Amora Mautner sobre ‘Verdades secretas II’: ‘É o sexo como eu gostaria de ver’

Diretora artística fala sobre processo de criação, conta que experimentou práticas eróticas mostradas na novela e partiu do ponto de vista pessoal para levar um olhar feminino às cenas quentes: ‘Como mulher, eu teria tesão em assistir’
Maria Fortuna

Amora Mautner assina a direção artística da primeira novela brasileira feita originalmente para o streaming Foto: Marcus Sabah / Divulgação

Amora Mautner seduz até um poste. A voz grave, o jeito de conversar aproximando o corpo da outra pessoa e o olhar de ressaca cravado no interlocutor carregam de intensidade a já forte presença de uma mulher guiada pela libido em tudo que faz. Não à toa, ela é definida por atores como “um aquecedor de set”. É difícil imaginar, portanto, nome melhor para assinar a direção artística da erótica “Verdades secretas II”, que retrata o submundo escondido sob o glamour da moda, do luxo e do poder. A primeira novela brasileira feita originalmente para o streaming estreia quarta-feira (20), no Globoplay.

Perspectiva feminina

A chegada da diretora ao projeto traz uma mudança de perspectiva. Agora, a série é rodada sob o ponto de vista de uma mulher. E, em se tratando de sexo, esse olhar pode transformar tudo. Ainda mais se levarmos em conta que nosso imaginário sexual foi praticamente todo construído a partir da ótica masculina. E que, raramente, ela se comunica com o desejo feminino…

— Parti de um ponto de vista pessoal, quis expressar o que me representa. Filme pornô não me dá tesão. O que gosto de ver é sobre a iminência, a atmosfera, o que está por trás. Pensei muito na frase do Caetano “mantém sempre teso o arco da promessa”, da música (“A tua presença morena”) que voltei a ouvir muito nesses tempos — conta ela. — A gente está falando de uma pulsão de liberdade, que traz a sexualidade como algo primordial, do eros. Essa atmosfera vive muito mais na iminência do que na realização. A série é erótica mesmo numa cena de duas pessoas tomando cafezinho. O tesão vai subindo dramaticamente e, na hora ‘h’, está tudo impregnado de subjetividade. Como mulher, eu teria tesão em assistir. É o sexo como eu gostaria de ver.

Não só ela como as protagonistas da série, as atrizes Camila Queiroz (Angel), Agatha Moreira (Giovanna) e a novata Julia Byrro (Lara). O trio praticamente dirigiu as cenas calientes junto com Amora. Trouxeram ideias, soluções e até sugestões de marcação de cena.

— Amora fez questão de acompanhar todas as cenas de sexo bem de perto. Era pouquíssima gente no set, e a gente ficava super à vontade, criando— diz Agatha.

O ator Romulo Estrela, vértice de um triângulo amoroso com Angel e Giovanna, também deu seus pitacos. E, assim, num processo que envolveu todo o elenco e incluiu ensaios na casa de Amora e danças cúmplices no set, a diretora foi ganhando intimidade com os atores.

— O diretor tem um controle invisível sobre o set, que é a gira. Quando entro no estúdio, tento cativar essa gira que, nesse caso, era a da liberdade erótica. As atrizes entraram nela, eu dançava com a Agatha, vinha a Camila… Na hora é mágico, vem a energia do ator, do contrarregra, de toda a equipe, e a gente vai construindo essa relação — narra Amora, que conseguiu criar um ambiente de confiança para que os atores se entregassem. — Todas as partes do corpo que o público vai ver são 100% do atores. Não tivemos dublês (exceto para cenas específicas de algumas práticas de sadomasoquismo) nem trabalhamos com próteses — brinca ela, referindo-se ao recurso que tem sido bastante usado em produções estrangeiras.

O que também criou cumplicidade entre diretora e elenco foi o fato de Amora experimentar antes as práticas eróticas mostradas na série. Ela encarou até o shibari, técnica japonesa de imobilização com cordas, que estimula regiões erógenas sem que a pessoa possa reagir.

— Tudo que as atrizes fizeram, eu fiz antes — afirma. — O shibari é maravilhoso e acho que vai virar moda. Quando te amarram, o seu cérebro sente que está em perigo e lança uma química que ativa um relaxamento sensacional. Se saía do set afetada pelo erotismo, agora vou sair da série muito bem, sabendo shibari e strip.

‘Quis botar os atores pulsantes, fora de si’

“Verdades secretas II” chega com a proposta de unir o rigor estético das séries com o ritmo e a linguagem das novelas. A história que se desenvolve em um arco longo por meio de ganchos permanece no DNA do folhetim de Walcyr Carrasco. Amora Mautner entra nessa dança munida da ousadia e da liberdade que o streaming permite. O que mais impactou a diretora ao ler o texto foram os personagens sombrios.

— Brinco que são vários Walcyr, ele é meio Fernando Pessoa. Nessa série, ativou o modo 23 horas — diverte-se a parceira do autor em novelas leves como “O cravo e a rosa” e “A dona do pedaço”. — Os personagens são agudos, nietzschianos, amorais, acima do bem e do mal e múltiplos. Vivem em 50 capítulos a transformação da complexidade humana. Meu ponto de partida é tentar fazer o público entender, aos poucos, quais são as verdades secretas de cada um, mostrando que o que está por trás delas é cada vez mais humano, até chegar no clímax de thriller erótico.

E o espectador vai embarcar na trama no lugar de voyeur, conduzido por uma câmera à la “janela indiscreta”. Amora também optou pelo que chama de “narrativa formalista” como ferramenta dramática.

— É um estilo de filmar que enfatiza os elementos estéticos e cria uma ar artificial. Uso cenário, luz, figurino para criar uma atmosfera não realista, narrar o que não está sendo dito e abrir espaço para elementos estranhos — diz ela, que convidou três diretores de cinema com essa linguagem (Gabriela Amaral Almeida, Fellipe Barbosa e Bruno Safadi) para colocar em prática o seu conceito.

Ela também usou o recurso do Matte Painting, espécie de computação gráfica artesanal, para criar a artificialidade e buscou referências em filmes sugeridos pela parceira de criação, Raphaela Leite, que selecionou longas nórdicos, obras de David Lynch e thrillers eróticos dos anos 1990. O cineasta alemão Douglas Sirkr, considerado o rei do melodrama, é uma influência recorrente no trabalho da diretora.

Nada disso, no entanto, foi mais importante para a série do que o “fogo no set”.

— Quis botar os atores pulsantes, fora de si. Eles estão dionisíacos — garante Amora.

Na novela, a diretora, que contou com Roberto Audio no trabalho de preparação, lança a atriz Julia Byrro, de 20 anos. Ela é Lara, adolescente estuprada pelo padrasto (Julio Machado). A menina é uma descoberta de Amora.

— É uma mistura de Brooke Shields com Malu Mader — compara Amora.

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