‘Agora faço dez fotos para vender uma só’, diz Vik Muniz que abre a mostra Fotocubismo

Sonia Racy

Vik Muniz. Foto: Fabio Guivelder

Vik Muniz se prepara para abrir sua nova exposição Fotocubismo, dia 10, na Galeria Nara Roesler – dois meses depois, ele abre a mesma exposição, porém com trabalhos diferentes, em NY. “A coisa bifurcou, uma parte ficou mais figurativa, experimental, que vou mostrar em NY e a outra mais bonitinha, redondinha, que será apresentada em São Paulo”, explica.

Prestes a completar 60 anos e construindo uma casa em Salvador, o sagitariano Vik achou na capital baiana o local ideal para seu projeto de democratização da arte, a galeria Lugar Comum. “Estou reformando um espaço dentro da Feira de São Joaquim, onde vou convidar vários artistas para exporem suas obras lá”, conta, com bastante empolgação, em conversa via Zoom com a repórter Sofia Patsch. A ideia dele é replicar esse modelo em outras capitais do Brasil, e até criar um “cubo branco” móvel. Confira os melhores trechos da conversa a seguir.

Entrevista

Inspirou-se nas obras de grandes artistas, como Pablo Picasso, Georges Braque e Juan Gris para compor sua nova série. Como foi mesclar o Cubismo à fotografia?

O Cubismo é quase a antítese da fotografia. A fotografia liberou a pintura da função de representar a realidade. No momento em que a fotografia começou a ser disseminada, justamente no começo do século XX, houve uma reação do pintor em relação a esse tipo de imagem, que representava a realidade, mas que também era muito discutível.

Como você enxerga essa discussão?

A ideia da pintura era muito mais completa porque ela representava a relação do artista com aquilo que ele estava vendo. O cubista traz uma relação de memória e ângulo, a coisa se mexe. O que você leva daquela experiência é uma imagem distorcida e dinâmica, tem mais a ver com a maneira como se lembra de alguma coisa, do que como você a vê de fato. É portanto exatamente o contrário de uma foto, que representa fielmente o que você está vendo.

A série segue o mesmo padrão de seus últimos trabalhos?

Não é bem uma fotografia, ela é tridimensional, tem três planos, é um objeto fotográfico. Brinco com meu galerista que antes fazia uma foto, trabalhava e vendia essa foto seis vezes, agora faço dez fotos pra vender uma só, porque elas são únicas.

É o artista brasileiro que possui o maior número de obras em coleções permanentes nas mais importantes instituições do mundo. Como se sente com esse prestígio?

É, talvez seja pelo fato de ser fotografia, tem uma capacidade de disseminação maior, o custo não é tão alto quanto uma pintura, comprar uma pintura da Beatriz Milhazes, da Adriana Varejão é relativamente mais caro. E, sei lá, sou velho também (risos).

Como avalia seus 60 anos?

Depois que fiz 40 anos nunca mais contei. Não sou uma pessoa estressada, sempre penso coisas numa esfera muito maior do que eu mesmo, isso me livra de ficar tendo problemas pessoais muito graves, ou talvez até me ajuda a resolvê-los. Eu e a Malu (Barretto, sua esposa) estamos construindo uma casa em Salvador, a ideia é passar mais tempo lá.

Por que Salvador?

Eu amo aquela cidade, estou até desenvolvendo um projeto de arte dentro da Feira de São Joaquim. Aquele lugar é um bombardeio sensorial, aluguei uma lojinha e estou reformando para ficar igual a Prada, com vitrine de vidro, chão de epóxi, aquela coisa perfeita, chiquérrima.

Então está construindo uma galeria de arte dentro da Feira de São Joaquim?

Sim, ela vai se chamar Lugar Comum, a previsão é de que fique pronta em dezembro, a ideia é inaugurar com obra do Ernesto Neto. Mencionei o projeto com vários artistas, entre eles o Olafur (Eliasson), que super se interessou. Vamos começar em Salvador, mas a ideia é replicar o modelo em outras capitais e até criar uma galeria móvel e colocar no meio da Feira de Caruaru ou no Capão Redondo, quem sabe.

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