Entenda por que os pênis, duros ou moles, aparecem cada vez mais na televisão

Streaming fez sumir o medo do nu frontal, mas uso de próteses enormes só reforça o machismo, dizem especialistas
Caio Delcolli

Ilustração de Francisco Hurtz Reprodução

Pênis. Ereto ou flácido, ele tem aparecido bastante em séries de TV. Neste ano, “Sex/Life”, da Netflix, causou frisson ao pôr o ator Adam Demos em cena com um membro enorme à mostra enquanto toma banho. A comédia The White Lotus”, da HBO, também deixou espectadores eriçados com Steve Zahn, de pernas abertas, perguntando à mulher se os testículos dele estavam estranhamente grandes ou não.

Nos últimos anos, a HBO tem exibido vários. “Big Little Lies”, “Game of Thrones”, “We Are Who We Are”, “Perry Mason”, “Watchmen”, “Euphoria”, “The Deuce” e “Westworld” são alguns exemplos. O canal a cabo não está sozinho nisso. “Normal People”, do Starzplay, “Sex Education”, da Netflix, e “American Gods”, do Amazon Prime Video, também desnudam totalmente alguns homens. No Brasil, “Feras”, da MTV, colaborou com a onda.

Embora menos frequente que o feminino, o nu frontal masculino não é novidade tão grande. No fim dos anos 1990, o drama “Oz”, da HBO, já punha atores peladões diante das câmeras. “Spartacus”, do Starz, que estreou em 2010, despejou gladiadores nus sobre os espectadores.

Mas o que há de novo nas produções atuais da TV paga e do streaming é também o que há em comum entre as aparições do pênis —a manipulação da imagem do órgão, que tende a ser prótese ou digital.

“Spartacus” é um divisor de águas nesse sentido, já que todos os membros eram sintéticos e foi a partir do seriado que o uso deles se popularizou na TV. No tempo em que “Oz” foi feita, o uso da prótese e do digital não era a norma. O cinema, de alguns anos para cá, também tem recorrido ao artifício.

Peter Lehman, pesquisador e professor do departamento de cinema e mídia da Universidade do Estado do Arizona, nos Estados Unidos, afirma que é necessário entender o fenômeno a partir de dois contextos da indústria do entretenimento.

“Sempre houve tensão entre o cinema e a TV em relação ao que um poderia fazer e o outro não. Com a chegada dos novos formatos digitais e dos canais a cabo no fim dos anos 1990, a TV desafiou o cinema com base nas diferentes tradições de censura dos meios”, diz o autor do livro “Running Scared: Masculinity and the Representation of the Male Body”, algo como correndo de medo, masculinidade e a representação do corpo masculino.

As regulações da Motion Picture Association of America, associação que hoje representa os cinco maiores estúdios de Hollywood mais a Netflix, ditavam como o nu frontal masculino deveria ser exibido no cinema. Numa cena de sexo, por exemplo, o pênis não poderia aparecer próximo ao corpo da mulher. A TV, por outro lado, não tinha que seguir a cartilha da associação, então se viu livre para mostrar o quanto e como bem entendesse.

O uso de pênis falsos em cena coincide com a consolidação do streaming, que também faz o que o cinema não pode, e dos coordenadores de intimidade, que garantem aos atores, nos sets de filmagens, a devida segurança para rodarem cenas de sexo e nudez.

Antes de virar mainstream, a representação do pênis estava reservada principalmente às artes clássicas e underground, conta Abel Oliveira, pesquisador e comunicador social. O choque que a imagem do órgão causa sempre teve questões culturais e econômicas por trás.

“A religião exigia que os corpos se cobrissem, mas com o Renascimento, o corpo feminino foi enormemente explorado pelas artes. Entretanto, essas produções artísticas eram majoritariamente feitas por homens e para homens”, afirma.

“Não havia espaço para a representação do corpo masculino, que passou a ser encarado como não artístico, não belo, não sensual e nem delicado o suficiente para suprir as exigências das escolas artísticas. O machismo, obviamente, estava presente nesse julgamento.”

Na Grécia Antiga, havia ambiguidade. Por um lado, o nu masculino não era tão atrelado a moralismos. Várias esculturas desse período que se tornaram importantes para a história da arte retratam os membros como pequenos e flácidos, sem intenção erótica e simbolizando o intelecto. Por outro lado, o órgão grande e ereto era recurso em casos de sátira, associado ao animalesco, ao feio e à burrice.

É algo mal resolvido que a arte ocidental experimenta desde os primórdios. O fotógrafo americano Robert Mapplethorpe foi um dos poucos casos de artistas que conseguiram fazer carreira mostrando pênis —eretos, flácidos e grandes— em obras, mas não sem causar revolta.

A estigma que a representação do órgão carrega e sua associação à pornografia —esta também estigmatizada como uma linguagem desprovida de ambição artística— mostra que o preconceito é contemporâneo.

Oliveira, o pesquisador, argumenta ainda que, no caso das séries, as plataformas digitais capitalizam com a receptividade dos LGBTQIA+. “Muito do que é tabu para uma sociedade supostamente heterossexual, não é para eles.”

Há outro elemento importante para entender o fenômeno —os pintos tendem a ser grandes, seja no contexto erótico, da humilhação cômica ou qualquer outro. Aqui está outro legado de “Spartacus”.

Segundo Lehman, a obsessão com comprimento frequentemente reforça lugares-comuns, como “tamanho é documento”, e estereótipos raciais, como asiáticos têm membros pequenos e negros, grandes. Essas representações reforçam o entendimento errôneo de que o pênis nos diz algo importante a respeito da sexualidade ou do poder de um homem.

O que realmente deveria estar no centro do debate, defende o professor, é a necessidade de representar o órgão como grande. Num momento como o atual, em que o conceito de masculinidade é contestado e os direitos das mulheres, dos LGBTQIA+ e de minorias raciais são discutidos, os seriados têm uma postura reacionária.

“O termo ‘nu frontal masculino’ é, em certo sentido, impróprio, já que a prótese cobre o órgão genital em vez de mostrar. Não há nada de progressista nisso, uma vez que os pênis falsos têm reforçado clichês e estereótipos. Em ‘Spartacus’, por exemplo, quase todos os gladiadores são bem-dotados, mas não há conexão entre ambas as coisas”, diz.

A resposta, diz o acadêmico, está em entender como o pênis é ligado, no contexto do patriarcado, a um símbolo de poder. Ele tem de ser escondido para reter seu poder mítico e misterioso ou ter a imagem cuidadosamente manipulada para reforçar a interpretação. “Eles são raramente mostrados em sua verdadeira pluralidade de tamanhos e formas, em que são apenas um órgão que não significa nada em especial. Isso, sim, seria libertador de verdade.”

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