Apartamento de 370 m² tem obras de arte, peças de design e vista para o MASP

O galerista Eduardo Leme evita reproduzir a lógica de seu ambiente de trabalho em seu apartamento. Aqui, ele se permite expor suas memórias afetivas – e elas se manifestam por meio de obras de arte e design
LUIZA QUEIROZ | ESTILO ADRIANA FRATTINI | FOTOS FRAN PARENTE | ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA ARTHUR DUARTE

Vista geral do living coloca em primeiro plano instalações de David Batchelor (à esq.) e de Ana Mazzei (à dir.), além de dois quadros de Flávio de Carvalho na coluna entre as janelas, e, abaixo deles, instalação de vidro de Raphael Escobar – quanto aos móveis, destaque para a roda formada por três poltronas de Percival Lafer (à esq.), uma de Vladimir Kagan (à dir.) e duas FDC01 (ao fundo), de Flávio de Carvalho

Difícil saber para onde olhar primeiro no apartamento de Eduardo Leme. Sob a laje de concreto aparente e diante da vista para o MASP e o Parque Trianon, “último pedaço de Mata Atlântica em São Paulo”, afirma ele, espalha-se uma coleção que reúne, em um espaço fluido de 370 m², artistas contemporâneos de peso.

Exceção cabe a Flávio de Carvalho, pertencente ao movimento moderno e um dos mais claros sinais de que, neste território, não há tanta preocupação com curadoria ou coerência. “Flávio é um gênio. Um dos mais contemporâneos que existem”, fala. Dono da galeria batizada com seu sobrenome, ele queria que o novo endereço fosse tudo, menos um salão expositivo.

A lógica aqui é outra, a começar pela quantidade limitada de paredes na área toda integrada, algo aparentemente incongruente ao lar de um colecionador de arte. Não para Leme: “A casa da gente não pode ser um showroom”, declara. “Tudo o que tenho é porque eu gosto. Não há nada desprovido de memória afetiva.”

Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Telas de Dora Longo Bahia (à esq.) e de Sandra Gamarra (no canto), junto com a composição de espelhos assinada por Henry Krokatsis (ao fundo), dominam a sala de jantar com móveis de jacarandá
Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
O segundo ambiente de estar tem protagonismo do sofá Cubo, de Jorge Zalszupin, poltronas de Michel Arnoult (à esq.), poltronas vintage de jacarandá da Linfor Móveis (de costas), e, junto à janela, poltronas Carlotta, de Afra e Tobia Scarpa – na coluna, mais uma dupla de quadros de Flávio de Carvalho, e, diante deles, no chão, instalação de Katrín Sigurdardóttir

A própria estrutura do imóvel evoca lembranças: quem conhece a Galeria Leme, assinada por Paulo Mendes da Rocha (1928-2021), logo repara que o concreto impera aqui, como lá. Foi um dos elementos a chamar a atenção do galerista e de sua mulher, Malu Barros, quando entraram na então futura morada.

“Por esse motivo, deixamos as vigas aparentes, e isso aumentou o pé-direito”, diz a arquiteta Bernadette Pasqua, braço direito do casal na reforma. “De resto, demos uma limpada geral para criar um ambiente bem clean”, conta.

Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Detalhe de parede do living traz dois quadros de Sandra Gamarra e, no piso, instalação de Clara Ianni
Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Par de poltronas de Michel Arnoult figura à frente de escultura de palha de Mano Penalva e instalação de tecido de Vivian Caccuri – próximos às janelas, quadro de Chris Ofili (no alto) e pinturas de Ana Elisa Egreja

A intervenção, explica Bernadette, mirava um objetivo maior, muito bem definido desde o princípio: evidenciar a vista, a arte e o design assinado – os três eixos que nortearam todas as decisões.

Nas paredes da ala social, Leme juntou nomes como a pintora peruana Sandra Gamarra, uma das primeiras representadas por sua galeria e acompanhada de perto por ele em todas as suas fases, e a criadora multimídia Dora Longo Bahia, enquanto o banheiro exibe aquarelas de “tudo quanto é artista”, como ele diz.

Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Em outro ponto do living, escultura de Edgard de Souza e instalação com cadeiras de Mona Hatoum diante da vista para o Parque Trianon e o MASP

A seleção de móveis tampouco fica para trás: entre peças garimpadas e herdadas, estão itens de Jorge Zalszupin, Percival Lafer e (de novo) Flávio de Carvalho, que trazem consigo uma série de reminiscências.

Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Edu Leme e sua esposa, Malu Barros Leme, com o cachorro Zé em meio às instalações de Flávio Cerqueira, montada com livros, e Marepe, com bacias de alumínio – o cavalete de vidro de Lina Bo Bardi, desenvolvido para o acervo permanente do MASP, expõe uma obra de Flávio de Carvalho
Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Em mais este canto do living, instalações de André Komatsu (junto à cadeira vintage) e de Sandra Gamarra, esta última executada com livros – ao fundo, quadro verde de Leonilson ao lado de pintura de Simon Evans, e, logo abaixo, trabalho de Jaime Lauriano, autor também da peça de ferro sobre o piso
Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Detalhe de uma parede do living mostra composição com trabalhos de Emmanuel Nassar (no alto), Jorge Eielson (embaixo, à esq.) e Luciano Figueiredo (embaixo, à dir.)

“Sempre cultivei uma relação muito forte com o mobiliário. A mesa da copa, por exemplo, é a mesma onde aprendi a comer com a minha avó. Tem também uma de mármore na qual encontrei um desenho meu sob o tampo, durante a mudança. Lá pelos quatro anos, eu adorava rabiscar ali embaixo”, relembra.

Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
Telas de Wim Delvoye (à esq.) e Angelo Filomeno e circundam mobiliário assinado por Jorge Zalszupin
Obras de arte, peças de design e vista para o MASP compõem este apê de 370 m²  (Foto: Fran Parente)
O quarto é território exclusivo de obras de Sandra Gamarra – a luminária de teto é de Abílio Rodrigues

Talvez essas memórias expliquem a aura de acolhimento que paira ali, a despeito de tanta amplitude, tanto concreto e tons mais frios. “Arte, no fundo, é isso. Comprar uma obra só para decorar uma parede está errado. A peça tem de dizer algo para a pessoa”, finaliza o galerista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.