Ignorados, influenciadores com deficiência querem mais espaço na publicidade

Público representa apenas 1% das campanhas e não ganha espaço nem no mês dedicado ao tema
Victoria Damasceno

Duas fotos semelhantes, uma ao lado da outra, de uma mulher ruiva, de cabelos longo e cacheados, de blusa amarela e calça cinza, sentada em uma cadeira de rodas. O que difere uma foto da outra é que na primeira foto a mulher está com a mão no queixo e está levemente sorrindo. O fundo é neutro, dividido em uma parece em tom de azul claro embaixo e o céu em cima
A influenciadora Zannandra Fernandez, 19, percebeu que nem no setembro verde pessoas com deficiência são lembradas pela publicidade – Aterio M. Alighieri

SÃO PAULO – Com a chegada do setembro verde, mês que marca a inclusão da pessoa com deficiência, a influenciadora e modelo Zannandra Fernandez, 19, esperava que a procura pelas suas postagens publicitárias crescessem, já que ela faz parte deste público —mas isso não aconteceu.

“Eu fiz alguns trabalhos, mas nenhum querendo enfatizar que é setembro verde”, conta.

Além de não ter visto sua demanda aumentar, notou que as campanhas veiculadas na televisão, nas redes sociais e em outros meios dificilmente incluíam pessoas com deficiência. Fez, então, coro àqueles que quiseram chamar a atenção para a baixa representatividade deste público nas peças publicitárias.

“Já que nenhuma marca quer investir em mim nesse Mês da Pessoa com Deficiência, deixa que eu mesma faço isso”, postou em seu Twitter ao lado de duas fotos profissionais.

Poucas marcas convidam as pessoas com deficiência para que estampem suas campanhas. Isso fez com que influenciadores com deficiência chamassem a atenção para sua baixa representatividade mesmo no setembro verde.

Isto é, porém, um sintoma de uma invisibilidade diária. Pessoas com deficiência participam de aproximadamente apenas 1% dos anúncios publicitários do país, de acordo com a pesquisa “Diversidade na Comunicação de Marcas em Redes Sociais”, realizada pela consultoria Elife e a agência SA365.

O estudo avaliou 1.900 postagens de 50 marcas em 2020. Os grupos analisados foram de homens, mulheres, negros, amarelos, indígenas, brancos, LGBTQIA+, gordos, idosos e deficientes físicos.

As pessoas brancas foram representadas em 74% das publicações, liderando o ranking. Em seguida aparecem as mulheres, presentes em 62% –neste caso, não foi feito recorte racial. Ao lado dos indígenas, as pessoas com deficiência foram o grupo menos representado, ambos com 1%.

Cerca de 46 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, de acordo com o Censo de 2010. Isso corresponde a 24% da população do país.

A youtuber e mestre em políticas públicas Mariana Torquato postou um vídeo chamando atenção para o dia 21 de setembro, que marca a luta das pessoas com deficiência —e que não ganhou grande destaque

“Nem no dia da luta da pessoa com deficiência aqui no país a gente tem uma notinha na mídia ou a gente ganha um destaque dentro das grandes empresas. Até mesmo as grandes celebridades que dizem apoiar a inclusão. [Não] tem nada, minha gente”, disse.

Já o influenciador Eduardo Victor destacou que as poucas marcas que propõem parcerias no setembro verde não querem remunerar os criadores de conteúdo. Ele salientou que a autonomia financeira é um dos fatores determinantes para a independência das pessoas com deficiência.

“Falar sobre acessibilidade é falar sobre a possibilidade de acessar os lugares com o nosso dinheiro, com a nossa independência. E falar sobre independência e deficiência são coisas muito difíceis em uma sociedade que não nos enxerga como pessoas capazes”, destacou Victor.

A consultora de diversidade e inclusão na comunicação, e fundadora do projeto Propaganda de Responsa, Anna Castanha, atribui a falta de representatividade à necessidade de se incorporarem mais pessoas com deficiência nos processos criativos. Não basta, porém, que façam parte do cotidiano das agências de publicidade, marketing ou do dia a dia das marcas, precisam estar nos cargos de liderança.

“Se nesse patamar de hierarquia [de liderança] não tem essas pessoas, a coisa não vai acontecer. Não importa quantas pessoas com deficiência existam dentro de uma empresa, não são elas que vão fazer a coisa mudar, as lideranças precisam querer. Não só uma questão de representatividade, mas de equidade e voz”, diz.

Seu trabalho envolve uma checagem dos projetos antes que eles cheguem às ruas, como uma espécie de consultoria de bom senso. É ela quem avisa quando percebe que um anúncio não vai ser bem recebido por um público –ou pode até gerar um processo, por exemplo.

Em seu trabalho como consultora, ela percebeu que não há um esforço para inclusão das pessoas com deficiência, mas que as empresas apenas preenchem as cotas estabelecidas por lei. A legislação é alvo frequente de discriminação.

O artigo 93 da Lei 8213/1991 determina que empresas com mais de 100 funcionários contratem um percentual deste público, que varia de acordo com o número de colaboradores do local. Até 200 pessoas, este número é de 2%. Sobe para 3% caso tenha entre 201 e 500 empregados. De 501 a 1.000 funcionários, a cota é de 4%. De 1.001 em diante, são 5%.

“O que é para uma agência contratar um diretor de arte surdo? O que é para uma empresa contratar um planner [estrategista] que é cego, por exemplo? As agências não querem se adaptar à realidade das pessoas”, afirma Castanha.

Se escolhem alguém para estrelar uma campanha, Lorrane Silva, apelidada de Pequena Lo, é uma das favoritas. Com 4,8 milhões de seguidores nas redes sociais, ela foi uma das primeiras influenciadoras com deficiência a ser popularmente reconhecida. Ainda assim, também não viu crescer o número de publicidades nas suas redes sociais no mês passado.

“Apareceram algumas falando sobre o setembro verde, mas não foi um aumento”, diz.

Para Lo, a situação piora quando as empresas tentam incluir, mas não fazem do jeito certo. Veiculam campanhas com termos incorretos, palavras ofensivas e até colocam as pessoas com deficiência em situações constrangedoras.

“Falta muita informação antes para falar sobre um assunto sério. Algumas empresas estão falando só por falar. Tem que ter uma procura, uma pesquisa antes. Sobre os termos principalmente. Pessoas especiais, por exemplo, ainda é bem usado, e não é o correto”, afirma.

Castanha acredita que a representatividade de pessoas com deficiência deve crescer nos próximos anos. De acordo com ela, a publicidade escolhe causas e esta não é a bola da vez. Crê que em um futuro próximo as empresas começarão a responder a essa cobrança, assim como fizeram com as mulheres, pessoas negras e o público LGBTQIA+.

“Por ser uma tendência de mercado, as marcas começam a aumentar a presença em seus anúncios dos grupos da vez, mas as pessoas com deficiência ainda não são a tendência do momento”, explica.

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