Emmy prometeu diversidade, mas esforço não passou de marketing

Atores e atrizes não brancos eram 41% dos indicados e não receberam nenhuma estatueta
Luciana Coelho

Olivia Colman com seu Emmy de melhor atriz em série de drama por ‘The crown’ Foto: PETER NICHOLLS / REUTERS

Ensejada nas indicações e reprisada durante a cerimônia, a prometida mudança no Emmy para contemplar gente e histórias mais diversas não se traduziu em prêmios. Como havia muito não ocorria, a totalidade dos 12 atores e atrizes premiados na noite de domingo (19) é branca.

Em que pesem suas qualidades, as ganhadoras dos três prêmios principais —“Ted Lasso” (comédia), “The Crown” (drama) e “O Gambito da Rainha” (minissérie)— são tão brancas como as produções de 1950.

O resultado fica mais bizarro quando levado em conta que 41% dos 73 indicados nas categorias de atuação eram pessoas não brancas —negras, asiáticas, latinas, indígenas—, reflexo preciso da população americana, na qual 60% se identificam como brancos sem origem latina ou hispânica, segundo o censo dos Estados Unidos.

Papelão, pois a busca por diversidade na TV foi o mote da cerimônia toda. O mestre de cerimônias, Cedric the Entertainer, era negro, assim como vários dos apresentadores e a grande homenageada da noite, a atriz e coreógrafa negra Debbie Allen, que inspirou um longo discurso sobre diversidade do presidente da Academia de Artes e Ciências Televisivas, que entrega o prêmio.

Atores e atrizes de origem asiática e indígena também anunciaram vencedores. Várias das produções indicadas, de programas de esquetes de humor a minisséries como “Lovecraft Country”, têm protagonistas negros ou o racismo como temática.

Duas produções indicadas, “Hamilton” e “Bridgerton,” devem parte de seu sucesso à provocação de escalar atores negros para papéis tradicionalmente entregues a brancos.

E o discurso mais forte da noite veio de uma mulher negra, Michaela Coel, laureada como melhor roteirista de minissérie por sua arrebatadora “I May Destroy You” (“Em um mundo que nos incita à necessidade de visibilidade constante, pois a visibilidade, hoje, parece corresponder a sucesso, não tenham medo de desaparecer um pouco. E ver o que surge do seu silêncio”).

Ainda assim, Coel não foi contemplada como atriz —perdeu para Kate Winslet, também fenomenal em “Mare of Easttown”— ou diretora, nem sua minissérie foi considerada a melhor.

Poderia ter perdido para a mesma “Mare”, ou a aterrorizante “The Underground Railroad”, de Barry Jenkins, um dos cineastas mais relevantes em exercício. Até a espertíssima “WandaVision” tinha chance. Mas perdeu para o “Gambito da Rainha”, um drama bem-feitinho porém a anos-luz de qualquer uma de suas concorrentes.

É óbvio que não há, nem deve haver cotas raciais em prêmios. É assustador, contudo, que, mesmo com tantos indicados não brancos, nenhum deles tenha posto as mãos na estatueta. Trata-se, no mínimo, de um descompasso com o espírito do tempo.

A mudança expressa nas indicações e na escolha dos apresentadores, afinal, apenas responde ao que tem ocorrido com as próprias produções, que, graças ao multiculturalismo almejado pelas plataformas de streaming, multiplicaram os tipos de corpos e vozes em cena.

Sem depender de patrocinadores, apenas dos espectadores, é cada vez mais natural que as produções abandonem “modelos ideais” do passado para se conectarem com uma plateia cada vez mais diversa.

Com as estatuetas pulverizadas na noite de domingo, algumas decisões questionáveis e uma leva de escolhas óbvias, entretanto, o prêmio mais importante da televisão americana deixou no ar se a intenção de permitir que mais gente seja ouvida é para valer ou é só uma versão de verniz marqueteiro em tempos em que se dizer socialmente e ambientalmente responsável pode ser lucrativo em qualquer indústria, das megacorporações ao centro de Hollywood.​

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