Abdulrazak Gurnah ganha o Nobel de Literatura 2021

Para o Nobel, o escritor premiado em 2021 é um dos autores pós-coloniais mais proeminentes do mundo; veja quem é Abdulrazak Gurnah
Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

Abdulrazak Gurnah
Romancista tanzaniano Abdulrazak Gurnah foi laureado com o Nobel de Literatura em 2021 Foto: Foto: PalFest/Creative Commons

Com uma obra que aborda temas como identidade e deslocamento e o legado do colonialismo sobretudo na vida de pessoas desenraizadas, Abdulrazak Gurnah, ele mesmo um refugiado que nasceu na Tanzânia, em 1948, e buscou asilo na Inglaterra ainda na juventude por perseguição religiosa, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2021. O anúncio foi feito pela Academia Sueca no início da manhã desta quinta, 7, e pegou o autor de surpresa, na cozinha de sua casa em Brighton – ele até achou que aquela ligação que recebeu minutos antes do anúncio oficial era trote

Inédito no Brasil, Gurnah, 73, professor recém-aposentado de Inglês e de Literatura Pós-colonial na Universidade de Kent e autor de romances e contos, não estava entre os cotados. Na lista, que às vezes se repete ano após ano, figuravam autores como o queniano Ngugi wa Thiong’o, o moçambicano Mia Couto, o japonês Haruki Murakami, a russa Ludmila Ulitskaya, o francês Michel Houellebecq, as canadenses Anne Carson e Margaret Atwood e as americanas Joyce Carol Oates e Joan Didion. Portugal esperava seu segundo Nobel – desta vez, para António Lobo Antunes. O primeiro foi para José Saramago. E o Brasil, que não tem nenhum escritor entre os premiados, viu circular nas redes sociais, nas últimas semanas, que ele seria destinado a um escritor antibolsonarista.

Nobel foi dado a Abdulrazak Gurnah, conforme dito no anúncio, por seu “irredutível e compassivo entendimento dos efeitos do colonialismo e o destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes”. 

Presidente do Comitê do Nobel de Literatura, Anders Olsson se referiu ao tanzaniano como um dos escritores pós-coloniais mais proeminentes do mundo. “Seus personagens se encontram no abismo entre culturas, entre a vida deixada para trás e a vida por vir, confrontando o racismo e o preconceito, mas também se obrigando a silenciar a verdade ou reinventar uma biografia para evitar o conflito com a realidade”, disse. 

Paradise é sua obra mais famosa. Finalista do Booker Prize em 1994, o romance conta uma história de formação – do amadurecimento de um garoto tendo como pano de fundo uma África cada vez mais corrompida pelo colonialismo e pela violência durante a Primeira Guerra.

Abdulrazak Gurnah
Livros de Abdulrazak Gurnah na Academia Sueca, no anúncio do Prêmio Nobel de Lietratura Foto: Jonathan Nackstrand/AFP

Gurnah, cujo idioma original é o suaíli, escreve seus livros em inglês e já lançou, até agora, 10 romances. A estreia foi com Memory of Departure, em 1987. Na sequência, vieram Pilgrims Way (1988) e Dottie (1990). Essas três primeiras obras retratam a experiência do imigrante no Reino Unido sob diferentes perspectivas. Depois de Paradise, seu quarto livro, vieram Admiring Silence (1996), By the Sea (2001), Desertion (2005), The Last Gift (2011) e Gravel Heart (2017; veja abaixo um vídeo sobre a obra), além My Mother Lived on a Farm in Africa, coletânea de contos publicada em 2006.

Seu romance mais recente, publicado em setembro de 2020 no Reino Unido, é Afterlives. Ele conta a história de um menino, Ilyas, que foi roubado de sua família por tropas coloniais alemãs. Depois de alguns anos, ao lutar em uma guerra contra seu próprio povo, ele volta para a sua vila. Nesse mesmo momento, outro jovem, que não foi roubado para ajudar na guerra, mas, sim, vendido durante o conflito, também retorna. O destino se encarregará de promover o encontro entre os dois. 

Desde a criação do Nobel, há 120 anos, já foram premiados 118 autores – dos quais apenas 16 mulheres. A poeta americana Louise Glüke venceu em 2020. E Gurnah é apenas o quarto autor negro e o sexto de origem africana a ganhar a mais importante premiação literária do mundo.

Nobel de 1986, o nigeriano Wole Soyinka, disse à AP que o prêmio dado ao tanzaniano é a prova de que “as artes, e a literatura em particular, vão bem e estão prosperando, uma bandeira resistente hasteada acima de realidades deprimentes” em “um continente em permanente sofrimento”. “Que a tribo aumente!”, concluiu. 

Abdulrazak Gurnah falou com a imprensa internacional e posou para fotos após o anúncio do prêmio. Também à AP, ele disse os que temas da imigração e do deslocamento que ele explora “são questões que estão conosco o tempo todo”, e muito mais agora do que quando ele chegou ao Reino Unido no final dos anos 1960. 

“As pessoas estão morrendo, estão sendo feridas ao redor do mundo. Devemos lidar com essas questões de uma forma muito mais gentil”, afirmou. “Ainda estou assimilando que a Academia escolheu destacar esses temas que estão presentes em toda a minha obra. É importante abordar essas questões e falar sobre elas”, comentou o autor nascido em Zanzibar, que precisou deixar a ilha no Oceano Índico em 1968, fugindo de um governo repressivo que perseguia a comunidade muçulmana da qual o então garoto fazia parte.

Chegando à Inglaterra, ele começou a escrever como uma forma de explorar tanto a perda quanto a liberdade de sua experiência como emigrante, disse ainda. 

Mais cedo, um repórter do site do Prêmio Nobel disse ao escritor que os cientistas premiados tendem a descrever o trabalho deles como uma brincadeira, como uma coisa que fazem pela alegria de poder explorar algo, e questionou se ele também se sentia assim. “Bem, sinto alegria quando eu termino! (risos). Mas, sim, muito disso é, obviamente, compulsivo, atraente e algo que os escritores continuam a fazer por décadas – e você não pode fazer isso se você odeia. É o prazer de fazer coisas, criar, acertar, mas também o prazer de transmitir, de dar prazer, apresentar um caso, persuadir, todos esses tipos de coisas”, respondeu o escritor, que ganhou US$ 1,1 milhão.

Prêmio Nobel de Literatura

Quem ganhou o Nobel de Literatura em 2020 foi a poeta americana Louise Glück. Dela, a Companhia das Letras publicou, depois do prêmio, Poemas: 2006-2014. No ano anterior, quem ganhou foi o austríaco Peter Handke, mais conhecido do leitor brasileiro, que encontra suas obras no catálogo da Estação Liberdade. E a polonesa Olga Tokarczuk, que já tinha tido um livro publicado no País, Vagantes, anos atrás, voltou às livrarias após ganhar o Nobel de Literatura em 2018. A nova fase foi marcada pelo lançamento de Sobre os Ossos dos Mortos, entre outros títulos pela Todavia (leia a entrevista de Olga Tokarczuk concedida ao Estadão em 2020). 

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