Chico Buarque se vinga de haters e fustiga o Exército em primeiro livro de contos

Artista usa os narradores de ‘Anos de Chumbo’ para rir da fama e cultuar Clarice Lispector
Walter Porto

O músico e escritor Chico Buarque Bob Wolfenson

“Entendo que são duas coisas diferentes. O escritor tem pouco a ver com o compositor”, disse Chico Buarque numa entrevista há quase 20 anos, falando duas vezes em terceira pessoa. “Mas é uma coisa pessoal minha. É difícil convencer o leitor de jornais desse meu sentimento.”

Aqui tampouco se tentará fazer esse convencimento, até porque esse divórcio fica ainda mais complicado quando tantos protagonistas de Chico gritam de semelhança com ele, voz e olhos inconfundíveis da música brasileira. E em “Anos de Chumbo”, sua primeira incursão no terreno dos contos, eles se multiplicam mais do que nunca.

Preste atenção em “O Passaporte”, um dos momentos mais inspirados da nova coletânea, que se refere a seu personagem principal apenas como “o grande artista”.

Num aeroporto prestes a embarcar para a Europa, o famoso perde de vista seu passaporte, que acaba nas mãos de um indivíduo que “mal acreditou ao ver no documento o nome e as fuças do grande artista que ele mais detestava”. “De imediato detestou a ideia de que a celebridade fosse tomar champanhe em Paris, viajando no mesmo avião que ele.”

Ao ler isso é impossível esquecer uma entrevista impagável que o próprio Chico Buarque deu na década passada, nos bastidores de um DVD. “O artista geralmente acha que é muito amado”, diz ele para a câmera. “Faz o show, é aplaudido, aí ele abre a internet e ele é odiado.”

Interrompe a fala numa gargalhada contagiante, abrindo os braços e batendo na coxa —algo bem distante do tom do conto, que segue numa comédia de erros escatológica e meio macabra, na qual o artista decide armar uma vingança contra o misterioso hater.

Não tem muito como saber se Chico desopilou alguma vontade reprimida ao inventar essa desforra. O artista de 77 anos, que passou por uma cirurgia na coluna na última terça-feira, não quis dar entrevista para esta reportagem.

Mas se sabe que, das oito histórias do livro, a primeira que o recém-contista escreveu foi “Para Clarice Lispector, com Candura”, protagonizada por um jovem poeta que “sabia de cor cada vírgula dos romances e contos” da escritora e, tímido, começa a se encontrar com ela.

“Maior que o desconforto de encarar Clarice Lispector em silêncio, sentado rijo na ponta do sofá, era o seu receio de sem querer baixar a vista e visualizar —ela gostava da palavra visualizar— a mão direita dela”, que tinha saído machucada de um incêndio em 1966.

Não é preciso muita pesquisa para descobrir que Chico Buarque catou muito da poesia que Clarice entornou no chão. Nem é difícil encontrar causos em que ele relata, quase num assombro, as vezes em que esteve com ela —algumas muito parecidas com o narrado no conto.

“Comecei a ir à casa dela, e era estranho, porque a Clarice tinha uma maneira de encarar você e fazer perguntas diretas. Ela era desconcertante”, afirma o cantor numa entrevista disponível no YouTube. “Então às vezes acontecia de eu ir à casa dela, ela perguntar coisas, depois ela sumia, me deixava sozinho na sala. Eu não entendia muito aquela mulher.”

Numa dessas visitas, por ocasião de uma entrevista para a Manchete, Clarice pergunta a Chico o que é o amor. Ele não responde, mas deve ter ficado décadas com isso na cabeça, porque também no livro a escritora pergunta ao moleque, de supetão, “para você o que é o amor?”.

Essa ficcionalização de si mesmo não é novidade na literatura buarquiana, aliás vencedora do prêmio Camões, e teve seu ápice na confusão de autobiografia e fábula que culminou em “O Irmão Alemão”, de 2014.

Neste livro novo, ainda dá para imaginar a figura grisalha do compositor andando pelo Leblon no trágico “Cida”, protagonizado por um homem afeito a caminhadas no calçadão, e enxergar semelhanças com o personagem que, no conto “O Sítio”, foge para o Rio de Janeiro rural “por quatro ou cinco semanas no máximo, pois tudo indicava que a peste estaria sob controle ainda naquele outono”. Chico fez o mesmo no começo da pandemia.

A coletânea se completa com “Os Primos de Campos”, que traz questões raciais à tona com um traquejo desconfortável; “Meu Tio”, relato à la Rubem Fonseca sobre o que é crescer perto de um homem com ar e pompa de miliciano; e o surrealista “Copacabana”, um panegírico do bairro que mistura num caldeirão sonhático Pablo Neruda, João Gilberto e Walt Disney.

O conto “Anos de Chumbo” fecha o livro com a infância setentista de um garoto, filho de torturador e fissurado em brincar de Exército, que vai descobrindo os esqueletos no armário —e as puladas de cerca— de sua família.

Nada mais diverso da experiência de Chico, filho de sociólogo e um dos mais célebres opositores da ditadura militar. Mas as inspirações têm sempre caminhos tortuosos.

Ao refletir sobre esse assunto naquela mesma entrevista que deu a Clarice na casa dela, moço de 20 e poucos anos, o compositor disse que criar letras de música parecia “muito mais fácil de concretizar porque é uma coisa pequena”, em comparação com o trabalho da escritora.

“Tenho a impressão de que se me desse ideia de construir uma sinfonia ou um romance, a coisa ia se despedaçar antes de estar completa”, ele confessa à autora de “Laços de Família”. “Se você tem uma ideia para um romance, você sempre pode reduzi-lo a um conto?”

Clarice diz que não é bem assim, e fica por isso mesmo. Não se sabe o que mais daquela conversa ficou de fora da revista. Mas ao que parece, com o tempo, Chico acabou entendendo tudo.

ANOS DE CHUMBO E OUTROS CONTOS

  • Quando Lançamento em 22/10
  • Preço R$ 59,90 (168 págs.); R$ 29,90 (ebook)
  • Autor Chico Buarque
  • Editora Companhia das Letras

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