A herança de Steve Jobs

Lançada em 2008, App Store permitiu que a empresa avançasse em serviços, mas modelo também pode ser casca de banana no futuro da empresa
Guilherme Guerra

Hoje em dia, é fácil olhar para o smartphone em suas mãos e considerá-lo  o maior legado de Steve Jobs, fundador da Applee pai do iPhone, que morreu em 5 de outubro de 2011. Passados 10 anos de sua morte, porém, fica claro que o que ele deixou para o mundo da tecnologia vai além: uma das maiores heranças do executivo está na App Store, loja de aplicativos lançada em  2008. O que parecia ser um pequeno diferencial do iPhone se provou um duradouro, inovador e, principalmente, rentável modelo de negócio – com a atual guinada da Apple em direção ao mundo dos serviços, a jogada fica ainda mais clara.

Quando foi lançado em 2007, o iPhone trazia somente aplicativos nativos criados pela Apple: e-mail, navegador, lembretes, calculadora, tempo, tocador de música, entre outros. Era o que a empresa entendia como um sistema totalmente fechado, no qual a empresa teria total controle. Apesar de muita relutância de Jobs, a companhia abriu as suas portas para desenvolvedores com a App Store no ano seguinte. Isso permitiu que desenvolvedores publicassem e vendessem seus apps, o que abriu um leque de possibilidades e recursos para os usuários – a câmera do iPhone só passou a gravar vídeos depois que apps de terceiros passaram a oferecer o recurso.

No começo, aplicativos bastante inúteis e até ingênuos foram criados, sem intuito algum além de divertir. À época, era bastante popular o iBeer, que simulava um copo de cerveja sendo esvaziado, conforme o usuário mexia o smartphone.

Mas a App Store foi o palco para que surgissem serviços milionários inéditos, como o Uber, iFood e o Instagram (que vieram primeiro para o “mobile”, algo novo em um mundo dominado por computadores). Isso possibilitou também o nascimento de jogos de sucesso, sendo a franquia Angry Birds um dos maiores nomes a ter surgido na plataforma, expandindo um mercado amarrado a PCs e consoles, como PlayStation.

“Sem essa loja, o iPhone não seria o que é hoje”, observa Yara Mascarenhas, presidente executiva do evento The Developer’s Conference. Além disso, essas plataformas de aplicativos permitiram que o “nerd da garagem” pudesse ser um empresário com muito menos recursos que antes, alcançando um número maior de pessoas. “Ela transforma o desenvolvedor numa pessoa de negócio, quando antes essas duas áreas não se misturavam.”

Mesmo não sendo a primeira loja de apps, o modelo da App Store acabou replicado por outras gigantes. O Google(no rival Android), a Microsoft, a Amazon e o Facebook são alguns dos nomes que têm lojas próprias, por onde atraem e incentivam desenvolvedores a criar aplicações para expandir suas plataformas. Em todas elas, há regras de publicação, de forma a atender um padrão mínimo de qualidade para o consumidor – algo criado por Jobs para uniformizar a experiência do usuário.

“Sem a App Store, o iPhone não seria o que é hoje”Yara Mascarenhaspresidente executiva do evento The Developer’s Conference

A ausência de uma loja de apps forte, com diversidade de programas, é considerada uma das principais razões para o fracasso de plataformas móveis, como o Windows Phone, o Symbian e o BlackBerry OS. No fim, esses fracassos tiraram do mercado fabricantes tradicionais de celulares, como Nokia e BlackBerry, e definiram o mercado atual de smartphones e tablets.

Por outro lado, o sucesso do modelo de negócio força as companhias que restaram a investir pesado na criação de serviços, já que é uma forma de gerar receita muito mais estável no longo prazo. A própria Apple é um exemplo. Enquanto o ciclo de vida do iPhone fica cada vez maior para trocas de aparelho (pode chegar a até quatro anos em alguns casos), a companhia oferece assinaturas mensais de streaming de música, de filmes e séries, de jogos, de exercícios e de armazenamento na nuvem, como forma de continuar gerando receita com um usuário que tem comprado dispositivos com menos frequência.

Os números atestam a estratégia: a receita de serviços da Apple foi de US$ 53,8 bilhões no ano fiscal de 2020. Em 2011, era de US$ 2,95 bilhões.

A FACA DE DOIS GUMES

Apesar da semente plantada, Steve Jobs não viu o florescer da divisão de serviços.  Foi Tim Cook, escolhido a dedo para ser o presidente executivo da companhia, que concentrou as energias da Apple no setor. Definir o próprio sucessor foi também uma forma que Jobs encontrou para se manter vivo dentro da Apple.

Em 2011, quando assumiu o posto de CEO após carta de renúncia de Jobs a quase 2 meses antes de morrer, era comum ouvir que a Apple não duraria cinco anos sem o seu fundador. No entanto, de lá para cá, a companhia está perto de atingir avaliação de mercado de US$ 2,5 trilhões, feito até então inédito no meio financeiro. Em outras palavras, investidores consideram que a empresa vai muito bem, obrigado.

Para Dan Ives, da consultoria americana Wedbush, esse sucesso se deve à continuidade da filosofia de Jobs. “Inovar, monetizar e crescer a base instalada em torno do iPhone é a coroa da jóia da Apple e do legado de Tim Cook”, aponta o analista.

Escolhido a dedo por Steve Jobs, Tim Cook turbinou a Apple em serviços BECK DIEFENBACH/REUTERS

O equilíbrio encontrado pelo sucessor foi ampliar a venda de seu principal produto (o smartphone), mas também encontrar maneiras de imaginar um ecossistema em torno dos dispositivos, o tal do “jardim murado”.

Mas, se a App Store é um dos pilares do arcabouço financeiro da Apple, é também ela quem pode ser a maior dor de cabeça da empresa. Ao morder 30% de toda a receita gerada por aplicativos na plataforma, a Apple foi alvo de críticas de desenvolvedores cada vez mais insatisfeitos com o que consideram ser abuso de poder. A briga judicial com a Epic Games, estúdio do Fortnite, é um exemplo, incentivando que fosse movido um processo similar pela União Europeia, ambos em 2021.

Esse pode ser o início da entrada da Apple no “techlash”, acrônimo em inglês que, em tradução livre, é algo como “repercussão negativa à tecnologia”. Nos últimos anos, o fenômeno tem afetado a imagem de diversas companhias, sendo a crise política do Facebook o maior exemplo. Até este ano, a Apple passava praticamente ilesa por esse cenário, mantendo a fama de que a companhia consegue contornar crises sem prejudicar a própria imagem.

“Se a Apple quiser continuar relevante na próxima década, ela vai precisar entrar nos debates”Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio)

“Enquanto outras empresas de tecnologia tornaram-se as vilãs na opinião pública na última década, a Apple de Tim Cook passou debaixo do radar”, observa Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio).

Mas pode “pegar mal” continuar pregando distância enquanto governos e consumidores levantam suspeitas sobre modelos de negócio considerados anticompetitivos ou monopolistas. “Se a Apple quiser continuar relevante na próxima década, ela vai precisar entrar nos debates. A ideia de ficar de fora do ringue é cada vez mais difícil”, diz Souza.

Ao contrário da gestão temperamental e combativa de Jobs, porém, Cook parece muito mais aberto ao debate – e a fazer modificações que deem sobrevida ao ecossistema bilionário da Apple. Para investidores, parece um bom negócio. Para os consumidores, no entanto, isso nem sempre pode ser suficiente. E, certamente, é uma herança que nem mesmo o maior visionário da Apple poderia prever para a empresa.


Os 5 maiores sucessos de Steve Jobs


● iPhone
Principal produto da empresa desde 2007, inaugurou o segmento de smartphones e trouxe o salto tecnológico da tela multitoque e conexão à internet em um dispositivo móvel — primeiro no Wi-Fi e, a partir de 2008, nas redes móveis, com o iPhone 3G.

● iPod
O tocador de música portátil trazia, no primeiro modelo, a possibilidade de inserir até mil músicas — um salto sem precedentes no mercado. O bichinho acabou virando ícone da cultura pop — de quebra, abriu a possibilidade de comercializar músicas e álbuns digitalmente, tirando um pouco a música digital da pirataria.

● iMac
Continuação do Macintosh, de 1984, o iMac G3, de 1998, é o produto que deu certo. Além do design com transparências, um símbolo de beleza do final dos anos 1990, ele trazia interface gráfica mais refinada do que sistemas operacionais anteriores. O produto, enfim, representava a volta de Jobs à Apple, após 11 anos.

● App Store
A loja de aplicativos da Apple surgiu em 2008, um ano após o iPhone. O objetivo era permitir que desenvolvedores se juntassem ao ecossistema do smartphone. Sem ela, Uber, Instagram e Angry Birds não teriam surgido. Apesar de Jobs relutar contra apps de terceiros em seus dispositivos, ele abraçou o modelo, que depois foi replicado por quase toda indústria da tecnologia.

● iPad
Em 2010, o tablet da Apple abriu outra categoria de produtos: os tablets, na qual a empresa é líder até hoje. A ideia vinha sendo sondada desde 2003, mas o produto ganhou força com o lançamento do iPhone e a tela multitoque, que possibilitou construir uma “tábua” (tablet) maior e com mais bateria.

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