Carta antirracismo sobre morte de George Floyd expõe conflitos em condado branco dos EUA

Superintendente escolar negra da região de Maryland se demite após pressão de pais de alunos
Erica L. Green

Andrea Kane
Andrea Kane em seu último dia como superintendente no condado de Queen Anne – Michael A. McCoy -3.jun.2021/The New York Times

CENTREVILLE (MARYLAND) | THE NEW YORK TIMES – Quando Andrea Kane sentou-se para escrever uma carta aos pais de alunos de seu distrito escolar, dias após a morte de George Floyd em 2020, imagens do negro implorando por sua vida, preso sob o joelho de um policial branco do Minnesota, a assombravam.

Kane, superintendente do distrito escolar, enxergava Floyd nos rostos dos estudantes negros. Quando conversava com seus filhos, ouvia a voz dele chamando por sua mãe. Assim, ela iniciou a carta avisando que não queria apenas transmitir boas notícias, mas também fazer as pessoas encararem a realidade.

Apesar da pandemia, seu distrito escolar na costa leste de Maryland encerrara o ano com motivos de orgulho. Porém, ela escreveu, como o resto do país, a comunidade tinha outra crise para enfrentar. “O racismo está vivo em nosso país, nosso estado, no condado de Queen Anne e em nossas escolas”, redigiu na carta, enviada por email aos pais de todos os 7.700 alunos do distrito.

Suas palavras espelharam as que centenas de outros superintendentes escolares disseram na esteira da morte de Floyd e dos protestos que se seguiram. Muitos dos educadores aproveitaram o ensejo para reafirmar seu compromisso com a justiça racial.

Mas a mensagem transmitida por Kane, primeira superintendente negra das escolas públicas do condado de Queen Anne, mergulharia a comunidade pequena e de maioria branca num turbilhão.

“Assim que apertei ‘enviar’, tudo implodiu”, recorda.

Ao longo do ano passado, os protestos e a reflexão desencadeados pela morte de Floyd reverberaram em distritos escolares de todo o país. Conselhos e Legislativos estaduais debateram como e o que os estudantes devem aprender sobre raça e racismo, desde a história da escravidão e segregação racial até o movimento Black Lives Matter.

A discussão tem enfocado os currículos, desde que ativistas conservadores passaram a tachar uma gama de tópicos, incluindo iniciativas em prol da diversidade, como “teoria racial crítica” —perspectiva acadêmica que encara o racismo como estando entranhado no direito e outras instituições modernas.

Hoje o termo é empregado com frequência para desancar qualquer discussão de raça e racismo nas salas de aula dos EUA, colocando em campos opostos educadores que se sentem na obrigação de ensinar sobre a realidade do racismo e pais e políticos, em sua maioria brancos, que consideram que as escolas estariam forçando alunos brancos a sentir vergonha de sua raça e seu país.

Diretores têm sido ameaçados, assediados ou despedidos, acusados de tentar “doutrinar” alunos, segundo Daniel A. Domenech, presidente da Aasa, a Associação de Superintendentes Escolares.

Pedagogos negros, em especial, têm sentido a oposição como algo pessoal e doloroso. Só 2% dos superintendentes escolares nos EUA são negros, e muitos preveem que essa parcela vai encolher.

“Muitos administradores escolares afro-americanos são injustamente tachados de ativistas e examinados de perto para detectar qualquer atitude que possa ser interpretada como equivocada”, afirma Michael D. McFarland, presidente da Aliança Nacional de Educadores Escolares Negros.

“Especialmente em comunidades de maioria branca, é mais difícil para um superintendente negro fazer o trabalho que foi contratado para fazer, que dirá posicionar-se sobre questões de igualdade e justiça social.”

Andrea Kane refletiu profundamente sobre o custo de guardar silêncio.

Ela sabia que o movimento Black Lives Matter divide opiniões —mesmo na comunidade negra—, mas nem por isso a mensagem era menos verdadeira. “Como eu podia deixar de ajudar os estudantes a entender o significado de um corpo negro sendo destruído na rua?”

Com tudo isso em mente, a superintendente refletiu longamente sobre cada palavra da carta que escreveu em 5 de junho de 2020.

“Quando digo que ‘Vidas Negras Importam’, a ideia não é fazer pouco caso de nenhuma outra raça”, escreveu. “É reconhecer a brutalidade discriminatória e o racismo aberto que é vivenciado apenas pelas pessoas negras na América, entre as quais me incluo.”

UMA FAÍSCA SE ESPALHA NO FACEBOOK

Nos dias seguintes, a caixa de entrada de Kane ficou cheia, principalmente de respostas manifestando apoio e gratidão. Um mês mais tarde, porém, apareceu o email “Ação Urgente Necessária”.

Kane reconheceu o nome da mãe de aluno que a enviara: Gordana Schifanelli. Semanas antes alguém alertara a superintendente para o Kent Island Patriots, grupo no Facebook criado por Schifanelli; seus membros estavam furiosos com a carta da educadora.

Segundo uma captura de tela à qual o NYT teve acesso, em post escrito em 16 de junho, Schifanelli declarou: “A Dra. Kane precisa encerrar seu contrato no condado de Queen Anne e ir embora! As pessoas neste grupo têm que ligar e falar em alto e bom som que a escola precisa continuar a ser apolítica e que a carta dela aos pais promovendo o Black Lives Matter não será tolerada”.

O post prosseguiu: “As crianças precisam saber que os indivíduos que morreram sob custódia da polícia eram criminosos, não heróis! Nossos filhos não serão doutrinados pelas opiniões políticas de ninguém na escola e não devem JAMAIS sentir que sua pele branca os torna culpados de escravismo ou racismo!”.

Quando Schifanelli escreveu diretamente a Kane, em 6 de julho, o grupo no Facebook já contava com 2.000 integrantes.

Em sua carta, Schifanelli disse que perdeu confiança na capacidade de Kane de liderar o distrito. Descrevendo-se como “imigrante neste país”, acrescentou: “Sou um exemplo vivo do próprio sonho americano que a senhora conseguiu macular com suas declarações racistas”.

Kane não recuou.

No cargo ela colhera evidências de racismo sistêmico e declarado no condado conservador e semirrural, onde apenas 6% dos alunos são negros. Sob sua liderança, o distrito começara a analisar dados para investigar as diferenças grandes de aproveitamento escolar entre estudantes negros e brancos. E firmara contratos com empresas que promovem iniciativas em prol da igualdade.

As tensões foram crescendo ao longo do verão, e o grupo Kent Island Patriots fez circular uma petição pedindo a demissão de Kane. Um grupo comunitário chamado Sunday Supper Committe lançou outra, de apoio a ela.

Em agosto, um ato público pró-Kane atraiu mais de cem moradores do condado. A educadora achou que essa manifestação de apoio calaria o furor —até deparar-se com mais posts no Facebook. Um deles descreveu pessoas negras como “animais”. Um meme zombou de negros mortos pela polícia.

Schifanelli se recusou a ser entrevistada para esta reportagem. Em comunicado por email, disse: “Como imigrante que encontrou amor e paz entre pessoas de todas as raças, antecedentes e crenças, acho o ativismo político em escolas públicas repugnante e contrário aos interesses dos alunos em minha comunidade, meu estado e o país”.

Seu marido, o advogado Marc, enviou um post em que ela se dizia chocada com declarações racistas feitas na página do Kent Island Patriots e ameaçava expulsar os membros do grupo que as escreveram.

“Fui uma criança que cresceu em um país comunista [a então Iugoslávia]”, ela disse a um podcast conservador. “Comunistas vieram ao meu colégio, me chamaram para fazer parte da organização marxista deles, e eu não quis ir.”

Ela disse que o movimento Kent Island Patriots está se propagando. “Só queremos a volta do bom senso. Estamos retomando nosso país!”

PAIS LANÇAM ATAQUES ‘DOLOROSOS’

Christine Betley foi uma das primeiras professoras do distrito a manifestar-se publicamente quando tomou conhecimento do clima de discórdia crescente. Enviou uma carta ao conselho escolar apoiando os esforços de Andrea Kane.

Conhecido como porta de entrada para as praias de Maryland, Queen Anne tem relação histórica com a pesca e a agricultura. É um dos últimos redutos conservadores do Maryland: mais de 60% dos eleitores do condado votaram em Donald Trump nas últimas eleições. Mas a vida idílica e tranquila dessa área litorânea tem atraído cada vez mais progressistas.

Betley disse que o que ocorreu no verão passado lhe abriu os olhos. “Há uma profundida disparidade entre estudantes brancos, por um lado, e negros e pardos, do outro, e ela fica oculta.”

Um grupo no Facebook no qual Betley e outros professores ingressaram para trocar informações sobre a pandemia em pouco tempo converteu-se em plataforma para defender Kane e as discussões promovidas por ela.

Em sua página Kent Island Patriots, Schifanelli postou os nomes dos profissionais, acusando os educadores de promover “a lavagem cerebral política de nossos filhos, usando a questão racial para isso”.

O que se seguiu —semanas de assédio online— foi devastador para a professora de 5º ano Gina Crook.

“Vi alguns nomes do grupo e pensei: ‘São pessoas cujos filhos eu amei, orientei e aos quais eu dei o melhor de mim, e agora estão aqui me atacando’”, diz.

No outono de 2020 Schifanelli foi excluída do Facebook. Mais ou menos na mesma época a superintendente foi avisada que os Patriots estavam preparando uma campanha para tentar conquistar três das cinco vagas no conselho escolar em novembro. Um dos nomes de sua chapa de “candidatos patriotas” era Marc Schifanelli.

“Foi nesse momento que percebi que estavam se preparando para uma guerra prolongada, que eu não queria travar e não conseguiria vencer”, diz Kane.

UMA SUPERINTENDENTE COM UMA MISSÃO

Kane nunca falou muito sobre o fato de ser a primeira superintendente escolar negra do condado. Mas preocupava-a a possibilidade de ser a última. “Eu sabia que, como mulher negra, não bastava ser boa no meu trabalho”, explicou. “Eu precisava ser excelente.”

Formada em economia, ela teve uma carreira bem-sucedida como gerente de banco, mas queria fazer o trabalho que amava de fato. Em 1996, foi trabalhar como professora substituta enquanto estudava para obter o certificado de professora.

Depois, foi galgando escalões, passando a diretora escolar e então a superintendente-assistente. Obteve seu doutorado em 2016 e assumiu o cargo mais alto no condado Queen Anne.

Ela nunca foi ingênua a ponto de pensar que seu trabalho seria fácil. No dia em que assinou contrato, em 2017, um membro branco do conselho escolar se recusou a falar com ela.

Foi uma das muitas interações hostis que ela teve. Em janeiro, moveu uma queixa contra o conselho escolar junto à Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego, detalhando incidentes que remontavam a 2018, dizendo que foi sujeita a um ambiente de trabalho hostil e discriminatório.

Em um dos casos citados na queixa, uma ex-presidente do conselho escolar, uma mulher branca, lhe enviou uma mensagem de texto usando palavrões depois de Kane lhe pedir para marcarem uma hora para estudar documentos. Meses mais tarde, a mesma mulher admitiu ter desfigurado uma foto de uma professora negra exibida na sede do distrito, desenhando chifres, bigode e barbicha na foto.

Richard A. Smith, nomeado para uma vaga no conselho escolar em 2019 e atual presidente da entidade, se negou a comentar a queixa de Kane. Entrevistado, disse que o órgão não tentou derrubar a educadora e descreveu-a como “profissional”, afirmando disse que sua raça é irrelevante.

“Não somos um condado racista e não temos um conselho racista.”

Ele destacou que em agosto de 2020 o conselhou emitiu comunicado manifestando apoio aos esforços de Kane, mas concordou com algumas das críticas feitas a ela e disse que o email da educadora o surpreendeu. “Não sei se aquele foi o momento mais indicado para externar essa posição, em vista de tudo o mais que estava acontecendo, como a Covid. Foi algo que causou muita perturbação.”

‘ME FIZERAM ME SENTIR SUB-HUMANA’

Algumas semanas após o início do ano letivo de 2020-21, a controvérsia estava cobrando seu preço de Andrea Kane. Durante uma reunião tensa do conselho escolar em outubro, na qual os membros tentaram limitar o poder dela de gastar recursos destinados ao combate à Covid, ela abandonou o recinto.

“Percebi naquele momento que ela cortara completamente seus laços com a comunidade”, recordou Crook. “E quem podia culpá-la por isso?”

Dois dias mais tarde Kane tirou licença médica.

Até hoje ela tem dificuldade em descrever o estado mental e físico em que ficou na época. Não conseguia dormir. Ficava assustada quando ia ao posto de combustível ou ao mercado. Temendo por sua segurança, foi viver fora do condado.

“Nem me fale em vulnerável —eles me fizeram me sentir sub-humana”, falou, referindo-se ao conselho escolar e os Kent Island Patriots. “Me deixaram completamente exposta, nua.”

Quando retornou ao trabalho, em dezembro, a chapa dos Patriots vencera a eleição e controlava o conselho escolar. Marc Schifanelli seria eleito vice-presidente.

Andrea Kane
Andrea Kane no seu último dia como superintendente de escolas em Queen Anne – Michael A. McCoy -3.jun.2021/The New York Times

Kane anunciou que ia deixar o distrito, e a busca por um novo superintendente começou.

“Não existe racismo sistêmico contra ninguém em nossas escolas públicas”, disse Gordana Schifanelli em entrevista à Fox News, “e não podemos inventar um racismo só porque essa é a moda política do momento.”

Imediatamente após sua participação na emissora, mensagens de ódio começaram a chegar à caixa de entrada de Kane, de perto e de locais afastados como o Kansas.

Nas semanas seguintes, ela assistiu à plataforma do Kent Island Patriots ir lentamente transformando as políticas do distrito escolar.

Numa reunião do conselho em maio, Marc Schifanelli conseguiu votos suficientes para eliminar um livro do currículo do ensino médio porque a bobra adotava tom favorável a um garoto cujo pai estava ameaçado de deportação. “Eles queriam eliminar tudo exceto a experiência branca”, diz Kane. “E foi o que fizeram.”

LÁGRIMAS E TROVOADAS

Um dia em junho, quase exatamente um ano depois de Kane ter escrito o email, sua voz elevou-se acima do som de trovoadas quando ela discursou para uma multidão diante do Centro Kennard do Patrimônio Cultural Afro-americano.

Um dos primeiros eventos promovidos no local tinha sido o de dar as boas-vindas a Andrea Kane. Naquele dia, ela estava se despedindo. “Há um barulho lá fora, e é um barulho perverso”, disse Kane ao grupo. “Deem tempo a ele: o mal vai consumir a si próprio. Sempre que deixamos os alunos exprimir quem são e sempre que lhes damos exemplos do que é certo, não erramos.”

Apesar das dificuldades que Kane enfrentou, foi enquanto ela comandou o distrito escolar que este teve sua primeira escola a receber o título nacional Blue Ribbon, conservando seu ranking de primeiro lugar em índices de formação de alunos, e ofereceu seu primeiro curso de estudos afro-americanos.

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