Zara criou código para ‘alertar’ entrada de negros em loja, diz polícia; empresa nega racismo

Loja em Fortaleza usava o código ‘Zara zerou’ para avisar sobre pessoas negras ou vestindo roupas simples, apontam investigações
Ideídes Guedes

Fachada de loja com o letreiro Zara
Entidades do movimento negro ingressaram na Justiça do Ceará contra a rede de lojas Zara, pedindo R$ 40 milhões de indenização por dano moral coletivo – Rodrigo Garrido/Reuters

FORTALEZA – Com um código anunciado por alto-falantes, a loja da Zara do shopping Iguatemi de Fortaleza avisava a seus funcionários sobre alguém suspeito na loja –o que incluía negros, segundo a Polícia Civil do Ceará.

A polícia chegou ao sistema durante as investigações sobre o caso envolvendo a delegada Ana Paula Barroso, que foi expulsa da loja na noite de 14 de setembro. Para a polícia, houve racismo. A rede de lojas nega.

Quando alguém tido como suspeito entrava na loja, o código “Zara zerou” era anunciado, que impactava na sequência do atendimento das pessoas que entravam na loja, segundo o delegado Sérgio Pereira, que investigou o caso.

“Quando a frase era anunciada no som da loja, a partir daquele momento, a pessoa não era mais tratada como cliente, mas como uma pessoa nociva ao atendimento normal. A partir dali, as pessoas estavam sob vigilância. Geralmente eram pessoas consideradas mal vestidas, dentro do padrão deles, ou pessoas de cor”, diz o delegado.

Esse tipo de tratamento da Zara já foi registrado diversas vezes, não só no Brasil, mas também fora do país, com pagamento de indenização, segundo Pereira.

As imagens do circuito interno mostram que Ana Paula entrou na Zara por volta das 21h do dia 14 de setembro tomando um sorvete. Durante todo o trajeto dela no estabelecimento, a delegada fez uso da máscara contra o coronavírus.

Em seguida, o gerente da unidade, o português Bruno Filipe Simões Antônio, foi ao encontro dela e, gesticulando, apontou para que ela se retirasse. No boletim de ocorrência que registrou, a delegada relata que questionou o funcionário se estava sendo barrada por estar comendo. Ele teria apenas repetido várias vezes que era uma determinação da segurança do shopping.

Em seguida, a delegada procurou a equipe de segurança do shopping e questionou se podia ter sido barrada por estar comendo, mas ouviu de três funcionários que não havia determinação nesse sentido.

“Isso ficou claro na oitiva das testemunhas: os seguranças apenas orientam a recolocar a máscara se não estiverem fazendo o consumo de alimentos. Quando veem, não abordam”, diz Manuela Lima, delegada da Mulher de Fortaleza.

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