Betty Faria: ‘Vivenciei todo tipo de assédio que uma pessoa bonita e gostosa pode passar’

Homenageada com mostra de filmes no CCBB, atriz fala sobre situação do cinema nacional no governo Bolsonaro, assédio e 80 anos: ‘Continuo sendo uma adolescente de Copacabana’

Betty Faria Foto: Vinícius Mochizuki

Até segunda, acontece a mostra “Betty Faria — 80 anos”, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), do Rio. Vinte e cinco longas foram reunidos para homenagear a atriz carioca que completou, em maio, oito décadas de vida bem vivida e é uma das mais emblemáticas do cinema brasileiro.  “Meu ego e minha vaidade estão aduladíssimos”, conta Betty, emoldurada pelo cabelo farto e prateado, em uma entrevista feita por chamada de vídeo. Porém, em paralelo às palavras de contentamento, ela ressalta a indignação que sente diante do tratamento que o governo Bolsonaro tem dado à sétima arte. “Nosso cinema está empacado, nossos técnicos maravilhosos, desempregados”, lamenta. “É importante esclarecer que toda obra de audiovisual paga uma porcentagem a um órgão governamental. São milhões destinados à realização de filmes brasileiros. Porém, esse dinheiro foi sequestrado. A mamata é de quem está pegando o nosso dinheiro.”

O Brasil que se revelou nos últimos dois anos despertou diversos questionamentos na atriz, mas não abalou o espírito livre e a personalidade destemida da menina nascida e criada em Copacabana que ingressou no carreira artística como bailarina. “Certa vez ouvi de um namorado: ‘É foda porque você é uma adolescente com experiência’”.

A seguir os melhores momentos da conversa em que Betty também fala sobre assédio, drogas e maturidade.

O GLOBO: Quais filmes da mostra você poderia destacar?

Ontem, assisti ao longa “Bens confiscados”. Fiquei muito emocionada por ter sido dirigido pelo Carlão (Carlos Reichenbach), que morreu jovem. Tenho muito carinho por er coproduzido com a Sara Silveira. Do “Bye, bye Brasil”, eu me lembro da repercussão, das amizades que foram feitas, da minha gratidão por Cacá Diegues e da saudade que sinto do (José) Wilker. Mas todos são meus filhos.

Você tem sido atacada nas redes sociais por defender o cinema nacional. Como reage?

Tem fãs que dizem para eu deixar para lá. Mas se “deixo para lá”, o monstro cresce. Respondo, publico e bloqueio. Não sou de partido algum. Sou uma pessoa humanista, pela vida e pela paz. É uma sacanagem deste governo colocar o povo contra nós, artistas.

Dá para fazer um paralelo com a ditadura militar?

Naquela época, não tinha internet nem o público contra os artistas. Ao contrário, prestavam atenção no que falávamos. Sempre fui muito prestigiada. Agora, por qualquer opinião que dê contra os ideais vigentes, sou agredida. Fui chamada de “comunista” até por colegas de profissão, pessoas com as quais, se amanhã for chamada para trabalhar, vou pensar.

O que acha do caminho tomado por Regina Duarte?

Um pena. Uma pessoa que teve uma carreira tão bonita… É uma lástima. Nunca mais nos falamos. Ela mora em São Paulo, tem outras crenças… Vou falar o quê?

É adepta de procedimentos estéticos?

Tive um episódio terrível ao completar 60 anos. Meu contrato na TV não tinha sido renovado e achei que estava acabada. Fui a uma dermatologista que infiltrou metacril no meu rosto para tirar as rugas. Fiquei anos embolotada. Foi tão violento que desenvolvi uma doença autoimune que ninguém descobria o que era. Os médicos, então, passaram a me dar cortisona. Mas rezo tanto e os deuses dão tanto beijo na minha bunda que a cortisona dissolveu as bolotas do rosto. O veneno foi transformado em remédio. 

Como você se preparou para a passagem do tempo?

Trabalhei a minha cabeça com psicanálise e aceitando a idade. Ao mesmo tempo, não acredito. Oitenta anos tem um som estranho, parece que não vi o tempo passar. Trabalhei tanto, vivi tanta coisa. Agora vou ter de ficar velha, é isso? Tive um namorado que quando brigava comigo dizia: “É foda porque você é uma adolescente com experiência”. Nunca mais me esqueci dessa frase.

Está namorando?

Não falo sobre isso, aprendi a blindar a minha intimidade. Mas continuo sendo uma adolescente deCopacabana, berço do rock-and-roll no Brasil.

Segue fazendo psicanálise?

Dei alta para o meu analista. Tem uma frase que está na moda que adoro: “É o que tem para hoje”. O que sou hoje é o que tem. Está bom assim. Agradeço a todos que tiveram paciência comigo, mas não vou mexer mais não.

Qual é sua relação com as drogas hoje? fuma um baseado, toma uma tacinha de vinho?

Bebo uma tacinha de vinho, mas não posso brincar com os meus pulmões. Não é uma coisa moralista. Em 2019, tive pneumonia dupla. Então, virei uma florzinha.

Como enxerga as bandeiras levantadas pelo feminismo, como a luta contra o assédio?

Respeito todas as bandeiras, mas tem de tomar cuidado. Não existe só mulher boazinha. A frase “Mexeu com uma mexeu, com todas” é perigosa. O José Mayer, por exemplo, um ótimo colega. Trabalhei muito com ele. Tinha aquele jeito da geração dele, mas nunca me desrespeitou. De repente, acontece aquela situação (em 2017, a figurinista Susllem Tonani acusou o ator de assédio sexual). 

Sofreu situações de assédio?

Não gosto de dizer que “sofri”. Vivenciei todo tipo de assédio que uma pessoa bonita e gostosa pode passar.

Por que a sua foto dando selinho na Leila Diniz nos anos 1970 causa tanto alvoroço até hoje?

Aquilo foi uma provocação contra a caretice. Não tinha nenhuma sapatona ali. Leila era hétero, eu sou hétero. Não sei o motivo de causar tanto frisson num mundo como o de hoje, com tantas identidades de gênero. Não entendo. Fico pedindo para alguém me explicar.

Em 2013, você recebeu críticas por usar biquíni na praia devido à idade. O que isso diz sobre a nossa sociedade?

É toda uma cultura machista, contra a mulher, uma coisa atrasada. Não tenho usado biquíni porque não estou me achando bonita, engordei na pandemia. Não é por causa dos outros. Mas, volta e meia, encontro umas coroas de biquíni que falam: “Olha aqui Betty Faria, estou na praia assim graças a você”. Então, valeu toda aquela polêmica.

Betty Faria Foto: Vinicius Mochizuki
Betty Faria Foto: Vinicius Mochizuki
Betty Faria como 'Tieta' (1989) Foto: Arquivo
Betty Faria como ‘Tieta’ (1989) Foto: Arquivo
Betty Faria Foto: Arquivo
Betty Faria Foto: Arquivo
Betty Faria no filme 'Bye, Bye Brasil' (1980) Foto: Arquivo
Betty Faria no filme ‘Bye, Bye Brasil’ (1980) Foto: Arquivo
Betty Faria e Lima Duarte na primeira versão de "Roque Santeiro" (1975) Foto: Divulgação / Arquivo
Betty Faria e Lima Duarte na primeira versão de “Roque Santeiro” (1975) Foto: Divulgação / Arquivo
Betty Faria como 'Tieta' (1989) Foto: Arquivo
Betty Faria como ‘Tieta’ (1989) Foto: Arquivo
Betty Faria como 'Tieta' (1989) Foto: Arquivo
Betty Faria como ‘Tieta’ (1989) Foto: Arquivo
Betty Faria Foto: Cristina Granato / Arquivo
Betty Faria Foto: Cristina Granato / Arquivo
Betty Faria e Matheus Rocha em cena da novela 'A Indomada' (1997) Foto: Arquivo
Betty Faria e Matheus Rocha em cena da novela ‘A Indomada’ (1997) Foto: Arquivo
Eusébio ( Marco Nanini ), Cornélia ( Betty Faria ) e Rock ( Caio Castro ) em 'A Dona do Pedaço' (2019) Foto: Estevam Avellar / Arquivo
Eusébio ( Marco Nanini ), Cornélia ( Betty Faria ) e Rock ( Caio Castro ) em ‘A Dona do Pedaço’ (2019) Foto: Estevam Avellar / Arquivo

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