Elite ignora crise, gasta mais no país e turbina o mercado de luxo

Enquanto economia patina, vendas de grifes de roupas, móveis e joias crescem dois dígitos
Eduardo Graça

Shopping Cidade Jardim: mercado de luxo continua com vendas em alta Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

SÃO PAULO — Crise? Que crise? Enquanto a economia nacional patina, o mercado de luxo brasileiro foi o que menos sofreu na pandemia, na comparação com outros países, impulsionado por uma elite que não parou de gastar mesmo longe das lojas físicas. Impedidos de viajar para o exterior por conta das medidas sanitárias e do atraso da vacinação contra a Covid-19, os mais ricos consumiram alto em seu próprio quintal

O resultado, que dados iniciais mostram ser ainda melhor este ano com a reabertura dos centros comerciais, motivou a Associação Brasileira das Empresas de Luxo (Abrael) a lançar, na segunda quinzena de novembro, a campanha Compre no Brasil, voltada para o setor.

— Durante um ano e meio não se pôde gastar com avião, hotel, gastronomia, eventos culturais. Esse dinheiro represado pelos mais ricos foi para o consumo virtual nas grifes, a hotelaria boutique local, que vive seu melhor momento em duas décadas, os carros top e o mercado imobiliário de luxo, em franca expansão.  — diz Carlos Ferreirinha, presidente da MCF consultoria e um dos principais especialistas do setor no país.

Ele diz que os próximos meses serão a prova dos nove para mostrar se, de fato, esse consumidor seguirá comprando mais no país do que lá fora, com a reabertura dos países para o turismo.

Menos fornecedores

Os números são positivos nos mais diversos bulevares do luxo brasileiro. A operação brasileira da Hermès prevê crescimento de quase 50% este ano em relação ao ano passado no país. A Cartier, com investimento pesado no e-commerce e a novidade da pronta entrega em até quatro horas em São Paulo, quase quintuplicou suas vendas em 2020 em relação a 2019 e prevê crescimento de dois dígitos em 2021.

E no escritório de arquitetura de decoração de luxo de Sig Bergamin, em São Paulo. Com crescimento de 40% este ano, ele já contratou funcionários.

— Se sofro hoje é por ansiedade. Há mais casas de luxo, mas os fornecedores,especialmente os de fora, diminuíram, os estoques acabaram. E as pessoas buscam o exclusivo e para ontem, pois a noção de tempo, com a pandemia, mudou muito. O luxo ficou mais local e prático: nada de sofá de seda ou veludo, mas de couro, inclusive os coloridos. Vacas, aqui, afinal, não faltam — diz Bergamin.

Câmbio não é problema

A Euromonitor Internacional mostra que, em 2020, o Brasil teve um recuo menor que o do restante do planeta no setor de luxo. E estima que o país deve acompanhar o crescimento do mercado mundial no pós-pandemia, com ganhos de 34% até 2025.

O gerente de pesquisa da consultoria, Guilherme Machado, pondera que as projeções devem até melhorar. Dados mais recentes indicam que a indústria de luxo no Brasil “deu uma megaguinada a partir do segundo semestre do ano passado”, que será capturada na atualização anual consolidada dos dados na segunda quinzena de novembro.

Mercado de luxo continua com vendas em alta e atrai brasileiros que não podem viajar Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Mercado de luxo continua com vendas em alta e atrai brasileiros que não podem viajar Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

E a sondagem “Atividade do luxo no Brasil”, finalizada em setembro pela Abrael, já aponta um expectativa de crescimento médio de 51,74% em 2021 em relação ao ano passado.

O câmbio, diz a diretora-geral da Hermès no Brasil, Chiara Mariottini, é outro incentivo para o cliente seguir comprando no país. Se o real desvalorizado torna os importados mais caros, eliminar o custo em dólar ou euro da viagem para fora é um bom negócio.

— Vendemos a distância, para todo o Brasil, mas de forma personalizada. Tanto que, com a reabertura, mesmo quem prefere seguir comprando de casa quis vir às lojas conhecer os vendedores que os acompanharam durante a pandemia. Investimos na fidelidade e deu certo— conta.

Thiago Alonso, CEO da JHSF, do complexo Cidade Jardim, em São Paulo, referência no mercado de luxo, aponta outras razões para o fôlego do setor no país, além da proximidade dos vendedores com os clientes, que se mostrou fundamental na pandemia: a decisão das principais marcas internacionais de convergir os preços praticados lá fora, a ruptura do sistema de financiamento global e a possibilidade de se parcelar as compras.

O cliente de luxo foi mimado pelas principais marcas, com envio de coleções inteiras e produtos exclusivos por WhatsApp, mensagens de solidariedade nos momentos em que as famílias sofriam perdas com a pandemia e passeios exclusivos em vídeo por shoppings ainda desertos.

— Parcerias de fato se estreitaram, e se diluiu a sensação de que a experiência de comprar no exterior é diferente e com muito mais ofertas — diz Alonso.

Ricos se rendem aos produtos de luxo usados como alternativa a dificuldade de viajar na pandemia. Na foto, Carol Kalache, dona de brechó Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Ricos se rendem aos produtos de luxo usados como alternativa a dificuldade de viajar na pandemia. Na foto, Carol Kalache, dona de brechó Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Valor simbólico

A empresária Carol Kalache, especializada em peças de luxo usadas, viu seu brechó virtual dobrar as vendas durante a pandemia. Os objetos de desejo mais disputados, conta, foram bolsas, especialmente as Louis Vuitton Neverfull (R$ 3,5 mil) e Speedy (R$ 3 mil); a Birkin, da Hermès (R$ 35 mil), as Gucci Soho (R$ 3 mil) e Interlocking (R$ 3 mil) e a Chanel clássica (R$ 20 mil).

— Já são 257 mulheres nos grupos virtuais, divididos por categorias de luxo. Teve um momento em que pensei: mas por que tanta gente comprando bolsa pra andar do quarto pra sala? As pessoas estavam ansiosas, não sabiam o que fazer, e meu segmento no universo do luxo ganhou dinheiro na pandemia — diz Kalache, que espera apenas o movimento nas ruas melhorar para levar seu negócio virtual para uma loja em Ipanema, no Rio

Ela descreve o novo empreendimento:

 — Ela já está montada. Aposto que as pessoas seguirão comprando mais no Brasil e que o mercado de luxo de segunda mão também se beneficiará do aumento do consumo local. O câmbio está caro, e o que você reservava para compras agora ficará muito nas experiências de vida que a própria viagem, tão adiada, proporcionará.

Sair às compras neste momento, mesmo no conforto de casa, aponta o antropólogo Michel Alcoforado, fundador da Consumoteca, transcende a lógica e faz sentido, mais que nunca, por sua faceta simbólica.

É natural, argumenta, que os mais ricos, em uma sociedade marcadamente desigual, comprem ainda mais, pois o luxo também serve para “construir muros, cultivar diferenças e demarcar fronteiras”:

— Os mais ricos encheram seus closets de roupas mesmo não tendo onde usar. Este investimento não foi pragmático, mas simbólico. O mesmo ocorre, de certa forma, com o mercado aquecido de arte no país. Compra-se também para atestar que não se empobreceu. A mulher de um empresário que adquiriu um Damien Hirst me disse com todas as letras: não somos exatamente fãs dele, mas, quando vierem aqui, farão as contas: se gastaram isso tudo num Hirst, imagina quanto dinheiro têm?

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