Prestes a lançar novo álbum, Negra Li fala sobre sexualidade e reivenção na carreira

Aos 41 anos, primeira rapper a assinar com um gravadora multinacional está numa de suas fases mais produtivas

Negra Li usa terno Ricardo Almeida, camisa C&A, brincos Paula Rondon Foto: Gabriel Marques

Cada novo single de Negra Li é como um capítulo da biografia da artista que, aos 41 anos, encontra-se num dos momentos mais plenos e produtivos da carreira. Com “Comando”, lançado em maio, ela mergulhou na ancestralidade para musicar uma mensagem de empoderamento sobre a sua maneira de encarar o mundo. “Minha história, eu mesma que escrevi. Glórias, vitórias ainda estão por vir”, canta, embalada por uma batida pop dançante. No recém-lançado “Eu preciso ir”, com participação do cantor Ferrugem, o tema é a própria separação. “Nosso navio já se afundou. Tô indo embora sem nenhum rancor”, diz a letra, dessa vez, misturando pagode e R&B. As duas faixas estarão no próximo álbum da cantora, com lançamento previsto para novembro. “Será o meu trabalho mais autoral. Participo de todas as letras”, adianta. “É também o que mais fala da minha vida pessoal. Além do fim do meu último relacionamento, tem as aventuras que vivi, a redescoberta da minha sexualidade e a dificuldade de ser mulher preta nesse país.”

Negra Li usa vestido Mile Lab. chapéu Gucci Foto: Gabriel Marques / Maquiagem: Camila Anac (JFrigo Mgmt) | Cabelo: Divina Afrostyle | Assistente de foto: Matheus Rodrigues | Produção de arte: Renan Kawano | Tratamento de imagem: Studio Marcio Moraes | Produção executiva: André Storari e Christiano Mattos | Agradecimento: Estúdio Rancho 40
Negra Li usa vestido Mile Lab. chapéu Gucci Foto: Gabriel Marques / Maquiagem: Camila Anac (JFrigo Mgmt) | Cabelo: Divina Afrostyle | Assistente de foto: Matheus Rodrigues | Produção de arte: Renan Kawano | Tratamento de imagem: Studio Marcio Moraes | Produção executiva: André Storari e Christiano Mattos | Agradecimento: Estúdio Rancho 40

Nascida Liliane de Carvalho, Negra Li está inspirada e quer inspirar. Por isso, o desejo de se expor de modo tão sincero diante do público. Depois de terminar um relacionamento de 14 anos com o músico Júnior Dread, pai de seus dois filhos, Sofia, de 12 anos, e Noah, de 4, ela descobriu-se uma nova mulher ao optar pelo caminho da reinvenção. Pensar sobre o futuro dos próprios filhos foi fundamental para essa escolha. “Se continuasse persistindo numa vida em que não estava plenamente feliz, poderia respingar neles e causar um trauma para a vida inteira”, desabafa. “Hoje, tenho certeza de que entendem o quanto são amados e continuam a ter uma família, embora nem todos os integrantes morem juntos.”

Reflexões sobre o passado de sua própria família, sobretudo acerca da trajetória de sua mãe, Neuza Diogo, de 72 anos, também pesaram na decisão. A cantora nasceu na Vila Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, e viu a mãe enfrentar, desde cedo, os problemas com o alcoolismo do pai, morto em 1999. “Ela precisou construir um bar no quintal de casa para mantê-lo por perto, para que ele trabalhasse e ficasse por lá”, conta a artista, que tem quatro irmãos. “Não vou romantizar esse sofrimento nem pretendo repetir a insistência que ela teve em ficar ao lado do meu pai, mesmo ele não sendo muito legal. Mas a força dela, a resiliência e a responsabilidade com os filhos formaram a mulher que sou.”

Camisa Paula Rondon, calça Cris Barros, brincos Alix, sapatos Alme Foto: Gabriel Marques / Gabriel Marques
Camisa Paula Rondon, calça Cris Barros, brincos Alix, sapatos Alme Foto: Gabriel Marques / Gabriel Marques

Em meio ao furacão particular vivenciado nos últimos dois anos, Negra Li também decidiu, em suas palavras, “sair do armário da sexualidade”. Quem a acompanha pelas redes (só no Instagram são 1,1 milhão de seguidores), tem visto o quanto o tema bomba por lá e ganhou até uma série em seu IGTV, o “Só uma tacinha”. “Tenho descoberto uns brinquedinhos, e isso tem me ajudado a ficar mais calma”, diverte-se. A cantora, que vive um caso de amor com o satisfyer, um vibrador também conhecido como sugador de clitóris, afirma que sentir prazer com o próprio corpo a deixou menos ansiosa na busca por um novo parceiro. “Até me aventurei depois da separação, mas não gosto de sair com muitas pessoas. Sou seletiva. Cuido muito desse corpinho e dessa mente, acho que merecem alguém bacana.”

Casaco e calça Nadruz, gola Anselmi, meias Calzedonia, sapatos Christian Louboutin Foto: Gabriel Marques
Casaco e calça Nadruz, gola Anselmi, meias Calzedonia, sapatos Christian Louboutin Foto: Gabriel Marques

Desde que passou a falar regularmente sobre masturbação, a artista recebe várias mensagens das seguidoras em agradecimento pelo conteúdo. “Sinto muito orgulho disso. Quero que todas as mulheres sejam assim e se descubram cedo, como já acontece com os homens. Conosco é aquela coisa: ‘Não toca aí! É feio!’”, compara a cantora, que também começou a fazer um curso de pompoarismo. “É muito legal, e já usei o benefício de saber segurar e soltar só na hora que quero”, relata. E acrescenta que, além das vantagens sexuais, a técnica milenar ajuda também a combater a incontinência urinária, muito comum às mulheres depois da gestação.

Zezé Motta, que já dividiu o palco com a cantora numa apresentação e participou da divulgação de “Comando” ao ler um trecho da letra num vídeo, tem adorado acompanhar o vigor de Negra Li ao abordar esses temas. “Vejo isso com muita naturalidade”, afirma a atriz. “A mulher não pode mais ter tabu com a sexualidade e precisa entender o seu lugar de fala na sociedade. Fico otimista em ver trabalhos como o dela.”

A revolução sexual de Negra Li tem a mesma força de sua sede profissional. “Mesmo com 41, me sinto com 28. A minha energia, a minha vontade de fazer não tem essa coisa de ‘ai, agora eu já tenho 41, vou fazer uma linha mais séria’”, conta. “Tenho vontade de realizar todos os sonhos que não consegui ao longo da minha carreira, porque, para mim, foi sempre bem difícil, sabe?”

Camisa e calça Ines de La Fressange, brincos Cori, sapatos Gucci Foto: Gabriel Marques / Gabriel Marques
Camisa e calça Ines de La Fressange, brincos Cori, sapatos Gucci Foto: Gabriel Marques / Gabriel Marques

Primeira rapper brasileira a assinar com uma gravadora multinacional, em 2005, a cantora reconhece que manter-se no showbiz é um desafio, por vezes, cruel. “Não me davam espaço para aprender e ter experiência”, recorda-se. Um dos episódios mais dolorosos nesse sentido foi quando gravou uma música e um videoclipe com o cantor americano Akon. Na vinda do artista ao Brasil, porém, a sua gravadora na época escalou outra cantora, mais famosa, para se apresentar ao vivo ao lado do astro internacional. “Ela não tinha uma música com ele, e apresentaram um cover. Nunca soube o porquê de fazerem isso, mas me revoltava. Tive que engolir muitos sapos.”

Depois de passar por diferentes escritórios ao longo de 24 anos de carreira, a artista chegou a pensar em desistir. “Já quis parar de cantar. Então, pensava que, se estivesse em qualquer outra função, as pessoas olhariam para mim e diriam: ‘Você é louca? Não faça isso!’. Imaginar essa reação me dava força para continuar”, conta. Preta Gil, sócia-diretora da Mynd, empresa que passou a administrar a carreira de Negra Li, certamente estaria entre elas. Segundo a cantora, a ideia de trazer a colega para a empresa partiu de sua sócia, Fátima Pissarra. “As duas se encontraram, e a Fátima vislumbrou nela um recomeço, uma oportunidade de investir e fazer com que retomasse a força e o brilho total. Quando me contou isso, amei e dei todo o apoio”, recorda-se Preta. “Ela tem uma coroa de rainha do rap e do hip hop no Brasil.”

A coroa lhe cai bem, mas Negra Li admite que pensar em si como precursora das vozes femininas no rap também é um tanto assustador. “Quando entrei, já tinha outras minas, mas quem teve essa grande visibilidade, que foi para a TV Globo (ela fez parte do elenco da série ‘Antônia’, de 2006), ganhou prêmios de videoclipe e teve raps como trilha sonora de novela fui eu, né?”, reconhece. “Dá um susto porque alguém que diz ser precursor de algo deveria ter uns 70 anos. Isso mostra como o Brasil é atrasado (na questão de gênero). Não era para ser eu nesse posto, mas uma mulher que tivesse, ao menos, a idade do Mano Brown (rapper de 51 anos).”

Passar por todos esses cerceamentos fez com que a cantora se sentisse, durante muito tempo, insegura em dar opiniões mais contundentes sobre os assuntos que lhe interessam. “Quando ia em alguns lugares, como programas de TV, percebia olhares do tipo: ‘Será que ela vai usar o microfone para falar um monte agora?’. Então, sabia que não podia fazer isso. Precisava ser simpática, fazer um bom trabalho e cantar bem para que pudesse voltar àqueles espaços de novo.”

EL exclusivo Negra Li Foto: Gabriel Marques / Gabriel Marques
EL exclusivo Negra Li Foto: Gabriel Marques / Gabriel Marques

Junto a essa insegurança, somava-se o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que foi diagnosticado por um psiquiatra. “É muito louco. Eu não dormia porque tinha insônia e tinha insônia por não ter dormido”, conta. Ela chegou a tentar tratamento pela medicina tradicional, mas não curtiu os efeitos colaterais. As coisas finalmente melhoraram quando começou uma terapia com canabidiol, consumido a cada 12 horas. E a artista reitera que o uso é meramente medicinal. “Quando quero sair um pouquinho (da realidade), vou no vinho. Afinal, todo ser humano precisa disso em algum momento para aguentar essa vida.”

Encarar o Brasil contemporâneo torna essa afirmação ainda mais eloquente. “O país, infelizmente, ainda consegue nos surpreender para o lado negativo”, lamenta a cantora, dizendo também estar cansada do clima de polarização. “Fico triste com a separação das pessoas que se dizem de esquerda e de direita, esse cenário de briga o tempo todo. Deveríamos, na verdade, estar lutando pela mesma coisa.” Embora não se considere uma profunda conhecedora da política no âmbito institucional, Negra Li identifica-se mais com os discursos da esquerda. “Mas não estou escolhendo um lado, só estou sendo sincera.”

De todo modo, entre tantos caminhos possíveis, ela jamais deixou de se posicionar. “Comecei no rap. Então, meu início já foi politizado. Nunca tive como separar isso”, pondera, antes de defender que artistas precisam, sim, se envolver com temas relevantes para a sociedade. “Você não precisa exatamente falar de política, mas pode falar de meio ambiente, por exemplo, e incitar as pessoas a fazerem coisas boas.”

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