No-code: Na falta de programadores, startups apostam em ‘atalho’ para digitalização

Em alta, plataformas permitem que empresas criem apps com pouco conhecimento de programação
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Plataformas de ‘no-code’ e ‘low-code’ oferecem elementos básicos para construção de apps e ganham força entre pequenas empresas

Nos bastidores do movimento de digitalização, há uma dor de cabeça comum entre as empresas de tecnologia: contratar programadores. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), o setor deve demandar cerca de 420 mil profissionais até 2024, ao passo que, por ano, são formados aproximadamente 46 mil profissionais no País. Para desafogar esse gargalo, startups estão desenvolvendo novas ferramentas que facilitam a criação de aplicativos – são as chamadas plataformas de “no code” ou “low code” (“sem código” ou “pouco código”, na tradução do inglês).

A grosso modo, essas startups oferecem aplicativos que criam aplicativos. É uma espécie de “caixa de ferramentas” para profissionais leigos em tecnologia construírem sites e apps sem precisar mexer com programação – a plataforma já deixa uma estrutura de códigos pronta e exige que a pessoa apenas siga etapas simples de configuração. Dentro disso, enquanto as plataformas “no-code” tiram da jogada qualquer tipo de programação, as ferramentas “low-code” diminuem o nível de código necessário, adiantando o “arroz com feijão” do trabalho do desenvolvedor.

Plataformas de ‘no-code’ e ‘low-code’ oferecem elementos básicos para construção de apps e ganham força entre pequenas empresas

Um dos nomes que está no centro desse movimento é a Jestor. Fundada no ano passado pelos brasileiros Bruno Bannach e Guilherme Pinheiro na Califórnia (EUA), a startup oferece uma ferramenta no-code voltada para processos internos de empresas, principalmente na parte operacional. A ideia é otimizar os trabalhos que ainda dependem de planilhas e papelada.

Bannach conta que o empurrão inicial para a criação da Jestor foi a experiência da mãe dele, que é dona de uma farmácia. “Ela estava acostumada com muitas planilhas e sistemas contábeis, mas queria uma solução própria para organizar todos os fluxos. Era algo simples, mas quando fui tentar montar sozinho um software, não consegui”, conta ao Estadão o fundador da startup, que é formado em Economia. “É uma necessidade comum entre empresas resolver os próprios problemas sem precisar programar. Até porque, se você entende o problema de perto, deveria ter o poder de implementar uma solução”.

Bruno Bannach, fundador da Jestor

Atualmente, os clientes da Jestor são principalmente startups de médio e grande porte – entre eles, há o unicórnio brasileiro Loft, que atua na compra, reforma e venda de imóveis. Com a plataforma no-code, a startup construiu um aplicativo interno para gerenciar as equipes de limpeza dos apartamentos – até então, essa conversa era feita principalmente por WhatsApp e os registros das faxinas ficavam em sistemas diferentes.

Para oferecer a ferramenta, a Jestor aposta em um modelo “freemium”: há uma versão básica gratuita e outras mais avançadas, que custam a partir de US$ 150 por mês. Pelo caráter global da ferramenta, a startup atende 12 mil empresas espalhadas pelo mundo todo, desde a Índia até países europeus.

Atualmente, a Jestor está participando de um programa da Y Combinator, uma das principais aceleradoras do Vale do Silício – nos últimos meses, a empresa levantou US$ 458 mil com a firma de capital de risco Canary e a própria Y Combinator. Segundo Bannach, o plano é fechar uma nova rodada “logo menos”.

Outra startup que atua nesse segmento é a Abstra, que levantou R$ 3,6 milhões no mês passado, em rodada liderada pelo fundo de investimento paulistano Iporanga. Criada em março de 2020 no Rio de Janeiro, a empresa aposta em combinações de no-code e low-code para o público de designers, consultorias de tecnologia da informação e pessoas da área de produtos.

Seguindo o mesmo foco em demandas dentro de empresas, a ferramenta da Abstra foi usada, por exemplo, para criar um aplicativo interno de vendas no Grupo Stone, da maquininha de cartão – a plataforma exibe um mapa em tempo real e sincroniza informações. “O desenvolvimento do app durou uma tarde, enquanto era estimado um período de um mês de construção com o time de tecnologia”, afirma Bruno Costa, fundador da Abstra, que integrava a Descomplica após venda da PaperX, startup de educação para vestibulandos. Na criação do sistema, participaram duas pessoas: um engenheiro de dados e um profissional de vendas.

Com a pegada low-code, há também a Zeev, que mira áreas como marketing, recursos humanos e saúde. Com sede em Porto Alegre e São Paulo, a startup atende hoje 200 clientes, incluindo grandes empresas, como o Banco BMG, e pequenos e médios negócios. “A construção com pouco código permite que o profissional de tecnologia foque naquilo que é realmente difícil. Não é substituição, e sim valorização do programador: ele passa a focar na parte artística da inovação”, diz Rafael Bortolini, diretor de produto da Zeev.

Mão na roda
O movimento de diminuição de código é uma tendência global. A consultoria Gartner estima que o mercado global de tecnologias low-code movimente cerca de US$ 13,8 bilhões em 2021, um aumento de 22,6% em relação ao ano passado.

Apesar de as empresas brasileiras ainda estarem em estágio inicial, existem startups estrangeiras já consolidadas no segmento. Em julho, a americana Bubble, focada em no-code, levantou investimento de US$ 100 milhões em sua segunda rodada de captação – a empresa havia levantado US$ 6,3 milhões em 2019. Outra grande referência no ramo, também americana, é a startup Airtable, que recebeu US$ 270 milhões em março, chegando ao valor de mercado de US$ 5,7 bilhões.

Na visão de Pedro Carneiro, diretor da aceleradora ACE Startups, essas ferramentas farão parte de uma nova transformação no mundo da tecnologia. “É uma revolução parecida com o que aconteceu no passado com websites. No começo da internet, era necessário ter pessoas especializadas para criar qualquer site, até que chegaram ferramentas como o Wix e o WordPress, que deixaram as coisas muito mais simples”, afirma.

Fronteiras
Apesar de ser natural começar atuando em fluxos internos de empresas, onde o ambiente é mais controlado, algumas startups estão começando a se arriscar também do lado de fora, no contato com o cliente. É o caso da mineira Fluna, que acabou de ser selecionada para um programa de aceleração do fundo americano 500 Startups focado no mercado asiático.

Fundada no ano passado por Alysson Nazareth e Paulo Cerqueira, a empresa quer que sua ferramenta de no-code seja usada para construir qualquer tipo de aplicação. A startup de chatbots Take Blip, por exemplo, usa atualmente a plataforma da Fluna para acelerar integrações entre sistemas. “Às vezes você precisa emitir uma segunda via de boleto quando está conversando no chatbot. Essa é uma das conexões em que atuamos”, explica Nazareth.

Fluna, de Nazareth, fará aceleração na Ásia

No entanto, ainda há limitações de escala e personalização para que o no-code seja usado na criação de apps principais de empresas, explica Plínio Aquino, coordenador do curso de ciência da computação da FEI. “É uma forma de colocar o produto rápido no mercado, mas pode restringir a personalização de cada app, que depende bastante de código. Para pequenos negócios, porém, pode funcionar”, afirma.

Enquanto desbravam o mercado, as startups também enfrentarão o desafio de se diferenciar em meio a uma grande oferta de ferramentas – gigantes de tecnologia, como Microsoft e Google, também estão de olho no movimento. “A vantagem das startups é poder acompanhar de perto o problema de cada empresa e focar em nichos, como soluções de no-code voltadas para delivery ou e-commerce”, diz Carneiro, da ACE. “O segredo será a especialização”.

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