Sucesso de ‘Round 6’ mostra a força da cultura sul-coreana, que tem no Brasil um de seus principais mercados

Pesquisa feita pela Fundação Coreana para Intercâmbio Cultural Internacional mostrou que o Brasil foi o terceiro local onde a audiência de dramas coreanos mais cresceu entre setembro e novembro de 2020
Mariana Teixeira

Elenco da série ‘Round 6’, da Netflix Foto: Divulgação

É um fenômeno que não para de crescer, reverberando nos quatro cantos do mundo. A chamada Hallyu, como é conhecida a onda cultural sul-coreana, que engloba não apenas a música, mas o cinema, a televisão, a moda, a produção de videogames e a gastronomia, vem ampliando seus domínios. Agora, ganhou um reforço e tanto com “Round 6”, lançada em 17 de setembro e que logo conquistou o posto de série da Netflix mais vista no mundo. Chamada em inglês de “Squid game”, é a produção mais popular em mais de 80 países, jogando novos holofotes sobre a produção cultural da Coreia do Sul.

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Segundo o Kofice (Korean Foundation for International Cultural Exchange, ou Fundação Coreana para Intercâmbio Cultural Internacional), a exportação de bens culturais cresceu 22,4% em 2019, batendo a casa de US$ 12,3 bilhões, num momento fértil pré-pandemia. Puxando a fila, naquele ano, estavam os games, o maior produto de exportação criativa do país, seguido pelo K-pop (em outras palavras, a música, que tem no Brasil um legião incalculável de jovens fãs).

No audiovisual, o chamado K-drama cresce a passos largos. No ano passado, por causa da pandemia, foram feitas cerca de cem dramas, divididos entre as emissoras de TV aberta do país e canais fechados. Cerca de 30 foram produzidos para plataformas on-line. Fora do ano atípico, o número total sobe, em média, para 150 K-dramas, calcula Daniela Mazur, doutoranda e pesquisadora do laboratório MidiÁsia, da UFF.

— É um consumo em cadeia. Existe um relacionamento muito íntimo dentro da indústria midiática coreana — ela explica. — Por exemplo, ídolos do K-pop se tornam atores nessas produções e aí uma coisa leva a outra. Você conhece um outro ator, se interessa, e quando se dá conta está dentro daquele universo.

Se antes os ídolos da área musical já eram trending topics do Twitter diariamente no Brasil, hoje os rostos de atores também são cada vez mais familiares ao público nacional.

Em “Round 6”, quase todo o elenco já era estelar na Coreia. Park Hae-soo, que interpreta Cho Sang-Woo, o operador do mercado financeiro, tem sido cada vez mais prestigiado na última década e está escalado para a versão sul-coreana de “Casa de papel”. Lee Jung-jae, que vive Seong Gi-hun, não ganhou o papel principal à toa. É muito reconhecido no país desde a década de 1990, com uma ampla carreira no cinema, em séries e programas de variedades. Só a modelo Jung Ho Yeon, a jogadora norte-coreana Kang Sae-byeok, era estreante e viu sua popularidade digital explodir depois da série. Antes, tinha cerca de 400 mil seguidores no Instagram. Agora, mais de 14 milhões, sendo a atriz coreana mais seguida da rede.

E os dramas coreanos só tendem a se espalhar mais.

— A Netflix chegou à Coreia do Sul em 2016. O Disney+ chegou agora e começou a produzir conteúdo. A HBO Max também. Então, temos cada vez mais agentes em jogo — diz Daniela, salientando que o serviço de streaming mais antigo prometeu, em 2021, investir US$ 500 milhões na produção local.

Formato tipo exportação
Consumir conteúdo nacional (e não só de ficção, como também realities shows, documentários etc) foi virando um hábito da população coreana desde o fim dos anos 1990, quando o país instalou um sistema de cotas na TV e no cinema (hoje está em torno de 80% na TV aberta e 50% na fechada). Segundo especialistas, isso foi essencial não somente para fortalecer o mercado consumidor interno (hoje, o coreano é o povo que mais consome cinema do próprio país, segundo o IHS Markit, cerca de 4,37 filmes per capita, enquanto o americano é 3,51), como também o externo.

E isso se reflete mundo afora, como é o caso do Brasil. Uma pesquisa do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, realizada em 18 países pela Fundação Coreana para Intercâmbio Cultural Internacional entre setembro e novembro de 2020, mostrou o Brasil como o terceiro local onde mais cresceu a audiência pelos dramas coreanos, em comparação com o período anterior à pandemia. Em primeiro lugar ficou a Malásia e, em segundo, a Tailândia. Depois do Brasil, vêm os Emirados Árabes Unidos e Taiwan. Para a pesquisadora de cultura pop asiática e plataformas digitais Yara Chimite, o interesse do público brasileiro pelo K-drama pode passar por uma familiaridade com relação aos temas abordados nas produções.

— Temáticas voltadas para a corrupção, por exemplo, que são bastante recorrentes em K-dramas, são coisas com as quais os brasileiros conseguem se identificar — analisa ela. — Além disso, o formato, mais curto do que um seriado tradicional, é um grande atrativo, já que permite terminar uma e enveredar por outra história em pouquíssimo tempo.

Streamings especializados
A pesquisadora Daniela Mazur explica que, dentro da lógica da Coreia do Sul, normalmente os episódios têm duração entre uma hora e uma hora e 20 minutos cada e, na maioria das vezes, a série é pensada para uma temporada só, com 16 a 20 capítulos.

A jornalista e podcaster do “Resenha falada” Ana Luiza Vasconcelos é uma das que entraram na onda sul-coreana recentemente. Ela começou a assistir aos K-dramas e a escutar K-pop durante a pandemia e admite que, inicialmente, tinha um pouco de preconceito:

— Minha vida parou totalmente e resolvi dar uma chance. Assistir a essas histórias foi umas das coisas que me consolaram e confortaram durante esse período. Meus novos ídolos são coreanos, nunca pensei que fosse falar isso — diverte-se.

No Brasil, existem ao menos três plataformas que disponibilizam K-dramas: Viki, Kocowa e Netflix (confira sugestões ao lado). Nas duas primeiras, o serviço é especificamente voltado para produções do leste asiático. Entre dramas, shows de variedades e filmes, é possível passear por gêneros e países diferentes dentro das plataformas.

A Netflix, que começou com cinco títulos coreanos na plataforma entre 2015 e 2016, hoje conta com mais de 100. Para a pesquisadora Yara Chimite, o serviço facilita o acesso do brasileiro aos K-dramas, pois já vem com legendas ou dublados, e as pessoas podem acabar assistindo acidentalmente e gostando. Ela destaca, no entanto, as possíveis adequações das produções ao gosto ocidental.

— Os K-dramas são um dos maiores produtos da Hallyu e, como tal, são representantes da imagem do país para o exterior. Sendo assim, o grupo de produções disponíveis na Netflix ou em outros serviços corresponde apenas a uma fração e acaba por moldar a a imagem que as pessoas têm da Coreia do Sul. Nesse sentido, importa para a indústria coreana que o controle sobre o que é produzido e distribuído seja do país, e não de plataformas estrangeiras.

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