Garotos usam TikTok para ajudar jovens a falarem sobre moda

O app é uma plataforma insaciável, e o conteúdo de moda masculina, geralmente de nível básico, é abundante
Jon Caramanica, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

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Etienne Bolduc usa o aplicativo para exibir roupas extravagantes e compartilhar seu profundo conhecimento da história da moda japonesa.  Foto: Frankie Perez/The New York Times

Entre o fim do ano passado e os primeiros meses deste ano, as críticas de moda e de estilo mais severas da internet vinham na forma do rosto muito redondo, muito calmo e sem expressão de Mark Boutilier.

No TikTok, ele usava a função de dueto do aplicativo, com a qual é possível postar um vídeo ao lado do de outra pessoa, para desmantelar silenciosamente os infratores da moda, mantendo um semblante imutável, enquanto os possíveis influenciadores usavam um look amador ou exibiam compras absurdas da Supreme.

Em um aplicativo que muitas vezes privilegia o excêntrico, os anticomentários de Boutilier se tornaram uma alternativa irônica.

Esses vídeos plácidos e cheios de conhecimento ajudaram a dar forma a um discurso de moda emergente entre os jovens no TikTok, que vai além das fotos com curadoria rigorosa e do excesso de conteúdo patrocinado do Instagram, e entra em um território mais discursivo. O TikTok, rápido e não linear, é perfeito para uma conversa sobre moda repleta de interjeições, duelos de humor e palestras improvisadas.

Boutilier faz parte de um pequeno grupo de jovens, a maioria na casa dos 20 anos, que usa as ferramentas e estruturas de memes do aplicativo para criar uma conversa sobre moda que é íntima, generosa, divertida e que sempre muda de forma. Seus vídeos, que incluem filosofia de roupas, arquivos históricos, ironia e instrução, somam-se a uma iteração interativa, reconfortantemente informal e totalmente moderna da crítica de moda.

O mais estudioso e provocador dessa nova abordagem é Etienne Bolduc (@thedigitalcowboy), arquivista de 27 anos de Montreal e historiador amador da moda. Bolduc é especializado em estilistas japoneses – Yohji Yamamoto, Issey Mikaye, Rei Kawakubo, Naoki Takizawa – e seus vídeos são uma mistura de documentação de arquivo, detalhes do passado e exibições extravagantes de roupas.

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Julian Carter, 24 anos, engenheiro.  Foto: Peyton Fulford/The New York Times

olduc, que também é dono de uma sofisticada loja virtual de roupas de grife vintage e de uma plataforma de pesquisa chamada My Clothing Archive, é um verdadeiro cavalheiro com um dom verdadeiro para a silhueta e a proporção. Ele descreveu como “hiperrealista” sua forma de se vestir, embora também tenha dito: “Eu me concentro muito mais no significado cultural do que em como eles se encaixam. A maneira como me visto diz respeito a como usar artefatos culturais, símbolos culturais”.

No TikTok, ele é um defensor travesso e zeloso da precisão, muitas vezes respondendo a vídeos com informações falsas e adicionando um contexto mais amplo às roupas. “Não se trata apenas de moda. Também se trata de tentar fazer conexões com tudo: música, fotografia, design”, afirmou Bolduc, que montou uma vasta biblioteca de revistas e livros japoneses e aprendeu japonês sozinho para traduzi-los.

Bolduc é o radical livre da moda do TikTok. Por outro lado, Joaquin Martinez (@fashion.elitist), de 23 anos, é o filósofo da silhueta no aplicativo, apresentando diversas séries de vídeos sobre como juntar roupas “conectadas” e “desconectadas”, quais estilos de roupa complementam melhor as diferentes formas físicas e as maneiras mais elegantes de usar cores. (Martinez, que vive em Los Angeles, geralmente se veste de preto, com roupas esvoaçantes e fluidas.)

Ele começou a disseminar seu kit de ferramentas intelectuais sobre como se vestir depois de ter se frustrado com a forma como os influenciadores da moda mais estabelecidos exibiam seus looks sem dar nenhuma instrução sobre como montá-los. “Quando você pratica tanto um ofício, isso se torna tão natural que você logo se esquece de como chegou lá e não sabe como explicar isso a outra pessoa. Analiso demais as coisas, mas acho que é assim que posso ajudar os outros. Alguém tem de apresentar a terminologia e dar a explicação, como seu professor de matemática fazia”, disse Martinez.

O comediante do grupo é Boutilier (@mark_boutilier), que tem 23 anos. Nesse ecossistema, ele se tornou uma espécie de meme humano, quer se trate de seus vídeos de reações secas; de agitar preguiçosamente o dedo no ar em direção a uma manchete que está prestes a subverter, uma inversão do modo TikTok de apoio entusiasmado; ou de fazer vídeos sobre coisas horrorosas encontradas em brechós.

Observador impassível do fluxo constante de exageros e tendências, Boutilier, que mora nos arredores de Atlanta, costumava ser visto como um antagonista em seus primeiros “vídeos de reação”. “Muitas vezes, eu fazia um vídeo e o original era excluído algumas horas depois. Acho que não conseguiam me interpretar e não sabiam se eu estava brincando ou não”.

TikTok é uma plataforma insaciável, e o conteúdo de moda masculina, geralmente de nível básico, é abundante: tutoriais de estilo, recomendações de produtos, listas de vídeo e uma quantidade infinita de fotos exibindo looks, ou vídeos de looks, ou vídeos de fotos de looks. Existem modelos conhecidos, e modelos, como Wisdom Kaye (@wisdm8), que começaram a carreira fazendo posts no TikTok.

No entanto, esse nicho de criadores compartilha linguagem e interesses próprios. Eles riem uns dos outros com bom humor, tirando sarro das manias de cada um. Todos reviram os olhos com certas peças, como o tênis com logotipo de coração da Comme des Garçons Play (“Sapato de coração é ruim”). Debatem a ética das réplicas de tênis, ou se você pode usar uma jaqueta de outra forma que não seja aberta.

Às vezes, desenterram looks improváveis: jeans Wrangler Wrancher, calças de chef Cookman, sacolas de compra vazias. Com ajuda do recurso de dueto do aplicativo, às vezes uma série de jovens tenta usar o truque – algumas vezes com sinceridade (adicionando uma bolsa ao look), outras vezes com ironia (vestindo uma camiseta regata com calças simples).

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Joaquin Martinez, 23 anos, estudante universitário e iniciando uma pequena marca de roupas, a Patient Zero.  Foto: Jessica Lehrman/The New York Times

Muitos desses criadores também construíram uma comunidade improvisada fora do aplicativo: Martinez iniciou um bate-papo em grupo no Instagram que agora inclui Boutilier, Bolduc e uma dúzia de outros criadores de moda do TikTok. A cena também tem um podcast próprio, o Pair of Kings, que rotineiramente apresenta os principais nomes da cena. Martinez postou recentemente um vídeo em que aparece colando um dos adesivos de Boutilier em uma loja da Fairfax Avenue, em Los Angeles, em um gesto de boa vontade entre países.

A cena ainda é pequena e está fora do radar da maioria das grandes empresas de moda. Apenas nas últimas semanas alguns deles receberam produtos gratuitos de marcas, algo bastante comum no mundo dos influenciadores digitais. Mas o TikTok ainda é visto como um aplicativo para adolescentes, e muitas empresas conhecidas, que ignoram os ritmos e as piadas internas do aplicativo, ainda têm dificuldades para se apresentar. (O estranho Ssense é uma piada recorrente entre esses tiktokers da moda.) E muitos desses criadores aspiram a algo mais nobre e menos gratuito do que a pura atenção.

Mais do que o Twitter, que fomenta principalmente discussões; mais do que o Instagram, que é excessivamente polido; ou que o Snapchat, que funciona principalmente em privado, o TikTok é o aplicativo de mídia social mais adequado para a troca de ideias. Por causa da página “Para Você”, que é definida por algoritmos, é quase impossível manter uma experiência de visualização com curadoria no TikTok, o que significa que, no aplicativo, os criadores tendem a trabalhar de forma mais improvisada. O resultado é uma conversa sobre moda que ziguezagueia e depende de uma estrutura de ruptura e resolução.

“Quando você está fazendo coisas para o Instagram, cada detalhe é ajustado até certo grau. É muito mais divertido no TikTok“, disse Karsten Kroening (@meme_saint_laurent), estudante universitário de 20 anos em Seattle, que está organizando uma conta de memes de moda com o mesmo nome no Instagram há cinco anos. Ele acrescentou que o mais importante é que, no TikTok, “você pode ver o rosto de quem fala, e, quando você enxerga o rosto, percebe melhor o tom e a maneira como a pessoa está falando, mesmo quando ela está corrigindo você. Isso muda totalmente a forma como podemos ter uma conversa”.

Isso fica claro no hábito das correções nesse meio, quando um usuário posta algo errado e outro acrescenta um vídeo ou faz um comentário.

Essa pequena cena da moda começa a encontrar seu ritmo, e é complementada por um grupo de jovens que usam o TikTok para mostrar como fazem as próprias roupas, criando o que não existe como forma de criticar o que existe.

Entre esses tutoriais, os mais acessíveis e relaxantes são os de Julian Carter (@juulian.c), engenheiro de 24 anos de Huntsville, no Alabama, que gosta de roupas militares e hiperfuncionais. Ao contrário dos criadores que revelam sua criação no fim de seus clipes, Carter opta por abrir com o produto acabado para chamar a atenção dos espectadores. “Por que eu assistiria a um vídeo sem saber qual é o produto final?”, perguntou.

Seus vídeos, nítidos e atraentes, fazem alterações extremas – como fundir dois pares de calças ou cortar vários centímetros de uma jaqueta jeans. Mesmo seus maiores excessos, como uma calça com cintura de 230 centímetros, são reproduzidos sem brincadeiras.

“Quando comecei, ser aprovado por Mark era importante. As pessoas vinham para meus comentários e marcavam o Mark”, contou Carter. (Os dois se tornaram colegas.) Agora, Carter também se tornou um nome importante e, quando mostra uma nova técnica, “as pessoas me mostram seus vídeos”. Estas são aulas, mas também convites, reações que se transformaram em estímulos. / 

Relleciga | Spring Summer 2021 | Full Show

Relleciga | Spring Summer 2021 | Full Fashion Show in High Definition. (Widescreen – Exclusive Video/1080p – DC Swim Week)

Alex Arcoleo – Headphones/Half Hearted/Midnight Hour

Bilheteria EUA: 007: Sem Tempo Para Morrer, Venom, A Família Addams 2, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, The Many Saints of Newark

Último filme de Daniel Craig como James Bond desbancou Venom: Tempo de Carnificina

007 – Sem Tempo Para Morrer

Despedida de Daniel Craig da franquia, 007: Sem Tempo Para Morrer teve uma boa estreia nos cinemas norte-americanos. O longa entrou em cartaz faturando US$56 milhões e superando Venom: Tempo de Carnificina, que acumulou mais US$32 milhões neste final de semana, chegando a uma bilheteria total de US$141,6 milhões nos Estados Unidos.

A Família Addams 2, sequência da animação de 2019, fecha o pódio da bilheteria depois de registrar US$10 milhões.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, com US$4,2 milhões, e The Many Saints of Newark, com US$1,45 milhão, completam o top 5.

Behind-the-scenes of the Spring-Summer 2022 Ready-to-Wear Show — CHANEL Shows

Ambassadors and friends of the House share their impressions, backstage at the CHANEL Spring-Summer 2022 Ready-to-Wear show at the Grand Palais Éphémère in Paris.

Embaixadores e amigos da Casa compartilham suas impressões, nos bastidores do desfile CHANEL Spring-Summer 2022 Ready-to-Wear no Grand Palais Éphémère em Paris.

Tyler Matthew Oyer captured by the lens of Lukas Preuss, in exclusive for Fucking Young! Online

Tyler Matthew Oyer captured by the lens of Lukas Preuss, in exclusive for Fucking Young! Online.

Wig by Sara Mathiasson @sara_mathiasson
BRANDS:: @idenstudios @timmimmit @leak_nyc @lucasavid

Nova crise do Facebook deve forçar indústria da tecnologia a sair das sombras

Após falhas da rede social virem à tona, gigantes do setor devem enfrentar pressão para revelar funcionamento de seus algoritmos
Por Bruna Arimathea e Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Nova denúncia coloca em xeque o coração do modelo de negócios do Facebook

Há algum tempo se sabe que o Facebook tem problemas – nos últimos anos, além de protagonizar o escândalo de violação de dados Cambridge Analytica, a rede social tem sido acusada de impulsionar conteúdos nocivos como discurso de ódio e desinformação. Nestas últimas semanas, porém, as falhas da empresa ficaram concretas e ganharam nova dimensão: Frances Haugen, ex-funcionária da companhia, detalhou publicamente como o Facebook repetidamente escolheu lucrar e não proteger a segurança de seus usuários. As regulações sobre gigantes de tecnologia, que já vinham sendo ensaiadas, ganharam ares de urgência. 

Frances tornou públicas pesquisas internas do Facebook que mostram negligência da empresa com a moderação de conteúdo em suas plataformas. As revelações, feitas inicialmente pelo jornal americano Wall Street Journal, indicam que o Facebook aumenta o alcance de publicações de ódio, permite a circulação de conteúdos sobre tráfico humano e de drogas, trata celebridades e políticos com regras diferenciadas e não mantém o mesmo nível de moderação em países fora dos Estados Unidos. Há também detalhes sobre o impacto do Instagram na saúde mental de crianças e adolescentes: os estudos mostram que 1 em cada 3 meninas que se sentiam mal com o próprio corpo ficavam ainda pior ao acessar o Instagram. 

Muitos desses problemas já eram apontados há anos por especialistas, mas as denúncias são impactantes: agora, há informações tangíveis, levantadas pela própria empresa, que corroboram as pesquisas. Ao mostrar os efeitos tóxicos dos algoritmos, a denúncia coloca em xeque o coração do modelo de negócios do Facebook — e, de certa forma, de toda a indústria da tecnologia do mundo atual. 

“Finalmente estamos chegando em um momento histórico em que as gigantes de tecnologia estão na fronteira de serem questionadas em seus poderes econômicos. Isso demorou muito para acontecer desde a última grande onda de pressão, marcada pelo caso antitruste da Microsoft nos anos 1990”, afirma Paulo Rená, professor de Direito no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). “Nesse cenário, esse tipo de denúncia ganha força”. 

No caso do Facebook, a ficha caiu para muita gente na última segunda-feira, quando todos os apps da companhia, incluindo WhatsApp e Instagram, sofreram um apagão por sete horas. Além de atrapalhar a comunicação entre usuários no mundo todo, a pane impactou empresas que dependem dos serviços para atender seus clientes – segundo o Facebook, 3,5 bilhões de pessoas usam os seus produtos no mundo. 

Inabalável

Valor da ação do Facebook continua crescendo apesar de quedas pontuais

Desgaste

A crise ainda se agrava pela quebra de confiança: a rede social manteve as pesquisas em sigilo e não tomou medidas suficientes para conter os problemas. “Iniciativas do Facebook como o Oversight Board [Comitê de Supervisão] sinalizam uma discussão, mas a empresa ainda tem feito muito pouco justamente porque é um modelo rentável”, diz Bruna Santos, integrante da coalizão Direitos na Rede, citando o órgão independente criado pelo Facebook em 2020 para moderação de conteúdo. 

Parece uma reprise: a falta de transparência também marcou o escândalo Cambridge Analytica, em 2018, em que foram usados indevidamente dados de 87 milhões de usuários da rede social para influenciar as eleições americanas – a empresa foi avisada do problema em 2015. Desde então, Mark Zuckerberg e sua empresa nunca conseguiram recuperar a imagem plenamente, e a nova crise deve sepultar de vez as chances disso acontecer.    

O Facebook tem rebatido as acusações, argumentando que as pesquisas estão sendo mal interpretadas. Em texto publicado na quarta-feira, 6, Mark Zuckerberg afirmou que os documentos internos que vieram à público precisam ser visualizados “como um todo”, e que foram retirados de contexto ao serem lidos individualmente. Sobre os estudos envolvendo adolescentes, a empresa exaltou pontos positivos da pesquisa e relativizou a importância de algumas descobertas que mostram danos causados pela plataforma – em alguns momentos, o Facebook questiona inclusive o trabalho de seus próprios pesquisadores. 

Partir para o ataque tem sido a nova estratégia adotada pela empresa. Recentemente, o jornal americano The New York Times revelou que Zuckerberg anunciou em agosto uma nova iniciativa chamada Project Amplify, que tinha como objetivo usar o feed de notícias do Facebook para mostrar às pessoas histórias positivas sobre a rede social. A ideia era promover publicações pró-Facebook – algumas delas escritas pela própria companhia. A rede social não esperava, porém, que a acusação mais forte contra a empresa nos últimos anos partiria de alguém que não apenas trabalhava lá, como também lidava diariamente com questões relacionadas à democracia e desinformação.

“O Facebook precisa vir a público dizer que errou e tomou decisões das quais se arrepende. É a única forma de seguir em frente e consertar a empresa. O primeiro passo é a honestidade”, afirmou Frances em seu depoimento. 

Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook
Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook

E agora?

Até hoje, o Facebook não sofreu nenhum grande impacto de regulação em seus negócios. Mesmo com a sequência de crises, a empresa mantém um ciclo de crescimento constante (ver gráfico abaixo). Seguindo essa trajetória, a companhia atingiu em junho US$ 1 trilhão em valor de mercado, tornando-se a companhia mais jovem nos Estados Unidos a chegar à marca. 

Durante audiência no Senado americano, a delatora do Facebook mostrou caminhos de como regular a empresa, com questionamentos que podem ser a chave para impulsionar regras mais duras para as empresas de tecnologia. Em vários momentos do depoimento, que durou quase quatro horas, Frances defendeu que o Facebook tem “salvação”, “mas não vai consertar seus próprios problemas”. 

Para ela, a transformação não acontecerá pela via mais discutida no último ano: o desmembramento do Facebook, que incorporou na última década o Instagram e o WhatsApp. “Os problemas envolvem desenhos de algoritmos e de inteligência artificial”, disse. Segundo Frances, os executivos poderiam seguir tomando decisões erradas mesmo se os apps fossem empresas separadas.

A ex-funcionária propõe que a regulação seja focada na transparência de algoritmos. As gigantes quase nunca revelam como eles funcionam: eles são hoje a “fórmula secreta” para o sucesso no mundo tecnológico. 

Para especialistas, a discussão aprofundada sobre algoritmos vista na audiência, com congressistas procurando entender o funcionamento da tecnologia, são de grande valor para o debate regulatório do setor. No entanto, eles ressaltam a importância da discussão extrapolar o Facebook daqui para frente.

“O Facebook tem o agravante de reunir vários apps. Mas outros serviços tecnológicos também funcionam com base em algoritmos e no tempo que os usuários passam na plataforma, como Twitter, YouTube, TikTok e Amazon”, afirma Rená. “Além disso, as regulações americanas devem ir além dos EUA e dialogar com interesses globais”. 

O caminho das pedras para a construção dessas novas regras está na informação. “Essa crise mostra o quanto precisamos de mais informações sobre as plataformas. Ela é um começo e não um lugar de chegada para entendermos o que acontece em uma rede social gigante”, diz Artur Pericles Monteiro, coordenador de pesquisa de liberdade de expressão do InternetLab.

Postushna | EcoLogica

Postushna | EcoLogica

Criador de ‘Round 6’ diz que não esperava sucesso com as crianças e pede cuidado de pais e professores

Classificação da série fenômeno é de 16 anos, mas menores de idade têm assistido no próprio Netflix ou em virais no TikTok, Instagram e YouTube
Talita Duvanel

O cineasta Hwang Dong-hyuk no set, dirigindo o elendo de diretor de “Round 6” Foto: Divulgação

 Já passava de 21h30m de ontem na Coreia do Sul, e o criador e diretor de “Round 6”, Hwang Dong-hyuk, ainda estava conectado para conceder sua primeira entrevista sobre a série ao Brasil. Tem sido uma batida louca de chamadas de vídeo para o mundo todo desde 17 de setembro, quando a produção estreou mundialmente na Netflix e, num boca a boca veloz, virou a mais vista do serviço de streaming em 90 países.

— Não previ esse nível de sucesso. Estou animado, mas assustado também. Há três semanas, vivo uma montanha-russa emocional — conta o cineasta, que entende inglês mas prefere responder em coreano e ter suas palavras traduzidas por uma intérprete.

Hwang Dong-hyuk também está espantado com o fato de crianças e adolescentes consumirem o conteúdo da série — seja pelo próprio streaming (no Brasil, a classificação é 16 anos, e a Netflix tem mecanismo de controle parental), ou virais no TikTok, Instagram e YouTube.

Por aqui, pais e colégios estão apavorados com a curiosidade dos pequenos acerca de uma obra com cenas de assassinato, suicídio e tráfico de órgãos.

— Não estou em nenhuma rede social, então nem pensei na possibilidade de crianças assistirem por essas mídias. Essa obra não é para elas. Estou perplexo que crianças estejam vendo. Espero que os pais e os professores ao redor do mundo sejam prudentes para que elas não sejam expostas a esse tipo de conteúdo — diz o diretor. — Mas, se já viram, espero que os adultos as ajudem a entender o significado do que está por trás da tela. Torço para que haja boas conversas.

Em menos de um mês após o lançamento da série, conhecida no exterior como "Squid Game", Ho Yeon se tornou, nesta segunda-feira, a atriz sul-coreana mais seguida na plataforma Foto: Reprodução
Em menos de um mês após o lançamento da série, conhecida no exterior como “Squid Game”, Ho Yeon se tornou, nesta segunda-feira, a atriz sul-coreana mais seguida na plataforma Foto: Reprodução
Cena da série 'Round 6', a estreia de Jung Ho Yeon como atriz Foto: Reprodução
Cena da série ‘Round 6’, a estreia de Jung Ho Yeon como atriz Foto: Reprodução
Jung Ho Yeon fez sua estreia como atriz em 'Round 6' Foto: Divulgação / Netflix
Jung Ho Yeon fez sua estreia como atriz em ‘Round 6’ Foto: Divulgação / Netflix
Jung Ho Yeon usa traje de gala em episódio da série 'Round 6'
Jung Ho Yeon usa traje de gala em episódio da série ‘Round 6’

A brincadeira não para

Apesar de ter rechaçado a ideia de uma segunda temporada nas primeiras entrevistas, hoje Hwang Dong-hyuk tem, entre sua lista de compromissos, conversas com executivos da Netflix sobre uma continuação. Ele, inclusive, esboça ideias do que poderemos ver no futuro quando fala do assunto (spoilers a seguir):

— Penso que, se fizer, será em cima da tentativa de Gi-hun (o ator Lee Jung-jae) em achar as pessoas que fazem parte do jogo, como o homem com quem ele brincou com o papel. Acho que ele tentaria encontrá-lo. Há também a história do policial, se ele está vivo ou não. Mas são só ideias.

Hwang Dong-hyuk , diretor de Round 6 Foto: Divulgaçao
Hwang Dong-hyuk , diretor de Round 6 Foto: Divulgaçao

O interesse em torno da sequência da produção é uma mudança radical da indústria se pensarmos na recepção que o roteiro teve em 2008, quando foi escrito e apresentado a investidores pela primeira vez. Ninguém teve coragem de colocar um dólar ou won sul-coreano sequer. A ideia de uma série sobre 456 pessoas falidas confinadas, brincando de jogos infantis para ganhar bilhões, parecia estranha. E o fato de elas morrerem se perdessem as partidas, surreal. Só que, de lá para cá, os desequilíbrios socioeconômicos se intensificaram. E o que parecia bizarro ganhou um ar mais realista.

— É triste dizer isso, mas a situação do mundo piorou. A desigualdade entre ricos e pobres ficou ainda maior, e a quantidade de pessoas em sofrimento aumentou. Ainda veio a pandemia. Os países pobres não têm como comprar vacinas. Então, o problema é universal. A história não é mais surreal ou estranha — diz ele, que comemora o sucesso que a indústria cultural da Coreia tem feito pelo mundo. —Chegamos ao clímax de popularidade. Espero que isso se mantenha.

Por que a Microsoft não morreu?

A empresa cometeu erros épicos por anos, mas é novamente uma das superestrelas da tecnologia
Shira Ovide, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

A Microsoft ter conseguido driblar maus tempos é um bom ou mau sinal?

Por mais ou menos uma década, a Microsoft fracassou em tantas tendências significativas da tecnologia que acabou virando piada. Mas a empresa mais do que sobreviveu a seus erros épicos. Hoje, ela é (novamente) uma das superestrelas da tecnologia mundial.

A capacidade da Microsoft de prosperar, mesmo fazendo quase tudo errado, pode ser uma saga animadora sobre reinvenção corporativa. Ou pode ser uma demonstração angustiante de como é difícil acabar com os monopólios. Ou talvez seja um pouco dos dois.

Entender o poder de permanência da Microsoft é relevante quando se considera uma importante questão atual: as superestrelas da Big Tech de hoje são bem-sucedidas e populares porque são as melhores no que fazem ou porque se tornaram tão poderosas que podem viver de seus sucessos anteriores?

No fim das contas, a angústia sobre Big Tech em 2021 – os processos antitrustes, as novas leis propostas e a “gritaria” – se resume a um debate sobre se a marca de nossas vidas digitais é algo dinâmico que impulsiona o progresso ou se realmente temos dinastias. E o que estou perguntando é, qual deles foi a Microsoft?

Deixe-me voltar aos dias sombrios da Microsoft, que possivelmente se estendem de meados dos anos 2000 a 2014. Estranhamente, não foram tão ruins. Sim, a Microsoft era tão sem graça que foi humilhada nas propagandas da Apple na televisão e muitas pessoas na indústria de tecnologia não queriam ter nada a ver com isso. A empresa falhou em criar um mecanismo de busca popular, tentou em vão competir com o Google em publicidade digital e teve pouco sucesso na venda de seus próprios sistemas operacionais ou dispositivos para smartphones.

E, mesmo assim, nos anos mais tristes da Microsoft, ela ganhou muito dinheiro. Em 2013, o ano em que Steve Ballmer quase se aposentou como CEO, a empresa gerou muito mais lucro antes de impostos e outros custos – mais de US $27 bilhões – do que a Amazon em 2020.

Não importa o quanto o software da Microsoft possa ter sido ruim – e muitos realmente foram -, muitas empresas ainda precisavam comprar computadores Windows, software de e-mail e documentos da Microsoft e sua tecnologia para executar poderosos computadores back-end chamados servidores. A Microsoft usou esses produtos tão necessários como alavanca para criar novas e lucrativas linhas de negócios, incluindo software que substitui sistemas convencionais de telefonia corporativa, bancos de dados e sistemas de armazenamento de arquivos.

A Microsoft nem sempre foi boa naqueles anos, mas se saiu muito bem. E, mais recentemente, deixou de se arrastar e passou a ser financeiramente bem-sucedida e relevante em tecnologias de ponta. Então, essa reviravolta foi um sinal saudável ou desanimador?

Do lado saudável da contabilidade, a Microsoft fez pelo menos uma coisa certa: computação em nuvem, que é uma das tecnologias mais importantes dos últimos 15 anos. Isso e uma mudança cultural, foram as bases que fizeram com que a Microsoft deixasse de ganhar apesar da sua estratégia e produtos para ganhar por causa deles. Este é o tipo de reviravolta empresarial que deveríamos querer.

Também direi que a Microsoft é diferente de seus pares em Big Tech de uma forma que pode tê-la tornado mais resiliente. As empresas, não os indivíduos, são clientes da Microsoft e a tecnologia vendida para organizações não precisa necessariamente ser boa para vencer.

E agora a explicação desanimadora: e se a lição da Microsoft for que uma estrela que se apaga pode alavancar seu tamanho, marketing experiente e influência sobre clientes para se manter bem-sucedida, mesmo que faça produtos ruins, perca o controle sobre novas tecnologias e seja assolada por uma burocracia frouxa? A Microsoft era tão grande e poderosa que era invencível, pelo menos por tempo suficiente para surgir com seu próximo ato? E o Facebook ou o Google de hoje são comparáveis a uma Microsoft de 2013 – tão fortalecidos que podem prosperar mesmo que não sejam os melhores?

Não tenho respostas definitivas, e o tamanho e o poder não garantem que uma empresa possa resistir a muitos erros e permanecer relevante. Mas muito do drama e da luta em torno da tecnologia em 2021 depende dessas questões. Talvez a pesquisa pelo Google, as compras pela Amazon e os anúncios do Facebook sejam maravilhosos. Ou talvez simplesmente não possamos imaginar alternativas melhores porque empresas poderosas não precisam ser maravilhosas para continuarem vencendo. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES