Missa da Meia-Noite é mais um drama de horror brilhante de Mike Flanagan

Nova série traz mistura familiar, mas vai mais longe que obras anteriores do criador
CAIO COLETTI

Zach Gilford em Missa da Meia-Noite (Reprodução)

Fãs de A Maldição da Residência Hill/Mansão Bly sabem bem o tipo de horror que Mike Flanagan faz, especificamente quando tem o espaço amplo de uma minissérie, em uma plataforma como a Netflix, notável pela liberdade criativa que dá a seus contratados. Por isso, Missa da Meia-Noite, de certa forma, não surpreende: este é, em muitos sentidos, mais um drama de horror meditativo e cheio de nuances (muito bem) urdido por Flanagan.

Assim como na antologia A Maldição, o cineasta mais brinca com conceitos do terror, com imagens recorrentes do cânone do gênero, do que realmente investe nele. Nos três primeiros episódios de Missa da Meia-Noite, ele conjura muitos momentos arrepiantes, e até uns poucos sustos genuínos (daqueles que estamos acostumados no horror mainstream), mas seu interesse está mais em criar uma ambientação incômoda, uma tensão entre o espectador e a narrativa, que serve ao arco emocional que ele está desenhando com os personagens.

Nosso protagonista aqui é Riley Flynn (Zach Gilford), que retorna para a minúscula ilha onde nasceu após passar uma temporada na prisão por atropelar uma mulher enquanto dirigia embriagado. Sua chegada coincide com a do padre Paul (Hamish Linklater), que substitui, em circunstâncias para lá de suspeitas, o monsenhor que comandava a paróquia local há décadas. Quando o novo sacerdote se mostra capaz de feitos aparentemente milagrosos, o delicado tecido social da ilha começa a se desfazer.

Flanagan, que dirige e escreve toda a minissérie, costura cuidadosamente uma história sobre crença e descrença, perdão e mágoa, conexões genuínas e sentimentos forjados, performados, artificiais. Missa da Meia-Noite traça o paralelo entre o teatro da celebração católica e o teatro da convivência em uma cidade pequena, e desenha uma linha clara entre aqueles que professam fé para se sentirem superiores e aqueles que a professam porque precisam se agarrar em alguma coisa para sobreviver.

Samantha Sloyan em Missa da Meia-Noite (Reprodução)

Nesse cenário, se há um “antagonista” na minissérie – pelo menos neste início – é a Bev Keane da ótima Samantha Sloan, retratada pelo roteiro como uma mulher astuta, cujo moralismo tacanho se esconde habilmente por trás de platitudes conviviais. Ela é um tipo familiar, tanto de outras obras de ficção que lidam com o tema da religião quanto da vida real, e Missa da Meia-Noite a aborda com medo (do poder que ela detém dentro da ilha, especialmente), mas também um bom humor afiado.

Sloan e Hamish Linklater, aliás, fazem uma dupla formidável em tela. Na pele do misterioso padre Paul, o ator de A Grande Aposta e Legion transforma a aura de sinceridade, de “homem comum”, que sempre envolveu suas performances, em arma indispensável para Missa da Meia-Noite funcionar. A série exige que invistamos em Paul como um homem que busca ajudar aqueles à sua volta, e Linklater – com a sua voz hesitante e seu exaspero existencial que fulgura por trás dos olhos – permite que façamos isso sem hesitação.

As reviravoltas da trama desses três primeiros capítulos não são exatamente surpreendentes. Para o espectador atento, de fato, elas são telegrafadas a quilômetros de distância, mas Flanagan e seus colaboradores se certificam de que a execução importe mais do que o resultado. Mais corajosamente explícita em sua construção visual de horror, e mais disposta a se apoiar no kitsch do que ambas as temporadas de A Maldição, esta é uma obra também mais envolvente. Missa da Meia-Noite, ao menos para quem interroga as questões da série em sua própria vida, nunca é menos do que eletrizante, tocante, e fascinante de se assistir.

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