Modelos contam perrengues de fotografar no Jardim Europa

Fachadas de mansões em SP viram cenário para campanhas de lojas
LEONARDO VOLPATO

A modelo Thais Cardoso, 35, usa seu carro como armário para fotografar em frente às mansões do Jardim Europa, em Sao Paulo Zanone Fraissat/Folhapress

O relógio marca 2h30 da manhã. Todos os dias, neste horário, a modelo plus size Andréia Cerqueira de Camargo, 38, se levanta e corre para as regiões do Brás e Bom Retiro, no centro de São Paulo. É lá que ela faz contato com lojistas e sai carregando 40, 70, 90 peças de roupas que serão fotografadas em seu corpo ao amanhecer.

Essa rotina, que a acompanha há dois anos, representa também o cotidiano de outras dezenas de modelos, que diariamente vão ao Jardim Europa, bairro nobre da zona oeste, para fotografar. Com imponentes mansões e casarões de belas fachadas, o local se mostrou ideal para o cenário das fotos, usadas pelas lojas populares em banners e sites e também disparadas para grupos em aplicativos como o WhatsApp. .

“Nós trabalhamos muito, mal durmo. Os clientes às vezes precisam das fotos de um dia para o outro. O Brás trabalha assim, a cada semana tem coleção nova e é preciso mostrar [as roupas] ao grande público”, conta Andréia.

Toda a parte burocrática, que envolve negociação de valores, fotografia e edição das imagens, é resolvida pela própria modelo. Formada em comércio exterior, Andréia encontrou nessa atividade seu melhor ganho financeiro até hoje.

A trajetória da modelo Paloma Sanchez, 29, é semelhante. Ela era lojista e comprava por atacado no Brás, mas viu a carreira tomar um rumo diferente dois anos atrás, quando outros lojistas a convidaram para fotografar suas peças. E a escolha do Jardim Europa como cenário, ela diz, se deve também a uma questão de segurança.

“Nos Jardins dá um cenário mais bonito, clean, com calçadas claras que beneficiam a fotografia, os looks aparecem mais. E também pela segurança dos equipamentos, pois é uma região com muitas cabines com vigias”, diz ela.

Mas quem fotografa na rua está sujeito a contratempos e perrengues. “Se começa a chover, preciso correr para dentro do carro. E quando eu quero fazer xixi, uso a própria barraquinha que armo para me vestir e um saquinho plástico”, conta Paloma.

A modelo Leticia Longati, 22, também frequenta as ruas do bairro há cerca de dois anos, sete dias por semana, para fazer fotos para campanhas e redes sociais. “Em média eu troco de roupas umas 40 vezes por dia na rua”, diz ela, que usa uma barraca que monta na traseira de seu carro para isso. Além do Jardim Europa, ela conta que já fotografou na rua Oscar Freire, pero dali, e no Jardim Anália Franco, na zona leste.

“Meu porta-malas vive cheio de roupas. Para ir ao banheiro, vou a um posto. Acabo perdendo tempo, tem trânsito. Já para comer é na rua mesmo ou por meio de aplicativos de comida. Mas confesso que, com a correria, muitos dias só vou me alimentar em casa.”

O fotógrafo Denis Carvalho e a modelo Paloma Sanchez fazem ensaio de moda no Jardim Europa – Rubens Cavallari/Folhapress

A rotina da modelo Thais Cardoso, 35, também é puxada. Ela conta que, desde 2019, costuma acordar às 5h30 para ter tempo de se produzir para os ensaios, que faz em frente às mansões dos Jardins. Antes disso, fotografava nas ruas de Santana, na zona norte. “Tomo banho, lavo o cabelo, coloco aplique, colo cílios, faço maquiagem. Saio de casa às 7h. Me encontro nos Jardins com o fotógrafo. Combinamos numa rua, tipo a Suécia, com casa bonita e portão branco. Se já tiver modelo [no lugar], então eu procuro outros locais.”

Thais conta que fica na rua até o sol ir embora e já chegou a fazer 100 trocas de roupa por dia. Mas admite que, quando são muitas peças, prefere fechar a locação de uma casa. Antes bancária, ela diz que conseguiu ver na nova profissão uma chance de ajudar a mãe, que está doente.

“Hoje eu ganho mais do que no antigo emprego e consigo ter mais flexibilidade, autonomia para ser dona de mim. Meu carro tem vidros escuros, me troco ali dentro, tem ar-condicionado para matar o calor.”

A modelo Simone Pizoni, 34, conhecida como Sisi, conta que há 16 anos faz campanhas para lojas de todo o Brás e também de Minas Gerais. “É quase de domingo a domingo. Todo santo dia estou fazendo fotos, gravando para as redes sociais. Dá uma grana legal. Paguei faculdade, inglês, meu casamento e reformei a casa”, comemora.

Requisitada por muitas marcas de lingerie e moda praia, Simone diz que, nesses casos, prefere fechar parcerias com hotéis que tenham piscina, para mostrar as peças com mais tranquilidade. Porém, segundo ela, nem tudo são flores.

“Se está chovendo, o cliente quer que você arrume um jeito de fazer a foto. Chego a dormir só duas horas por noite para poder me manter bonita, maquiada e produzida. Trabalho o dia todo”, afirma. “Todo mundo pensa que a minha vida é de estrela, mas ninguém imagina que eu tenho que buscar as roupas. E às vezes faço selfie na piscina, mas nem na piscina eu posso entrar.”

ASSÉDIO, DISCUSSÃO E CARA FEIA

Os olhares atravessados, o assédio e as discussões com a vizinhança são, definitivamente, os maiores problemas pelos quais passam as dezenas de modelos que diariamente disputam cada pedaço das calçadas do Jardim Europa para fotografar.

De acordo com a modelo Andréia Cerqueira de Camargo, muita gente na região já “perdeu a simpatia”. “Alguns moradores nos deixam fazer as fotos, mas a maioria passa filmando, anotando placa de carro, já até jogaram água. E não é errado usar a via pública. Nós não marcamos o número das casas [nas fotos], nem o endereço”, diz ela.

Leticia Longati, por sua vez, diz entender que os donos das casas se sintam frustrados, mas afirma que “educação gera educação”. Ela diz que, sempre que é solicitado que deixe o local, o faz rapidamente e sem reclamar.

O assédio é outro problema comum. “A gente que trabalha como modelo é muito julgada como garota de programa. Os homens passam na rua e temos de aguentar muitas asneiras, e as mulheres olham feio. Já saio de casa sabendo que vão mexer comigo”, diz Leticia.

Acostumada a frequentar o bairro pelo menos três vezes na semana, Thais Cardoso conta que uma vez viu baixar até polícia no local depois de uma moradora começar a filmar uma modelo. Mas depois tudo foi resolvido na base da conversa.

“Em outra ocasião eu estava fotografando de saia e passou um rapaz com um cachorro. Ele fingiu que estava tirando foto do animal, mas quis filmar embaixo da minha roupa”, recorda.

Justamente por causa desse desgaste com os moradores do Jardim Europa que a modelo Simone Pizoni resolveu deixar um pouco a região para fotografar em frente a estabelecimentos do Tatuapé e casarões do Anália Franco, ambos na zona leste, onde mora.

A modelo Simone Pizoni, 34, em ensaio perto de casarão no Anália Franco
A modelo Simone Pizoni, 34, em ensaio perto de casarão no Anália Franco – Divulgação

Mas onde quer que vá encontra dificuldades. “Já aconteceu de a dona de um estabelecimento querer chamar a polícia no Anália. Isso tira a gente do sério. A modelo sempre vai trabalhar pisando em ovos”, lamenta ela, que tira fotos ao ar livre desde 2016.

Não bastasse tudo isso, as modelos ainda presenciam acidentes. “Já vi um motoboy e um carro baterem por olharem para mim. Fiquei com dó”, diz Thais.

SONHO DA EMPRESA PRÓPRIA

Cientes de que talvez a rotina puxada de carregar o carro com dezenas de peças de roupas e partir para a calçada de mansões para trabalhar não dure para sempre, as modelos sonham com a possibilidade de, futuramente, abrir um negócio próprio.

“A beleza não dura para a eternidade. Daqui dez anos talvez eu já tenha filhos ou não tenha o mesmo corpo. Temos de ter um plano B. Já comecei a galgar esse plano”, revela Leticia Longati.

Ela conta que nunca foi de gastar muito e que, por isso, já tem cuidado de sua independência financeira. Também diz fazer contatos para futuras parcerias. “É o caminho que eu vou seguir. Eu mesma vou poder modelar para a minha própria grife.”

Ideia semelhante tem a modelo Thais Cardoso. “Daqui alguns anos, quero ter a minha marca, abrir um comércio e ter a minha própria grife. As vendas online têm crescido muito. Mas, por enquanto, faço trabalho de formiguinha.”

Quem está avançada nesse sonho é a modelo Paloma Sanchez. Empresária, ela conta que hoje tem o suporte de quatro funcionários, que a auxiliam nas parcerias com marcas.

“Minha equipe me ajuda a recolher e devolver os looks e conto com uma menina na administração dos orçamentos das campanhas. Nunca fiz nenhuma faculdade, tudo o que sei sobre marketing digital e empreendedorismo foi na raça, todos os dias.”

A modelo Paloma Sanchez troca par de brincos dentro do carro no Jardins – Rubens Cavallari/Folhapress

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