Após mais de um ano fechadas, boates de Berlim voltam com tudo

Por conta da pandemia do coronavírus, muitas casas noturnas ficaram fechados ou tiveram que se reorganizar para não falir, mas agora elas estão de portas abertas
Bryn Stole, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Público em fila na frente do KitKatClub na noite de reabertura da casa noturna em Berlim. Foto: Felix Bruggemann/The New York Times

BERLIM – As batidas estavam bombando dentro da boate Salon zur wilden Renate muito depois do amanhecer. Com centenas de frequentadores eufóricos e sem máscara amontoados na pista de dança, o único distanciamento social era criado em bolsões temporários pelo movimento rítmico da multidão. Depois de 18 meses de inatividade, o famoso clube hedonista de Berlim reabriu recentemente pela primeira vez desde o início da pandemia.

Não foi assim que a cidade havia planejado. No início do verão no hemisfério norte, o governo de Berlim financiou um estudo para avaliar se os testes de PCR de alta precisão poderiam manter os frequentadores das casas noturnas em segurança. O estudo envolveu cerca de duas mil pessoas, que puderam ir a seis casas noturnas ao longo de um fim de semana.

Mas, antes que os resultados fossem oficialmente divulgados, um tribunal local decidiu a favor de uma discoteca que havia recorrido da proibição da cidade de dançar em espaços fechados, praticamente forçando o Senado de Berlim a permitir a reabertura das casas noturnas. Aqueles que estejam totalmente vacinados ou que possam comprovar que se recuperaram da Covid-19 nos últimos seis meses podem entrar. O teste não é necessário para a entrada.PUBLICIDADE

Os cientistas alertaram que casas noturnas cheias de dançarinos suando e gritando por horas a fio são ambientes ideais para o coronavírus se espalhar. Alguns dos primeiros surtos documentados em Berlim em 2020 estavam relacionados a algumas boates da cidade. Mas, pelo menos por enquanto, a festa foi oficialmente retomada.

De volta às festas

As regras em torno da reabertura das casas noturnas europeias variam e continuam a mudar. A Itália e a França permitiram que as casas abrissem as portas aos vacinados. Até o fim de setembro, o Reino Unido estava para exigir que os frequentadores estejam vacinados.

Na Holanda, as casas noturnas foram brevemente autorizadas a abrir em junho, antes que um aumento no número de casos em todo o país – incluindo cerca de mil casos ligados a um evento de música eletrônica – levasse a um novo lockdown. Em partes da Espanha, as casas noturnas também foram abertas e, em seguida, fechadas.

Em Berlim, as filas do lado de fora de várias boates se estendiam pelo quarteirão e dobravam as esquinas. A espera para chegar até a entrada às vezes durava horas. “É como esperar na fila para andar de montanha-russa”, disse Joe Friedrich, de 21 anos, que viera da região de Hamburgo para comemorar seu aniversário, enquanto esperava com amigos na fila do lado de fora do Salon zur wilden Renate.

Em frente ao KitKatClub, local de fetiche e dança, uma barraca de doner kebab bem posicionada no meio da fila faturava vendendo bebidas para pessoas vestidas com couro, látex e malha. “É quase surreal. Eu me sinto como uma adolescente de novo, como se estivesse saindo pela primeira vez, sem saber o que esperar! As pessoas vão ser legais? Estou com a roupa certa? Tudo ficou parado por um ano e meio, por isso estamos tão prontos para festejar!” comentou Sanne van ‘t Walderveen, de 40 anos, que tinha vindo de Amsterdã com o namorado.

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A barraquinha de doner kebab fatura com o público em fila na frente do KitKatClub. Foto: Felix Bruggemann/The New York Times

No fim de cada fila, é claro, estavam os seguranças exigentes, notoriamente meticulosos e seletivos nos pontos mais procurados de Berlim. Mesmo depois de enfrentar a espera, muitas pessoas (incluindo este repórter) se viram barradas com um “desculpe”, um “não esta noite” ou um simples aceno de cabeça.

Muitas outras casas noturnas de Berlim – incluindo a icônica Berghain, localizada em uma extinta estação de energia da Alemanha Oriental – permanecem fechadas por enquanto. Algumas começaram a fazer reformas e ainda estão em obras, dificultando uma abertura abrupta. Outras não conseguiram encontrar DJs e funcionários no último minuto.

Também há preocupação na cena das casas noturnas em relação a quanto tempo a festa vai durar. Os casos estão aumentando em Berlim, à medida que a variante delta se espalha pela Alemanha, levando muitos a acreditar que as autoridades poderão fazer a música parar bruscamente. Isso deixaria os proprietários ainda mais endividados, depois de esforços dispendiosos para retomar as atividades.

Ao longo do último ano, as casas noturnas tentaram se reinventar, transformando pistas de dança fechadas em galerias e espaços de exposição. As instituições com espaços ao ar livre reabriram como cervejaria ou realizaram festas ao ar livre relativamente restritas – muitas vezes, com máscara, regras de distanciamento e assentos ou espaços designados – em vários momentos durante a pandemia. Diversas casas noturnas também se transformaram em centros de testagem para a Covid-19, usando bartenders e seguranças para colher as amostras.

Mas a sobrevivência da cena noturna de Berlim – que ganhou fama internacional na selvagem e descontraída década de 1990 em meio à liberdade, ao caos e à agitação depois da queda do Muro de Berlim – é importante para a cidade. Embora muitas casas noturnas locais sejam negócios com margem de lucro relativamente baixa, o setor atraiu cerca de três milhões de turistas para a cidade em 2018, injetando um bilhão e meio de euros na economia local, de acordo com a Comissão dos Clubes de Berlim, grupo comercial que representa o setor.

Seja por causa do respeito crescente por seu poderio econômico ou de seu lugar da cultura das casas noturnas na identidade da metrópole, a cena que já foi underground se tornou uma presença cada vez maior na política local. A Berghain ganhou reconhecimento legal oficial como um estabelecimentio cultural em 2016, o mesmo status desfrutado por museus, casas de ópera e outras instituições, o que traz incentivos fiscais e uma possível redução nas restrições de zoneamento e de ruído. Em maio, depois de uma longa campanha de lobby, os legisladores de Berlim votaram para estender essa designação à maioria das casas noturnas da cidade.

O apoio financeiro substancial dado pelo governo alemão deu fôlego às casas noturnas durante a pandemia (embora muitos proprietários tenham se queixado das disparidades nos subsídios). Os frequentadores mais fiéis também contribuíram com doações; algumas casas famosas, como a Watergate, arrecadaram mais de cem mil euros. Muitas boates também fizeram empréstimos.

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Uma fila para o Salon zur wilden Renate, um techno-clube na primeira noite em que os clubes reabriram em Berlim. Foto: Felix Bruggemann/The New York Times

Um possível plano B

No início de agosto, seis casas noturnas de Berlim embarcaram em um projeto piloto financiado pelo governo para ver se os testes de PCR de resposta rápida poderiam evitar que pessoas infectadas entrassem nas casas noturnas, oferecendo um caminho seguro para a reabertura. Os médicos do Charité, o famoso hospital universitário e de pesquisa de Berlim, concordaram em analisar os resultados. Dois mil frequentadores de casas noturnas compraram ingressos e correram para ser testados horas antes de entrar na pista de dança.

Uma rodada inicial de testes detectou sete infecções, enviando os aspirantes a dançarinos para o isolamento, e não para as boates. Todos os outros foram autorizados a se divertir nos locais combinados por duas noites seguidas e foram instruídos a comparecer cinco dias depois para realizar um teste de acompanhamento.

Esse estudo não foi revisado por pares, nem foi um ensaio clínico desenvolvido cientificamente, mas os resultados foram mais encorajadores do que a maioria esperava: nem uma única nova infecção foi descoberta entre cerca de 75% dos participantes que voltaram para a segunda rodada de testes.

O governo local de Berlim forneceu de bom grado os cerca de 40 mil euros necessários para cobrir os custos dos testes de PCR para o experimento, de acordo com Klaus Lederer, político do partido de esquerda Die Linke e atual ministro da cultura de Berlim, porque “a cultura das casas noturnas é uma parte da cultura de Berlim”. Falando com repórteres amontoados na entrada da boate Metropol para se proteger de uma chuva torrencial na primeira noite do projeto piloto, Lederer também observou que manter vivos as boates que estavam de portas fechadas custava caro aos contribuintes.

Frank Heppner, professor e pesquisador da Charité, que estava com Lederer, disse que os testes de PCR foram necessários para o estudo, porque os testes rápidos de antígeno “vazam e não são ideais”. “Você tem de usar a melhor e mais sensível ferramenta para filtrar possíveis casos positivos”.

O projeto piloto se baseou em outras experiências recentes na Alemanha, incluindo protocolos de teste em salas de concertos eruditos em Berlim, no início do ano, e um festival de música eletrônica promovido nos arredores da cidade durante o verão. “Depois desse longo período de bloqueio, sabemos que também precisamos levar em conta os graves efeitos colaterais na sociedade. Não podemos nos concentrar só no vírus e nas consequências diretas. Também precisamos considerar as consequências indiretas no âmbito social, no psicológico e no econômico”, acrescentou Heppner.

Por enquanto, o estudo das casas noturnas foi deixado de lado devido à reabertura forçada. Mas Lutz Leichsenring, porta-voz da Comissão dos Clubes, declarou que a estratégia de teste de PCR continua sendo uma opção melhor do que novas paralisações ou restrições mais rígidas, se as infecções aumentarem ao longo do segundo semestre.

As casas noturnas de Berlim contrataram laboratórios parceiros em agosto para oferecer testes PCR especiais de 15 euros – valor elevado numa cidade em que o preço da entrada raramente chega aos 20 euros, mas com resultados garantidos em quatro horas. “Outro lockdown seria o pior cenário, que acabaria com muitos empregos. Mas o estudo de testes de PCR de resposta rápida pode levar a alternativas para que possamos ao menos ter certeza de que as pessoas que vão às boates estão seguras”, afirmou Leichsenring.

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