Rayssa Leal revela planos de ganhar o mundial e competir nas Olímpiadas de Paris

Em sua primeira capa de revista, Rayssa Leal, medalha de prata nas Olimpíadas de Tóquio, mostra porque aos 13 anos é uma das grandes estrelas do esporte. A “Fadinha do skate”, como é conhecida depois de ter um vídeo viralizado enquanto fazia manobras, já é, há um bom tempo, uma das líderes do ranking mundial. E sua trajetória está apenas começando
LAURA ANCONA LOPEZ

Rayssa Leal durante o shooting para a capa de Marie Claire (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))

Foi em 2015, menos de um ano antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro, que Lilian Mendes Rodrigues Leal postou no YouTube o vídeo de sua filha Rayssa, então com 7 anos, arriscando um heelflip em uma calçada de Imperatriz, no Maranhão, onde a família vive. A menina havia acabado de deixar um desfile em homenagem à Independência do Brasil, no 7 de setembro, e tentava executar a manobra de grande dificuldade, que consiste em levantar o skate do chão com os pés, dar um giro inteiro para o lado, e cair perfeitamente em cima dele novamente. Nas duas primeiras vezes, Rayssa não se equilibrou. Na terceira, vestiu as asas de sua fantasia de fadinha e executou a manobra com maestria. Orgulhosa do desempenho da pequena, Lilian decidiu dividir aquele momento na plataforma de vídeos, e foi dormir. Não é exagero dizer que, ao acordar, a vida de Rayssa – e da família Leal como um todo – nunca mais foi a mesma.

“Quando acordei, estava lá o tuíte dele”, me conta Rayssa pela tela do Zoom, enquanto toma um sorvete – ela havia acabado de sair da aula online. Quando pergunto: “Tuíte de quem?”, responde: “Do Tony, ué!”, enquanto dá mais uma lambida em seu sorvete. Rayssa refere-se a uma das maiores lendas do skate, o estadunidense Tony Hawk, a quem hoje chama carinhosamente de “Tonynho”. Em sua conta no Instagram, ele reproduziu o vídeo do 7 de setembro, com a legenda: “Não conheço nada sobre ela [Rayssa], mas isso é incrível: um verdadeiro conto de fadas de heelflip no Brasil”. Foi o que bastou para que a “Fadinha do skate” ficasse conhecida mundo afora. Curioso é que a própria Rayssa não liga muito para o apelido. “Sabia que não gosto tanto dele?”, conta, dando risada. “Tá bom, não é que não gosto, mas quero ser conhecida pelo meu nome. Eu sou a Rayssa Leal. Só que agora já era, né? Então, estou me acostumando, é divertido me chamarem de Fadinha. Mas meu nome é Rayssa!”

Sobre isso, certamente Rayssa não tem com o que se preocupar. Dias antes de nossa entrevista, eu e ela nos encontramos pessoalmente para a sessão de fotos deste editorial e da capa de Marie Claire. Quando chegamos à locação, uma pista de skate street, modalidade que pratica, em um parque na Zona Norte de São Paulo, a recepção foi digna da medalhista olímpica que é. Centenas de crianças, adolescentes e praticantes de skate se reuniram para vê-la – a notícia correu como uma fagulha em um palheiro, e a equipe de segurança do parque precisou atender ao chamado da produção, tamanha a quantidade de gente. Todos queriam ver “a Rayssa!”. O tempo era escasso e tínhamos muito o que fazer, então pedimos aos fãs que aguardassem o fim do shooting para fazerem fotos e pedirem autógrafos. A própria Rayssa prometeu atendê-los ao final da sessão, e assim o fez: só foi embora depois que conseguiu dar atenção a todos.
Pequenina – ela tem apenas 1,47 metro e pesa 35 quilos –, a garota parece ter zero deslumbre com o momento que vive. Afinal, está onde sempre quis e sonhou. Desde que o tuíte de Tony viralizou (hoje os dois são próximos e ele é uma espécie de conselheiro da menina), as coisas começaram a acontecer para ela. Depois de uma reportagem do Esporte Espetacular em que conheceu sua ídola, Letícia Bufoni – campeã mundial de skate em 2015 e uma grande amiga hoje –, começou a amealhar patrocinadores e acumular campeonatos. Na estrada desde cedo, lembra com orgulho do primeiro de que participou, em que a família juntou recursos com uma rifa para poder viajar. “Tinha só 6 anos e ganhei. Só que a rifa só dava para a viagem de ida. Para voltar, pedimos ajuda para um pessoal que vendia os lanches nos food trucks. Foram dois dias inteiros para conseguir voltar de ônibus, paramos em Brasília no meio do caminho”, lembra. A mãe, Lilian, que hoje é sua treinadora e a acompanhou em Tóquio, trabalhava como caixa em um mercado. O pai, Haroldo, era vidraceiro.
 

Foi a partir dessa vitória que a família de Rayssa – não só os pais – começou a acreditar que a menina poderia levar adiante a vida de atleta. “Eles começaram a mudar a mente para eu poder andar, né?” Ninguém da família praticava skate antes de Rayssa. Um amigo de seu pai, Matheus, foi quem a introduziu na prática. “Ele gostava muito de esportes radicais, patins, patinete, skate”, lembra. “Um dia apareceu em cima de um skate, olhei pra aquilo e disse: ‘Preciso subir, preciso tentar’. O Matheus pediu pra eu ir com cuidado, que era difícil. Eu disse: ‘Não, relaxa’. Subi e saí andando. Ele me perguntou: ‘Você já tinha subido num skate alguma vez?’, e eu: ‘Nunca vi um antes na vida’. Foi amor à primeira vista, mesmo.” Ao perceber o interesse da filha, o pai disse que daria um skate para ela, se conseguisse descer uma rampa em uma pista em que Matheus a levou. “Fui lá e desci. Foi no meu aniversário, ganhei um skate novinho! A partir daí, comecei a andar, andar, andar e evoluir”. O treino era todo feito com base em vídeos de profissionais no YouTube que Rayssa tentava copiar – muitos de Letícia, entre eles.
 

Rayssa Leal (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))
Rayssa Leal  e seu skate: “Foi amor à primeira vista”, diz ela  (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))

Amigas, sim
O clima de sororidade entre as atletas do skate nas Olimpíadas de Tóquio chamou a atenção do mundo – não por menos, Rayssa levou o prêmio do COI (Comitê Olímpico Internacional) por melhor representar o espírito olímpico em 2021. Nas pistas de street e park, cada atleta (muitas delas, menores de idade) dava o seu melhor e ficava frustrada se não conseguia executar uma boa volta. Do lado de fora, torciam genuinamente umas pelas outras e consolavam as colegas que não conseguiam nota suficiente para chegar às finais. Além de Letícia, Rayssa é particularmente próxima da inglesa Sky Brown, também de 13 anos, e uma das melhores atletas do mundo na categoria park. Com acompanhamento terapêutico da CBSk (Confederação Brasileira de Skate) durante os campeonatos, Rayssa não cansa de repetir que o que quer de verdade é se divertir. “Dificuldade sempre vai ter, já passei por várias, mas, se eu colocar um sorriso no rosto, me esforçar e me divertir fazendo uma coisa que amo, vai passar rapidão”, diz, enquanto termina seu sorvete.

Apesar da tenra idade – ela completa 14 anos em 4 de janeiro –, diz ter muitos planos para o futuro próximo, mas não só. “O que quero mesmo, de verdade, é poder incentivar as meninas a começarem a andar de skate no Brasil todo”, diz. “Quero mudar a mente das pessoas que acham que skate é coisa só de homem. Você acredita que tem um monte de gente que ainda pensa isso?”, me pergunta, incrédula. E as ambições de Rayssa continuam: “Também quero poder pegar um troféu da Super Coroa do Mundial. Ganhar o Mundial mesmo, sabe? Porque o que ganhei agora foi ‘só’ uma etapa. Vou focar muito para poder competir direito. Quero estar 100%, dar o melhor que tenho e me divertir bastante para ganhar esse troféu tão importante”. Os próximos Jogos Olímpicos também fazem parte da meta. “Quero ir pras Olimpíadas de Paris também, dessa vez com meus dois pais [devido à pandemia de covid-19, só Lilian pôde acompanhá-la]. Meu pai já está até estudando francês!”, conta, aos risos.
Nos planos de Rayssa, por enquanto, só não está uma mudança imediata para a Califórnia, nos Estados Unidos, a meca do skate, onde mora boa parte dos atletas de alto rendimento (como a própria Letícia). “Tenho o sonho de terminar o ensino médio na minha escola em Imperatriz. Eles sempre me apoiaram e incentivaram”, diz. “Foi a primeira escola particular que me abriu as portas, antes estudava em uma municipal. Pretendo, do fundo do meu coração, terminar de estudar ali. Meu pai quer que a gente vá para a Califórnia, mas já disse que antes quero finalizar o ensino médio lá, vai ser importante pra mim.” Uma menina que sabe exatamente o que quer e que faz tudo que está ao seu alcance para merecer. Que grande garota é Rayssa Leal.
 

Rayssa Leal (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))
Rayssa Leal: nos planos da menina estão ganhar o mundial de skate e as Olímpiadas de Paris (Foto: FABIO BARTELT (GROUPART))

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