Livro Uma Verdade Incômoda sobre escândalos do Facebook mostra riscos do ‘crescimento a qualquer custo’ de startups

Jornalistas do ‘The New York Times’, Sheera Frenkel e Cecilia Kang mostram que Facebook teve responsabilidade em problemas de abuso de privacidade, discursos de ódio e desinformação
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Mark Zuckerberg, fundador e presidente executivo do Facebook

Há algum tempo, a imagem do Facebook como startup promissora e “queridinha” do Vale do Silício se dissolveu. Mark Zuckerberg, antes visto como um jovem genial, se acostumou a participar de sabatinas no Congresso americano. Os usuários mais atentos entenderam como os algoritmos trabalham para fisgar a atenção nas plataformas. Porém, os problemas de segurança e desinformação da plataforma ainda se apoiavam na justificativa de o mercado de redes sociais ser novo e estar aprendendo a controlar seus tentáculos.

O livro Uma Verdade Incômoda (Cia. das Letras, 364 p.) derruba esse argumento. Por meio de uma apuração jornalística extensa, as repórteres Sheera Frenkel e Cecilia Kang, do jornal americano The New York Times, mostram que o Facebook teve responsabilidade nos escândalos porque a companhia colocou em primeiro lugar metas de engajamento de usuários e desenvolvimento de produtos. 

Para o público em geral, o livro mostra com riqueza de detalhes como opera a máquina por trás do universo de curtidas e engajamento das redes sociais – as autoras não defendem uma posição radical de abandonar as plataformas, mas sim de usá-las entendendo como o produto funciona. Afinal, conhecendo a dinâmica, é possível usar redes sociais para se manter perto de amigos e familiares, sem necessariamente rolar o feed de notícias eternamente e compartilhar desinformação. 

A leitura, porém, pode ter valor especial com um público em específico: os “startupeiros”. A sequência de escândalos da rede social mostra o perigo de pisar no acelerador e focar apenas em crescer e inovar a qualquer custo. 

Apesar de ser difícil pensar no Facebook hoje como uma startup, já que a empresa foi fundada em 2004 e se tornou uma gigante de tecnologia, a rede social desde sua fundação adotou o mantra do Vale do Silício “move fast, break things” (acelere e atropele as coisas, em tradução livre). Mesmo depois de conquistar uma base de um bilhão de usuários, a companhia seguiu escolhendo o crescimento agressivo até quando havia riscos sérios em jogo. 

Na expansão para além dos Estados Unidos, por exemplo, as autoras mostram que o Facebook escolheu agarrar a meta do projeto “Próximo Bilhão de Usuários”, sem ponderar as diferenças culturais e políticas dos países que receberiam a plataforma. 

Esse crescimento desenfreado foi a raiz de casos como a incitação de violência em Mianmar, onde a rede social amplificou as tensões existentes na região. O livro mostra que a empresa sabia da quantidade de informações compartilhadas no país, mas não aumentou seu quadro de moderadores para monitorar o conteúdo. 

“Zuckerberg não estava preocupado com as consequências de uma expansão tão acelerada, sobretudo em nações que não tinham regimes democráticos”, diz um trecho do livro. “O primeiro a capturar os mercados locais ainda desatendidos estaria mais bem posicionado para o futuro crescimento financeiro”. Esse mesmo padrão de prioridade se repetiu em episódios como a Cambridge Analytica, em 2018, e a interferência russa nas eleições americanas de 2016. 

Expor esses bastidores em 2021 é ainda mais importante considerando que, neste ano, o Facebook alcançou a avaliação de mercado de US$ 1 trilhão pela primeira vez, tornando-se a companhia mais jovem nos Estados Unidos a chegar à marca. O feito foi atingido após uma vitória inicial em um processo antitruste da Comissão Federal de Comércio americana (FTC, na sigla em inglês): em uma primeira análise, um juiz dos EUA indeferiu a queixa, alegando que a FTC não conseguiu demonstrar que o Facebook tinha poder de monopólio no mercado de redes sociais. 

Olhando para essa avaliação de mercado e o lucro de US$ 10,4 bilhões que a empresa apresentou no último trimestre, o Facebook poderia ser um exemplo de sucesso. “Os empreendedores podem ver esses problemas e tentar desde cedo colocar especialistas em segurança no quadro de funcionários ao lado de engenheiros no desenvolvimento de ferramentas, por exemplo”, afirma Cecilia, em entrevista ao Estadão. “Mas algumas startups podem olhar para os lucros do Facebook e entender que esse modelo funciona.”. 

Ao abrir novos mercados e resolver “dores” dos clientes, é preciso pensar também em consequências que podem surgir. Está nas mãos dos fundadores de novas startups escolher qual caminho seguir. 

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