‘Nossa parte da noite’, Mariana Enriquez revisita ditadura militar e início da AIDS em romance de terror sobrenatural

Em ‘Nossa parte da noite’, autora argentina acompanha garoto que se comunica com os mortos
Bolívar Torres

A escritora argentina Mariana Enriquez Foto: Divulgação

Psicodelia, seitas perigosas,  terror sobrenatural e deuses ancestrais. Mesmo quem já tinha familiaridade com os textos curtos da argentina Mariana Enriquez vai se surpreender com a lista de estranhezas de seu primeiro romance publicado no Brasil, que chega às livrarias pela Intrínseca.  “Nossa parte da noite” leva ainda mais longe o universo insólito presente nas coletâneas de contos “As coisas que perdemos no fogo” e “Este é o mar”, seus livros anteriores lançados aqui (também pela Intrínseca).

Após a morte de sua mãe em circunstâncias misteriosas, Gaspar e seu pai percorrem de carro a Argentina do final anos 1970. Dirigindo de faróis desligados à noite para despistar a vigilância, eles fogem de uma sociedade secreta que busca a vida eterna por meio de rituais sádicos.

O garoto herdou a habilidade de se comunicar com os mortos —um dom que parece mais uma maldição, que ele terá que administrar ao longo das mais de 500 páginas do livro. A premissa também é uma oportunidade para a escritora falar sobre os crimes da ditadura militar e a chegada da Aids na Argentina, além de fazer uma reflexão sobre temas como legado e transmissão.

— O livro parte de uma preocupação sobre herança —diz a portenha, de 48 anos, que já foi finalista do International Booker Prize, um dos principais prêmios literários do mundo. — Escolhi pai e filho por ser um modelo clássico de transmissão, da “Odisseia”, de Homero, a “A estrada”, de Cormac McCarthy. O que passamos para nossos filhos? Que tipo de mundo, que tipo de trauma, que tipo de História? Sempre são algumas coisas boas e outras ruins. Agora, estamos transmitindo aos nossos filhos o extermínio do planeta, por exemplo.

O romance não é, exatamente, sobre as mudanças climáticas ou a destruição de biomas. Mas trata sobre o que todos podemos fazer em relação ao nosso futuro — e, na trama, este é representado por uma criança.

O nome Gaspar, aliás, não é fortuito. O personagem poderia ser herdeiro do “Gaspard da Noite”, protagonista do livro homônimo do francês Aloysius Bertrand. Publicado em 1842, traz inovadores poemas em prosa em que convoca fadas, duendes, fantasmas e criaturas noturnas. Mas as influências de Enriquez, uma cria dos anos 1980 que bebeu do universo fantástico de Stephen King e Steven Spielberg, vai muito além do gótico pictórico oitocentista. Gaspar evoca ainda a figura de Danny Lloyd, o garoto paranormal de “O iluminado”.

A escolha do período histórico também tem sua função. Para Enriquez, a ditadura é um trauma que ainda assombra gerações. É como se a impunidade de seus crimes nunca morresse. A autora, contudo, disse que não buscou metáforas políticas e literárias no governo autoritário ou na Aids.

—A literatura é uma forma de interpretar e ler o passado trágico e o presente difícil dos nossos países— explica. —Não creio que ela ajude ou deixe de ajudar (a vencer o trauma). E os corpos feridos do romance, não refletem diretamente o corpo social ferido da literatura. Queria introduzir de uma forma mais direta os doentes e a subjetividade da doença, tanto pessoal, como no caso dos personagens, quanto social, como no caso da Aids.

Um dos principais nomes da literatura latino-americana hoje, Enriquez ficou conhecida no Brasil pelos contos, que trabalham medos contemporâneos dos centros urbanos. Ela costuma dizer que escreve suas narrativas curtas com rapidez, sem revisar, para manter um aspecto “inacabado”. Já seu processo em romances é diferente. “Nossa parte da noite” exigiu um longo período de pesquisa e anotações, para enfim chegar ao processo de escrita, que levou 2 anos e meio.

—Um romance pede tempo, não apenas por ser mais longo, mas por causa das ligações que se criam entre aquele mundo e os personagens — explica. — Os contos, por outro lado, são uma maneira de entregar uma ideia e uma tensão. Se o conto é uma canção, o romance é um álbum.

Biógrafa de Silvina Ocampo

Em 2014, Enriquez publicou na Argentina uma biografia de sua conterrânea Silvina Ocampo (1903-1993), cuja obra ganhou um revival nos últimos anos. Intitulada “A irmã pequena —Um retrato de Silvina Ocampo”, a obra será lançada ano que vem no Brasil pela Relicário. Excêntrica e enigmática tanto em sua personalidade quanto em sua obra, Ocampo foi uma figura difícil de ser apreendida pela biógrafa. Sua sexualidade é um mistério também: sabe-se que ela gostava de homens e mulheres, mas não com quem saía.

—Era uma mulher diferente, que tomou decisões estranhas para mulheres de sua posição. Rica e atraente, foi viver com um homem 20 anos mais novo no campo, o que causou escândalo. Só consigo explicar sua vida em termos de classe: era tão rica que podia se dar ao luxo de não se importar com o que pensavam dela. Já como mulher é mais complicado, pois não sofria o tipo de regras que as mulheres de seu tempo sofriam.

Casada por um tempo com Bioy Casares, ela foi admirada por escritores como Jorge Luis Borges. Mas só ganhou sua primeira tradução no Brasil em 2019, com o livro de contos “A fúria”.

— Ela tinha uma escrita louca, com muito humor negro, como nunca se viu antes —conclui Enriquez.

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