Como a banda colombiana Morat está conquistando o mundo

Desde que estouraram com single ‘Mi Nuevo Vicio’ ao lado da cantora mexicana Paulina Rubio, grupo acumula bons números nos charts
Jordan Salama, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

Da esquerda para a direita: Martin Vargas, Simon Vargas, Juan Pablo Isaza e Juan Pablo Villamil, integrantes da banda colombiana Morat. Foto: Gianfranco Tripodo/The New York Times

O momento da virada para um dos grupos que mais crescem em popularidade na América Latina veio graças a um instrumento inusitado: um banjo roubado.

Morat se reuniu para gravar em um estúdio em Bogotá, na Colômbia, em 2014, quando seus quatro integrantes, que são amigos de infância, ainda eram estudantes universitários e tocavam em eventos da faculdade e nos bares da cidade. Caminhando pelo estúdio em busca de inspiração, o guitarrista Juan Pablo Villamil pegou um instrumento que ele não sabia exatamente como tocar.

“Já sabíamos que nosso som tinha de ser diferente, que queríamos explorar possibilidades”, relembrou Villamil durante uma conversa recente pelo Zoom, enquanto seus colegas de banda Juan Pablo Isaza, Simón Vargas e Martín Vargas acrescentavam detalhes à história. Eles gravaram um violão de 12 cordas e um bandolim, depois alguém viu um banjo pendurado na parede. Pegaram o instrumento emprestado e nunca o devolveram. “Quanto ao processo de aprendizagem, eu diria que foi todo pelo YouTube, porque não existem muitos professores de banjo na Colômbia”, acrescentou Villamil.

A canção que estavam escrevendo naquele momento, Mi Nuevo Vicio, trouxe um riff simples, mas destacado, de banjo e chamou a atenção da estrela pop mexicana Paulina Rubio, que rapidamente a gravou com a banda. O single foi um grande sucesso na Espanha e chegou às paradas da América Latina e dos EUA. O Morat foi convidado para ir à Europa e produzir mais música – e o banjo foi junto.

“A música que gravamos com a Paulina não podia ser nosso único sucesso”, disse Villamil. A canção que levaram como uma “carta na manga” foi Cómo Te Atreves, que já conta com mais de 200 milhões de visualizações só no YouTube. O banjo rápido e dedilhado, as letras cheias de imagens e uma batida pop animada logo passaram a definir o som do Morat, e essa faixa marcou a chegada do grupo à cena da música latina em 2015. Desde então, a banda não saiu mais dos holofotes.

Em julho, o grupo lançou seu terceiro álbum, ¿A Dónde Vamos?, tendo iniciado recentemente sua turnê pelos EUA, em casas de show e estádios na Califórnia e no Texas, com paradas em Chicago, Nova York, Atlanta e Miami. Com letras que falam de corações partidos, nostalgia e paixão, a banda conseguiu forjar conexões poderosas através das fronteiras e dos oceanos, ao falar com uma geração de jovens cujas ansiedades e preocupações pessoais, grandes ou pequenas, frequentemente surgem em um contexto mais amplo de conflitos sociais.

“O que o Morat tenta fazer é usar palavras simples para explicar sentimentos complexos. Não tentamos ser como Pablo Neruda, mas querermos que as pessoas saibam que não estão sozinhas”, afirmou Pedro Malaver, empresário da banda.

As marcas registradas do que Villamil chamou de “o som muito específico” da banda incluem letras dolorosamente nostálgicas sobre o amor não correspondido que lembram os boleros clássicos; refrões cantados em uníssono; e o uso de instrumentos (como banjo, piano elétrico e violão de aço) incomuns no pop latino. Eles lançaram baladas animadas, faixas funkeadas e rocks inspirados no country. “Vamos tão longe quanto os instrumentos nos permitem ir”, comentou Martín Vargas, baterista da banda.

Musicalmente, o grupo é um ponto fora da curva numa paisagem em que o reggaeton costuma chamar quase toda a atenção do mainstream. As influências da Morat incluem Coldplay, a banda de pop latino BacilosMac Miller, o poeta e cantor espanhol Joaquín Sabina, Dave Matthews Band, a banda de rock colombiana Ekhymosis e, claro, os Beatles. Villamil e Isaza também são fãs de música country (que costumam compor e gravar em Nashville, no Tennessee), enquanto os irmãos Vargas eram metaleiros antes de descobrir o folk rock.

“Em 2021, não existe um som que defina o pop na América Latina. De certa forma, Morat é um microcosmo dessa tendência, que incorpora uma gama ampla de sons e gêneros na música – e, no caso da banda, de fora do mundo familiar do reggaeton e do trap latino“, escreveu Kevin Meenan, gerente de tendências musicais do YouTube, em um e-mail.

Os integrantes começaram a tocar juntos no ensino fundamental; conhecem-se desde que tinham cinco anos. Quando o ensino médio chegava ao fim, Isaza, Villamil, Simón Vargas e Alejandro Posada, o primeiro baterista do conjunto, formaram uma banda de verdade. Depois do lançamento do primeiro álbum, em 2016, Posada deixou o grupo para se dedicar aos estudos e o irmão Vargas mais novo se juntou aos demais.

Nos primeiros dias, o Morat (que na época se chamava Malta) distribuía CDs com sua música nos bares de Bogotá, até que conseguiu se apresentar regularmente em um bar chamado La Tea, no qual alguns amigos do grupo trabalhavam na segurança e a banda mixava os shows ao vivo no palco. Em pouco tempo, o público começou a crescer.

Ao longo de quase uma década de trabalho, as colaborações do Morat incluem o amplo espectro da música cantada em espanhol: canções com a atriz mexicana Danna Paola, com o cantor flamenco espanhol Antonio Carmona, com o roqueiro Juanes e com estrelas pop como Sebastián Yatra e Aitana, entre muitos outros.

“O catálogo do grupo fala muito do poder das colaborações na região. Esse sucesso não está ligado a um só país. No YouTube, as músicas do grupo então entre as mais tocadas em mais de 15 países, incluindo o Top 40 na Espanha, na Bolívia, na Argentina, na Itália e no Equador, além de sua terra natal, a Colômbia”, disse Meenan, do YouTube.

Eles estavam em turnê pela Espanha durante a entrevista pelo Zoom, e se sentaram em um sofá em frente à câmera como se fossem quatro irmãos. Alternavam-se confortavelmente entre o inglês e o espanhol quando queriam expressar algo com mais clareza, fazendo piadas e frequentemente terminando as frases uns dos outros. Também não fugiram de debates mais complexos.

Dois assuntos que aparecem com frequência nas letras da Morat: amor e guerra, este último um tema difícil em um país marcado por décadas de conflito armado. “O contexto em que crescemos e no qual ainda vivemos tem essas imagens todo dia, o tempo todo. Acho que, mesmo sem querer, isso acaba aparecendo e nos influenciando”, afirmou Simón Vargas.

Embora a imagem internacional da Colômbia certamente seja em geral a de um lugar violento, é claro que a realidade é muito mais complexa do que isso. “Bogotá é cercada por montanhas enormes e o sol nasce por trás delas. Assim, durante boa parte da manhã o sol ainda não saiu de trás das montanhas, mas o céu está azul. De certa forma, isso é muito colombiano. Estamos vivendo no limite, conseguimos enxergar a escuridão e dá para dizer que existe algo espreitando. E, ao mesmo tempo, estamos próximos da luz, de uma cultura muito bonita e de um povo lindo”, acrescentou Simón Vargas.

O álbum mais recente do Morat foi gravado quase totalmente durante a pandemia da Covid-19 em uma das regiões mais castigadas do mundo. “Não existe um ser humano no planeta que não tenha se perguntado como será o futuro depois disso. Decidimos que o disco se chamaria ¿A Dónde Vamos? (Aonde vamos?), literalmente porque pensamos que seria uma ótima maneira de conversar sobre o que está acontecendo atualmente em todos os aspectos. Não sabíamos quando faríamos shows outra vez. Não sabíamos como a pandemia mudaria a paisagem social como um todo”, comentou Simón Vargas.

Embora as canções representem diversos sentimentos, carregam uma estética própria, que continua a atrair novos ouvintes. “Acho que o que fizemos até agora foi um milagre. Quer dizer, não sei por que as pessoas gostam de ouvir um banjo com letras em espanhol. Considero isso um milagre, e o fato de ainda estarmos fazendo isso é incrível para mim”, concluiu Isaza.

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