‘Sempre precisei da aceitação do outro’, diz Isabeli Fontana

Com 38 anos de idade e 25 de carreira, modelo afirma que quarentena da Covid-19 foi momento de lidar com ‘monstros internos’ e diz passar por processo diário de desconstrução de padrões de beleza
Victoria Azevedo

A modelo Isabeli Fontana celebra 25 anos de carreira em 2021
A modelo Isabeli Fontana celebra 25 anos de carreira em 2021 – Felipe Censi

modelo Isabeli Fontana avalia que o Brasil não está feliz —e não sabe dizer quando o país retomará a sua alegria. “Quando volto para cá, sinto uma energia triste. Sou super sensitiva”, diz ela, que morou nos Estados Unidos entre 2018 e 2020 e agora reside em SP. “Vai demorar pra gente voltar a ser um povo feliz. São mais de 500 mil mortes [pela Covid-19]. É um absurdo isso que estamos passando.”

“Tem que ter um trabalho muito grande na gestão do país. Primeiro, o dólar está a mais de R$ 5. Já até perdi as contas [da cotação]. Ele tinha que ser o mesmo tanto que o dólar, o brasileiro ia adorar isso, ia ficar mais feliz.”

A modelo curitibana, que trabalha desde os 13 anos, conta que sempre viajou muito por causa da profissão —e estranhou ter de ficar em casa durante a quarentena imposta pela Covid. Ela afirma que esse foi um momento para lidar com seus “monstros internos”, como, por exemplo, a ansiedade. “Sempre vamos jogando os nossos sentimentos ruins debaixo do tapete. Agora é a hora de levantar esse tapete, sacudir e ver tudo o que está acontecendo. Na quarentena esses sentimentos vieram à tona.”

No começo do ano, foi passar uma temporada nos EUA para fazer um curso de formação de ioga kundalini, cujo objetivo é despertar a energia do sistema nervoso central, por meio de exercícios de respiração e mantras. Aproveitou e se vacinou contra a Covid-19 —ela recebeu o imunizante da Janssen.

O marido de Isabeli, o cantor Di Ferrero, foi uma das primeiras figuras públicas a anunciar que estava com Covid, em março de 2020. “Não sabíamos de nada, foi muito louco. Sou a pessoa mais natureba possível, lembro de ter questionado se precisava tratar ele com antibiótico na veia”, conta. Isabeli teve coronavírus, mas meses depois e com sintomas leves.

Isabeli comemora 25 anos de carreira em 2021. Por vários anos, esteve em listas da revista americana Forbes das modelos mais bem pagas no mundo. Ela já desfilou para grandes grifes internacionais como Balenciaga, Louis Vuitton, Dior, Versace e Chanel.

De lá para cá, avalia que o cenário da moda mudou muito —e celebra as mudanças nos padrões de beleza e a diversidade que passou a ser valorizada na profissão.

“Isso deveria ter existido desde sempre, e o mundo da moda só ganha com isso. Cada um tem um corpo, e as pessoas precisam aprender a se amar do jeito que são”, segue. E conta que já teve que fazer “dietas malucas que quase me enlouqueceram” para conseguir trabalhos, mas que “graças a Deus isso tudo é bobagem hoje em dia”.

Ela comemorou o anúncio de reestruturação da marca Victoria’s Secret, que irá trocar as suas icônicas “angels” por um time de mulheres ativistas, como a jogadora americana de futebol Megan Rapinoe e a atriz indiana Priyanka Chopra Jonas. “Estava mais do que na hora da moda abraçar todos os tipos de corpos, de seres. Corpo perfeito é bobagem, não existe! Perfeito é quando você se gosta e se aceita.”

A modelo Isabeli Fontana
A modelo Isabeli Fontana – Felipe Censi



Isabeli conta que teve que adiar projetos e trabalhos no começo da epidemia e que temeu perder “tudo o que já tinha conquistado” na carreira. “Preciso trabalhar, não nasci rica. Ajudo a minha família e tenho pessoas que dependem do meu trabalho”, segue. “Acham que é só glória ser modelo. Mas ninguém sabe o corre que é, tudo que a gente faz. Atrás da fama existe ‘ralação’.”

Isabeli diz que nesses anos todos teve que superar muitos obstáculos e negativas para chegar aonde queria estar. “Mesmo estando no padrão de beleza dos anos 1990, não era aceita no ‘high fashion’, Diziam que eu só servia para marcas comerciais, me achavam sensual demais.”

E afirma que sempre foi uma pessoa muito ansiosa e cheia de inseguranças. “A gente pode fingir que está tudo bem, que a vida é maravilhosa. Mas não é bem assim, ninguém é feliz o tempo inteiro”, segue. “Sempre precisei da aceitação do outro, isso é uma coisa muito difícil. O negócio é ir acertando os ponteiros para que você consiga ter mais paz.” Aos 38 anos, é mãe de Zion, 18, e Lucas, 14. Diz que vê com bons olhos a maturidade que alcançou com a idade, mas que ainda tem dificuldades com o envelhecimento de seu corpo.

“Trabalho desde nova com a pressão de ter uma imagem jovem e isso ainda está na minha mente. Fazer essa desconstrução é um processo diário.” E não tem vergonha de contar sobre os procedimentos estéticos que já fez e os que ainda planeja fazer. “Me olho no espelho e não me reconheço. Aí falo [com a dermatologista]: ‘Doutora, o que a gente vai fazer hoje? Porque estou velha e não quero ficar velha’. Quem quer isso, gente [risos]?”

A modelo diz que não gosta de política. Mas critica a condução do governo Jair Bolsonaro no combate à epidemia e afirma que essa gestão não a representa. “É o momento de a gente se unir e falar ‘chega’! Chega de palhaçada, a gente merece ser feliz. Não estamos pedindo muito, só queremos um país melhor, queremos viver bem, ter qualidade de vida.”

Por outro lado, também critica quem pressiona figuras públicas a se posicionarem sobre temas políticos —para ela, cada um sabe de si. “Você deve se posicionar se aquele tema mexeu com você e se você quiser. Não tem que ter nenhuma ‘forçação’. Acho errado as pessoas ficarem: ‘E aí, e o Bolsonaro? Você é a favor ou é contra?’. Parece que só tem essas duas opções. As pessoas não são só ruins ou só boas, têm uma mescla de tudo.”

Com mais de 1,3 milhões de seguidores no Instagram, ela conta que não tem medo de ser cancelada nas redes sociais. “Se gosto de mim, admiro quem sou e acredito que sou a melhor versão que eu posso ser, as pessoas vão gostar de mim. Não tem por que temer, a não ser que você se meta em alguma confusão e aí tenha que refletir sobre. Porque se eu fui cancelada, é porque eu fiz alguma merda.”

Para o pós-epidemia, ela prepara um curso para ajudar outras meninas que pretendem seguir na carreira de modelo, com aulas de meditação e ioga e dicas para desfiles em passarela e ensaios fotográficos.

“Hoje, sou uma pessoa muito mais forte, mais calma e pé no chão. Tenho técnicas que quero passar para os outros porque acredito que posso contribuir. As pessoas não precisam sofrer tudo o que eu sofri para aprender. Para ter sucesso, é preciso se fortalecer. Eu gosto de ajudar o outro. Eu tenho um amor incondicional pelas pessoas”, finaliza.

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