para o Brasil, em 2017, senti que, como atriz, estava sempre me colocando para atuar em histórias dos outros e comecei a querer falar das minhas histórias. Percebi que eu começava na história dos meus avós, na conexão deles lá no sertão da Paraíba. Meu avô foi balaieiro da feira, uma criança que carregava carne na cabeça, em meio a uma forte miséria, e conseguiu superar isso, tornando-se fotógrafo.”PUBLICIDADEhttps://de8461ecc1ff79c9eb8600ac1c08ccf8.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Mayana prepara documentário sobre o avô Foto: = / Divulgação/Henrique Resende
Mayana prepara documentário sobre o avô Foto: = / Divulgação/Henrique Resende

Corpo e idade

“Normalmente, não posto tanta foto de biquíni, mas outro dia publicaram uma notícia sobre mim que dizia: ‘Aos 38, Mayana exibe corpo juvenil’. Fico me perguntando se fazem isso com os atores homens. Vejo muito o George Clooney fazendo propagandas e fico querendo ver uma mulher ocupando aquele lugar, com aquela idade. Acho que o mundo será outro quando isso acontecer.  A sociedade supervaloriza a juventude e critica as mulheres no momento em que estão no seu auge de sabedoria. Isso precisa mudar. Nosso corpo não tem mais caixa. J.Lo é o novo 50, e Madonna é o novo 60. O mundo que lide com isso.”

Fotos de biquíni

“Posto fotos de biquíni porque me sinto muito bem em compartilhá-las. Se alguém criticar isso é porque tem uma visão muito estreita, e aí já não é meu o problema. A sociedade tem uma expectativa terrível sobre as mulheres e isso precisa ser combatido. Elas precisam ser competentes, fazer exercícios, administrar o tempo, ser boas mães e presentes. E, ainda por cima, existe uma demanda sobre o corpo. A gente tem que ser o que a gente pode ser. A beleza da vida é aceitar isso.”

Sexo sob efeito de drogas, chemsex atrai praticantes e acumula riscos

Metanfetamina, cocaína e GHB são algumas das drogas preferidas por quem combina práticas sexuais e substâncias psicoativas
Gustavo Fioratti
Paula Leite

Catarina Pignato

Lá nos anos 1980, chamavam de sexo, drogas e rock’n’roll. Agora usam o nome “chemsex”, contração de “chemical” (químico, em inglês) com “sex” (sexo). O rock’n’roll não é mais parte fundamental da fórmula, e a história se tornou uma prática recreativa que, vez ou outra, faz casais e grupos estenderem a transa por todo um fim de semana. Ou para segunda, para terça, para quarta…

O uso do termo comporta um cigarro de maconha e uma rapidinha após o expediente? Não é bem assim. O chemsex costuma ir além. Hoje, tem sido estimulado pelo crescimento da circulação de metanfetamina, também conhecida por cristal (pronunciada como no inglês “crystal”) ou tina.

Entram no jogo também a cocaína, o GHB (também chamado de ecstasy líquido) e o MDMA, princípio ativo do ecstasy. São drogas mais fortes e que, no contexto das festinhas de sexo ou mesmo nas maratonas sexuais de casais, acabam gerando riscos para a saúde, seja entre héteros ou gays.

O chemsex é mais associada ao universo LGBTQIA+, ainda que transar sob efeito de substâncias psicoativas aconteça entre todos os grupos. Para Álvaro Sousa, doutor em ciências pela USP que publicou um estudo sobre chemsex na pandemia no Brasil e em Portugal, a prática é discutida e negociada mais abertamente entre os gays, mas também não é rara entre heterossexuais.

Já a psiquiatra Camila Magalhães vê uma associação entre o uso desse tipo de droga e a cultura de festas e baladas gays. “Entre os héteros, a busca por desinibição para os encontros sexuais é mais calcada no álcool”, diz ela, que também é fundadora da Caliandra Saúde Mental.

Um dos riscos do chemsex é a dependência. A Folha ouviu de diversos praticantes da modalidade que em algum momento eles perceberam que haviam desenvolvido dependência química e psicológica. E que, quando não havia uma substância a mais, o sexo havia se tornado algo sem graça.

“Hoje em dia sou abstêmio do sexo. Quando me masturbo, tento imaginar que estou louco de MDMA. Se não imagino o efeito do MDMA e dos poppers [nitritos inalados], fica mais difícil. Chego a virar o olho, para imaginar que estou sob efeito de algo”, diz Fernando, 40 (os nomes dos entrevistados foram trocados a pedido deles).

Ele diz que as únicas drogas que consome hoje são maconha e álcool. “Enjoei de cocaína”, afirma. Conta ainda que perdeu a virgindade aos 16, quando já usava maconha. Depois, outras substâncias foram sendo adicionadas ao cardápio, e a associação com práticas sexuais também progrediu.

“Em 95% das vezes em que transei, acho que estava sob efeito de drogas pesadas, entre elas MDMA e cocaína”, conta. “Hoje, quando vejo pornô, faço pesquisa na internet procurando termos como esse”, diz, em resposta sobre se conhece o termo chemsex.

O isolamento causado pela pandemia do coronavírus pode ter contribuído para o aumento da frequência desse tipo de prática. Entre os pacientes de Magalhães, alguns trocaram baladas e casas noturnas por festinhas em residências particulares com sexo e drogas

“Muitas dessas pessoas tiveram sua sexualidade oprimida ao longo da vida. Essas festas são um momento em que se sentem ‘liberadas’ para fazer tudo o que não puderam fazer, para curtir”, diz a médica, para quem a pandemia também exacerbou o uso de substâncias para lidar com situações difíceis. ​

Alguns praticantes relatam desempenho sexual melhor ou maior sensação de prazer sob o efeito das drogas. Para Sousa, porém, isso não vem necessariamente do efeito da droga em si, mas sim da desinibição que ela causa. “Muitos gays têm uma homofobia internalizada, não aceitam que têm desejo por esse tipo de sexo ou não aceitam seu próprio corpo. Como a droga desinibe, têm a impressão de que o sexo é melhor”, diz o pesquisador.

Para Juliana, uma prostituta de 29 anos que divulga seus serviços principalmente pelo WhatsApp, não são só os gays que procuram esse tipo de prática. Ela diz que é muito comum fazer atendimento a homens que querem transar sob efeito de substâncias psicoativas e cita o caso de MC Kevin, morto em maio após despencar da varanda de um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O músico, na ocasião, estava no quarto com uma acompanhante de luxo e de Victor Elias Fontenelle, o MC VK —o grupo fez uso de drogas.

A trajetória da vida sexual de José também passou pela sensação de riscos iminentes, para além da compulsão. Ele começou a ir a uma sauna gay no centro de São Paulo e descreve um cenário de uso de substâncias químicas, dentro de quartos e cabines, com maratonas que chegavam a durar 48h.

O perigo era a perda de controle e o risco de overdose. “A minha primeira conexão com cocaína foi quando eu tinha 35 anos de idade. Eu me achava bastante maduro para tomar esse tipo de decisão e fechado para alguma vulnerabilidade. Sempre fui muito careta comigo”, diz.

Ele conta que tinha amigos que usavam drogas em um contexto como o da sauna. “Eu ia, era capaz de curtir a noite [sem usar nada]. Via que outros amigos continuavam lá. Às vezes, por dias. E eu ficava tentando entender como encontravam tanta força para aquilo”.

Aos poucos, prossegue José, ele foi compreendendo que essas maratonas eram movidas pelo sexo químico. A primeira vez que resolveu aderir ao chemsex foi para acompanhar um parceiro com quem já mantinha relações.

O entrevistado relata que não sentiu graça no efeito nas primeiras vezes em que praticou o chemsex e que por isso decidiu insistir. Foi na terceira ou na quarta vez que sentiu uma espécie de “gozo infinito”, um prazer que era contínuo e duradouro.

“A vontade que eu tinha era de nunca terminar de gozar”, narra. “Era menos importante ejacular, e era uma experiência introspectiva, às vezes quem estava comigo nem era tão interessante para mim”, diz.

José diz que sempre achou que o que estava fazendo era algo errado e que, com a dificuldade de interromper as sessões de chemsex, passou a se considerar dependente de cocaína. “Não fazia uso diário, às vezes era mensal, quinzenal, mas eu desaprendi a transar fora do contexto do uso de cocaína. A sauna era um ambiente perfeito para isso, porque a hora que eu chegasse lá eu ia encontrar alguém, e eu ia munido de alguma droga para uso pessoal”, diz.

Naquele momento, José desconfiou que estava vulnerável, “primeiro porque o uso que eu fazia era muito intenso, havia gastos excessivos, e eu me sentia derrotado já no momento em que pensava em usar. Depois, eu passava por ressacas absurdas e que duravam dias. Ressacas que eram físicas e morais. Eu ficava deprimido”, conta ele.

“Acho que nunca normalizei o uso disso, e via esse discurso ser reiterado por amigos, que diziam que não havia problemas, porque eu tinha um trabalho, nunca faltava no trabalho por causa disso”, diz. “O problema é que passei a não saber fazer sexo de uma outra maneira”, afirma.

Para Magalhães, há pessoas que fazem sessões de chemsex de maneira consciente, planejada e ocasional, ​se protegendo e minimizando os problemas, de modo que a prática não tem repercussão negativa em suas vidas. Outros, porém, têm maior risco de desenvolver dependência química, seja por fatores hereditários ou por questões psíquicas ou emocionais preexistentes.

Assim como outros entrevistados, José passou a deixar de lado sua rotina de treinos físicos, de boa alimentação e especialmente de hidratação. É comum que usuários de cocaína e metanfetamina, por exemplo, se esqueçam de que precisam tomar água.

A perda de controle também traz outros riscos. Sob efeito das substâncias, dizem especialistas, muitos passam a não usar preservativo ou interrompem o uso da PrEP (profilaxia pré-exposição, medicação que reduz o risco de contrair HIV) e se expõem a infecções sexualmente transmissíveis.

O uso combinado de algumas drogas ou sua associação com álcool também pode levar a efeitos físicos como desidratação, taquicardia e arritmia cardíaca.

Para reduzir esse tipo de dano, relata Sousa, em Portugal os organizadores de festas chamam o Ministério da Saúde, que envia equipes ao local. Na entrada, perguntam aos frequentadores que tipo de droga pretendem usar e dão orientações sobre doses adequadas ao peso da pessoa e sobre que substâncias não misturar. Também ficam a postos caso alguém precise de atenção médica.

Existe ainda o perigo de abuso sexual por parceiros desconhecidos, do qual Luís foi vítima. Ele conta que foi chamado para uma sessão de chemsex há cerca de duas semanas e que o contato foi feito por aplicativo por um homem com quem ele já havia tido relações sexuais.

Luís diz que já usou, para transar, maconha, cocaína, álcool, crack, poppers, GHB e metanfetamina fumada.

Ele conta que estava buscando prazer sexual sem uso de aditivos, porque já tinha passado pela sensação da dependência. Naquela noite, foi atraído por conversas no aplicativo e a indicação de uso de drogas por meio de emojis. Nos apps de sexo, é comum que os usuários se identifiquem com figuras de raios (para quem usa cocaína) ou de uma pedra preciosa parecida com diamante (metanfetamina).

Ele diz que topou ir ao apartamento desse conhecido, onde havia um terceiro homem. “Existe um momento em que você negocia consigo mesmo se você vai ou não. E ali eu havia decidido que só faria uso da droga que eu mesmo ia levar, metanfetamina”, diz. Ele havia decidido também que não faria o slam, que é a prática de injetar metanfetamina, e que alertou os dois parceiros que só consentia em fazer sexo no qual estivesse na posição de ativo.

“Durante muito tempo naquela ocasião foi muito gostoso, foi bom mesmo”, diz. Porém, em um determinado momento ele não conseguiu mais ter ereção. “Falei: pessoal, vou ficar de fora, vou tomar uma água.” Nesse momento, afirma que alguém lhe ofereceu um refrigerante. “A partir dali comecei a ficar muito obediente, comecei a fazer o que eles mandavam”, diz.

Sob a insistência de fazer uma dose de slam, ele virou “um brinquedo na mão dos parceiros”. “Lembro que começaram a chegar outras pessoas”. Ele foi perdendo a consciência, mas percebeu que pingaram algo em seu ouvido. “Quando retomei a consciência havia seis ou sete pessoas ao meu redor.”

Alguns dias depois, decidiu ir à polícia. Fez exame toxicológico, que para sua surpresa acusou uso de morfina, entre outras substâncias —ele afirma que foi abusado por um grupo em que havia ao menos dez homens.

Javier Castán for Vogue Portugal with Maja Zimnoch

Photographer & Director: Javier Castán at schierke. Editor in chief: Sofia Lucas. Cover art Direction: José Santana. Fashion Stylist: Francisco Ugarte. Hair and Makeup: Mriona Botella. Casting: Ariadna Gazquez. Creative Direction & Set Design: Indra Zabala & Adrià Escribano. Retouch: Alberto Maro. Model: Maja Zimnoch.

Masp mostra modernidade de Gertrudes Altschul

Na exposição ‘Filigrana’ estão 64 fotografias de uma autora pioneira que brilhou no Foto Cine Clube Bandeirante
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

Vista geral da exposicao ‘Filigrana’, da fotógrafa alemã Gertrudes Altschul   Foto: DANIEL TEIXEIRA/ ESTADAO

Ainda com fotos suas na mostra Fotoclubismo – Brazilian Modernist Photography, 1946-1964, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), até 26 de setembro, a fotógrafa alemã Gertrudes Altschul (1904-1962), uma das poucas mulheres frequentadoras do histórico Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), ganha uma exposição no Masp, aberta ontem (27). Com curadoria assinada por Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, e Tomás Toledo, curador-chefe na instituição, a exposição Gertrudes Altschul: Filigrana resume, em 64 fotografias (12 delas pertencentes ao acervo do Masp), a breve, mas fecunda, carreira dessa fotógrafa, que registrou de maneira poética as transformações arquitetônicas de São Paulo nos anos 1950 e lançou um olhar moderno sobre a natureza, ao se debruçar sobre a botânica com uma precisão de entomóloga.

O próprio título da exposição, Filigrana, que é também o de uma de suas imagens mais conhecidas, traduz essa obsessão pelo detalhe, o que logo despertou a atenção do Clube do Bolinha que era o FCCB em sua época, a ponto de uma foto sua, Linhas e Tons (1953) ilustrar a capa do boletim mensal da instituição, um ano antes de Gertrudes ingressar no Bandeirante, formado basicamente por fotógrafos homens. Essa foto, que integra a coleção do MoMA (cujo acervo tem 12 fotos suas), é uma das imagens da exposição do Masp, que merece ser vista por mais razões: o curador Tomás Toledo conseguiu álbuns da família Altschul vistos por poucos e com imagens históricas, como a do avião que trouxe Gertrudes ao Brasil, em 1939.

Fugindo da perseguição nazista, Gertrudes, judia, instalou-se em São Paulo e aqui criou com o marido uma fábrica de flores decorativas para chapéus e roupas femininas. Muito de sua fascinação pelo mundo botânico vem dessa atividade, mas, claro, seu interesse pelas linhas modernas da arquitetura paulistana dos anos 1950 vai além do registro das edificações. O poder transformador de suas montagens desafia o espectador a ver algo além do aspecto formal dos prédios.

O curador Toledo, curioso, foi atrás de um deles, retratado numa espécie de colagem em que ela sobrepôs numa composição triangular o topo de edifícios em Higienópolis, descobrindo se tratar do edifício Itamarati, na esquina da avenida Higienópolis com a rua Sabará. Projetado em 1953 pelo arquiteto Cyro Ribeiro Pereira, não é tão conhecido como os seus vizinhos, mas tem sua graça, que certamente atraiu a atenção de Gertrudes. A mencionada foto Linhas e Tons (Lines and Tones) retrata igualmente a marquise de um prédio modernista, mas o que interessa não são suas linhas sinuosas, e sim o trompe l’oeil. Ao apontar sua Leica para o alto, ela transforma o branco do teto e duas colunas numa espécie de véu transparente.

Masp mostra olhar moderno de Gertrudes Altschul
Entre as 64 fotos da mostra estão registros da modernidade arquitetônica de SP Foto: Gertrudes Altschul/Masp

“Como se sabe, o Foto Cine Clube Bandeirante formou a primeira leva de fotógrafos modernos em São Paulo, cujo interesse pela arquitetura era evidente”, lembra o curador Tomás Toledo, que pesquisou para a exposição – em parceria com Isabel Amado – alguns clássicos e fotos inéditas da breve carreira de dez anos da fotógrafa, entre eles fotos que dialogam com exemplares da mostra do MoMA – imagens no limiar da abstração em que ela usa desde manilhas de águas pluviais para simular jogos geométricos até folhas sob efeito de solarização, passando por peneiras que simulam um desenho concretista.

“O que mais sobressai em sua técnica é o trabalho de edição, recorte e sobreposição de negativos”, analisa o curador Tomás Toledo, que anuncia a produção da primeira monografia realizada sobre a artista. Com versões em português e inglês, organizado por Pedrosa e Toledo, o catálogo contará com textos dos curadores e de Abigail Lapin Dardashti, Heloisa Espada, Helouise Costa, Paula Victoria Kupfer e Sarah Meister – curadora do MoMA que organizou a exposição sobre fotoclubismo brasileiro em cartaz no museu.