Respeite as pessoas que te entretém: Consumir arte asiática não absolve racismo

Popularização de Round 6, k-pop e outros artigos da cultura pop asiática trazem à tona discursos inaceitáveis
CAIO COLETTI

Cena de Round 6, da Netflix (Reprodução)

Jogue as palavras chave certas na barra de pesquisa do Twitter, e você vai achar uma sequência aparentemente inesgotável de pessoas fazendo a mesma piada, com mínimas variações: elas assistiram a Round 6, a série coreana que não sai do topo da lista de mais vistas da Netflix desde o último dia 17 de setembro, e até curtiram a trama, mas chegaram no final sem conseguir identificar quem era quem entre os personagens – afinal, “esse povo”, “esses chineses”, “esses japoneses” (repetindo: a série é coreana) são “todos iguais”.

Na verdade, é mais provável que você nem precise fazer uma pesquisa para topar com esse tipo de discurso. Nas últimas duas semanas, ele deve ter aparecido sem avisar na sua timeline – e, se não foi essa piada ubíqua sobre a fisionomia dos atores de Round 6, talvez tenha sido outra, aquela que reclama que os nomes dos personagens, tipicamente compostos e separados por hífens (como é comum na Coreia), têm “todos a mesma sonoridade”. O subtexto é o mesmo: é impossível diferenciar um asiático do outro.

A essa altura do campeonato, chega a ser repetitivo explicar por que essas ideias são racistas e xenofóbicas, preconceitos que se misturam de maneira quase indissociável quando o assunto é cultura asiática e sua recepção aqui no Ocidente, mas parece que a repetição é necessária. Ter consciência desse racismo e dessa xenofobia como fatos, da forma como eles funcionam, é possível e necessário também (ou principalmente) para pessoas brancas – e é assim que eu, uma pessoa branca, tentarei explicá-los aqui.

OS PINGOS NOS I’S

Essas ideias são, antes de qualquer coisa, racistas porque aglutinam indivíduos com histórias, ideias, virtudes e defeitos distintos em uma declaração categórica de que são “todos iguais” – mesmo que você esteja falando só da aparência. Nós, como humanos, entendemos a nossa aparência como significadora, expressão social, de quem somos.

Para muito além dos efeitos imediatos (relevantes) que esse discurso pode ter na autoestima de pessoas de ascendência asiática, especialmente quando ele é amplificado por ser sobre a série de TV mais popular do momento, a perpetuação dessas ideias tem efeito devastador em uma dimensão histórica, reiterando que somente o branco é reconhecível, individual, único, e portanto valioso.

Por outro lado, essas ideias são xenofóbicas porque, por exemplo, não fazem distinção entre nacionalidades diferentes dentro da Ásia. A Coreia do Sul, o Japão e a China, para citar os três maiores exportadores de cultura pop para o Ocidente (embora arte tailandesa, filipina e taiwanesa também tenham seu espaço), têm histórias gigantescamente contrastantes, que influenciam de maneira decisiva os artefatos culturais que produzem e que chegam por aqui.

CONTEXTO É TUDO

Alice in Borderland, outro sucesso da Netflix, é (esse sim!) um dorama (Reprodução)

Daí a importância de detalhes como a distinção entre dorama e k-drama, por exemplo. O primeiro termo, usado por alguns como guarda-chuva para todas as produções de TV asiáticas, na verdade se aplica somente a séries feitas no Japão. O segundo, por vezes encurtado simplesmente para drama, é o apropriado para produções sul-coreanas, como Round 6.

Pode parecer uma diferenciação trivial, mas entender o contexto da cultura pop que consumimos está longe disso. De fato, é o que fazemos o tempo todo com a cultura pop dos EUA e de outros países culturalmente hegemônicos (leia-se: ocidentais) – ou você vai me dizer que sabia a diferença entre conceitos como reboot e revival antes de sua série favorita ser ressuscitada para uma das duas coisas? Nosso léxico cultural está cheio de termos popularizados por Hollywood, de thriller a western, então por que não aprender a diferença entre dorama e drama também?

Uma das funções mais importantes do entretenimento em nossas vidas é justamente enriquecer nosso conhecimento sobre culturas e perspectivas diferentes, aumentar o nosso vocabulário cultural. É por isso que o crítico Roger Ebert dizia que o cinema era uma “máquina de empatia”, definição aplicável a qualquer outra arte – e negar empatia a uns enquanto concedemos a outros é talvez a definição mais pura de preconceito.

ORIENTALISMO

O BTS, maior grupo pop (k ou não) do planeta (Reprodução)

A reprodução desse preconceito, no caso da cultura pop asiática, vem da raiz do orientalismo, termo que define a concepção das culturas do Oriente através de uma perspectiva que não as centraliza, ao invés disso tentando entendê-las a partir dos nossos pontos de referência, que são estereótipos construídos em bases racistas de séculos (ou décadas, ou anos) atrás. É como se essas culturas existissem somente a partir de nossas lentes, quando na verdade a sua chegada por aqui é apenas consequência da globalização, e elas são produzidas dentro da lógica, do contexto, de seus próprios países.

Era por isso, por essa herança do orientalismo, que muita gente dispensava toda a produção televisiva asiática (dramas e doramas em igual proporção) como “novelinhas bobas” ou de dramaturgia inferior; é por isso que muita gente ainda entende o k-pop não como a indústria de produção musical absurdamente diversa e rica que é, mas como uma linha de produção de “besteiras adolescentes” – avaliação por si só míope do pouco de k-pop que chega ao mainstream ocidental.

Round 6, como algumas obras antes dela, conseguiu furar essa bolha – mas a sua ascensão para o topo do discurso cultural ocidental também fez com que muitas ideias inaceitáveis, que sempre estiveram borbulhando perto da superfície, viessem inteiramente à tona. Muita gente sem dúvida vai se abrir para a excelência da cultura pop asiática por causa desse k-drama específico, mas vale lembrar que consumir os produtos de uma cultura não absolve ninguém da responsabilidade de respeitá-la.

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