Musical recupera legado de Brenda Lee em sua luta por direitos

‘Brenda Lee e o Palácio das Princesas’, de Fernanda Maia, conta história da travesti que se tornou marco nos anos 1980
Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

Elenco do musical ‘Brenda Lee e o Palácio das Princesas’, de Fernanda Maia Foto: Ale Catan/Divulgação

Ao final de uma sessão do musical Lembro Todo Dia de Você, espetáculo de 2017 que discutia o preconceito contra pessoas com HIV, a dramaturga e diretora musical Fernanda Maia foi procurada por um espectador que, emocionado, a instigou a escrever sobre a vida e o legado de Brenda Lee, travesti que acolhia outras meninas em sua casa em São Paulo no auge da epidemia de aids, nos anos 1980 e 90.

“Eu pouco conhecia sobre seu trabalho mas, ao pesquisar, fiquei obcecada por entender quem era ela”, conta Maia, que idealizou Brenda Lee e o Palácio das Princesas, musical transmitido diariamente (até dia 12), às 21h, pelo canal no YouTube do Núcleo Experimental, um dos mais importantes grupos teatrais de São Paulo.

Nascida em 1948, em Pernambuco, Brenda Lee foi uma militante transexual que comprou um sobrado no bairro do Bexiga, nos anos 1980, onde acolheu travestis portadoras do vírus HIV quando o pouco conhecimento sobre a epidemia contrastava com o grande preconceito. Logo, a casa ficou conhecida como Palácio das Princesas e atingiu tamanha importância que firmou convênios com a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e com o Hospital Emílio Ribas – em conjunto, aprimoraram a forma de atender pacientes soropositivos, independente de gênero, sexo, orientação sexual e etnia.

“Brenda deixou um legado cujos frutos hoje colhemos na consolidação de laços e alianças na luta por direitos básicos de saúde”, observa a intérprete de Brenda, Verónica Valenttino, uma das seis atrizes transvestigêneres que participam do espetáculo, ao lado de Fabio Redkowicz. Ela ajudou a criar a primeira política pública voltada para pessoas com HIV no Brasil, ao lado de médicos importantes como Jamal Suleiman e Paulo Roberto Teixeira”, completa Marina Mathey, que ainda divide a cena com Olivia Lopes, Tyller Antunes, Ambrosia e June Weimar.

“Com elas, aprendemos mais sobre as crueldades do mundo, especialmente de preconceito”, comenta Zé Henrique de Paula, que assina a direção do espetáculo – as letras de Fernanda Maia têm a melodia de Rafa Miranda. 

Os números musicais homenageiam antigas boates da noite paulistana que geravam oportunidade de trabalho para as travestis. “Nesse momento, as moradoras da casa contam suas histórias”, conta Maia, que ainda inseriu no texto dados sobre a fundação do Palácio das Princesas, além de incluir dados biográficos de Brenda Lee. “Fazer isso sob forma de musical significa atingir um tipo de público não habituado às histórias da população trans, contribuindo para a diminuição do apartheid social em que nos encontramos.”

No auge de seu projeto, Brenda foi assassinada a tiros, em 1996, aos 48 anos. O crime teria sido motivado por um golpe financeiro cometido por um funcionário da casa.

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