Facebook é comparado à indústria de cigarros em audiência sobre saúde mental de adolescentes

Seguindo à risca discursos já proferidos pela rede social, diretora de segurança da rede social minimizou o papel da companhia nos danos causados aos jovens
Por Bruna Arimathea e Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Ao longo de duas horas e meia, senadores americanos questionaram Antigone sobre as revelações das reportagens e colocaram em xeque a confiança na empresa

Facebook mais uma vez teve de responder a perguntas do governo americano sobre o funcionamento de suas plataformas digitais. Nesta quinta-feira, 30, Antigone Davis, diretora de segurança da rede social, prestou depoimento no Senado americano sobre o impacto do Instagram na saúde mental de adolescentes. Seguindo à risca discursos já proferidos pela rede social, a executiva minimizou o papel da companhia nos danos causados aos jovens. 

O depoimento acontece após o jornal americano Wall Street Journal publicar, nas últimas semanas, uma série de reportagens que mostram que o Facebook estava ciente do impacto da plataforma no bem-estar de jovens, mas não tomou medidas para conter os danos. O jornal teve acesso a pesquisas internas da empresa – uma delas revela que 1 em cada 3 meninas que se sentiam mal com o próprio corpo ficavam ainda pior ao acessar o Instagram. 

Ao longo de duas horas e meia, senadores americanos questionaram Antigone sobre as revelações das reportagens e colocaram em xeque a confiança na empresa, muitas vezes evocando suas experiências pessoais como pais. A pressão foi bipartidária e os governantes se preocuparam principalmente com o fato de o Facebook ter omitido e ignorado informações sobre saúde mental no Instagram – as pesquisas internas sobre o assunto foram concluídas em outubro e novembro de 2019. 

“Agora sabemos que o Facebook prefere o crescimento de seus produtos ao bem-estar de nossos filhos. Não há evidência de que a companhia tenha feito algo além de algumas mudanças pequenas e marginais”, disse na audiência o senador democrata Richard Blumenthal, presidente do Subcomitê de Proteção ao Consumidor. “O Facebook nos pediu para confiarmos nele. Mas depois dessas dessas revelações, por que deveríamos?”. Blumenthal também afirmou que seu gabinete criou uma conta no Instagram com identificação de uma menina de 13 anos para entender como funciona a plataforma para essa faixa etária. 

Outro senador democrata, Ed Markey, chegou a comparar o Facebook à indústria de cigarros. “O Instagram é aquele cigarro da primeira infância destinado a deixar os adolescentes viciados cedo, explorando a pressão dos colegas de popularidade e, em última análise, colocando em risco sua saúde”, afirmou. “O Facebook é como a Big Tobacco, divulgam um produto que eles sabem que é prejudicial à saúde dos jovens”.

Já Marsha Blackburn, senadora republicana, descreveu o conteúdo dos documentos revelados pelo Wall Street Journal como “uma tempestade perfeita se manifestando nas mentes dos adolescentes na forma de intensa pressão social, vício, problemas de imagem corporal, distúrbios alimentares, ansiedade, depressão e pensamentos suicidas”.

Os senadores também levantaram a necessidade da modernização da legislação americana que rege os sites que coletam dados sobre crianças – a chamada Lei de Proteção à Privacidade da Criança na Internet, de 1998. 

Seguindo o discurso que a rede social vem adotando nas últimas semanas, as respostas da diretora de segurança do Facebook bateram na tecla de que os documentos internos revelados pelo Wall Street Journal foram mal-interpretados. Ela afirmou que as pesquisas sobre saúde mental de adolescentes no Instagram “não são bombásticas” e que os estudos tiveram limitações, como tamanho das amostras – portanto, não poderia ser comprovada a causalidade entre a plataforma e os efeitos causados nos jovens. 

Questionada sobre transparência, Antigone Davis se comprometeu a divulgar mais descobertas internas e disse que o Facebook está buscando maneiras de incentivar estudos externos, oferecendo a pesquisadores acesso aos dados da plataforma. Além disso, ela afirmou que o Facebook tem feito “inúmeras mudanças nos produtos” a partir de pesquisas internas, como uso de inteligência artificial para identificar conteúdos nocivos e ferramentas de controle de tempo nas redes sociais. A decisão da empresa de suspender o projeto do Instagram Kids, versão do app para crianças, também foi relembrada no depoimento.  

A executiva usou sua última fala na audiência para reforçar a necessidade de outras plataformas participarem do debate, como TikTok e YouTube – senadores disseram que também estão olhando para esses serviços. Ela esclareceu que o Facebook não tomará medidas legais contra a pessoa que trouxe os documentos da empresa à tona. 

Na defensiva

Os argumentos de Antigone Davis foram pautados em documentos publicados pela empresa na noite desta quinta-feira, 29. Acrescentando uma série de anotações e ponderações, a rede social tornou públicos dois estudos internos sobre saúde mental no Instagram. Além de exaltar os pontos positivos das pesquisas, a companhia relativizou a importância de algumas descobertas que mostram danos causados pela plataforma – em alguns momentos, o Facebook questiona inclusive o trabalho de seus próprios pesquisadores. 

Ao todo, o Wall Street Journal baseou as reportagens em seis documentos com pesquisas internas que teriam sido realizadas pela empresa. Alguns deles revelam que o objetivo dos estudos era justamente entender problemas de saúde mental no Instagram.  

Uma das pesquisas se dedica especificamente a entender o impacto do Instagram na vida de usuárias menores de idade. Na publicação, direcionada a funcionários da empresa, as descobertas sobre o comportamento de meninas segue o seguinte texto: “Nós conduzimos (a pesquisa) com grupos focados e um estudo diário nos Estados Unidos para entender melhor a experiência de meninas adolescentes com a sua imagem e com comparações nas redes sociais e como isso impacta sua imagem corporal e a saúde mental como um todo”. 

Nesse estudo, o Facebook teria chegado à conclusão de que padrões corporais, condições da pele e moda são as principais categorias de comparação entre as meninas e que essa atitude segue um padrão chamado pela empresa de “imitação do ciclo do luto”. Segundo a pesquisa, existe um comportamento emocional que varia de inveja ao “autodiagnóstico” de dismorfia corporal por essas usuárias. 

Além disso, o estudo também identificou que a comparação social entre usuárias é ainda maior no Instagram do que em outras redes sociais — e que publicações de amigas e pessoas próximas têm um impacto negativo maior do que posts de celebridades, por exemplo. Essa pesquisa ainda não foi tornada pública pelo Facebook.

Já outro estudo obtido pelo jornal americano, relativo a uma pesquisa geral com adolescentes publicada em outubro de 2019, mostra que 82% dos jovens tinham sentido algum tipo de dano emocional no mês anterior. Além disso, 20% dos adolescentes entrevistados no Reino Unido admitiram já terem pensado em suicídio ou automutilação. 

O estudo também mostra que adolescentes culparam o Instagram por aumentar a taxa de depressão e ansiedade entre os jovens, em um tópico da pesquisa onde puderam responder sobre os fatores que os faziam perder o bem-estar na plataforma. A publicação destaca que essa reação foi frequente em todos os grupos de pesquisa e que a relação de comparação faz com que o Instagram seja ainda pior que outras redes sociais nesse quesito. Em nota em seu blog nesta quarta, 29, o Facebook afirmou que, embora os slides não deixassem claro, os dados eram referentes apenas a jovens que já eram identificados com “baixa auto-estima”. 

“Adolescentes mais insatisfeitos com a vida são mais suscetíveis a dizer que o Instagram piora sua saúde mental ou a maneira como eles se sentem sobre si mesmos”, explicou a empresa em um comentário adicionado no documento.

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