‘Eternos’, de Chloé Zhao, traz à Marvel uma nova equipe de heróis distante dos padrões

Grupo quer contemplar o pluralismo do planeta, e tem personagens asiáticos, latinos, negros, gays e surdos
Leonardo Sanchez

Kingo (Kumail Nanjiani), Makkari (Lauren Ridloff), Gilgamesh (Don Lee), Thena (Angelina Jolie), Ikaris (Richard Madden), Ajak (Salma Hayek), Sersi (Gemma Chan), Sprite (Lia McHugh), Phastos (Brian Tyree Henry) e  Druig (Barry Keoghan) em Eternos (Foto: Divulgação / Disney)

Historicamente, o gênero de cinema dos heróis sempre foi dominado por tipos muito parecidos —homens brancos, héteros, musculosos, hipermasculinizados e perfeitinhos, de Chris Evans a Chris Hemsworth e Chris Pratt. Vez ou outra alguma mulher dava as caras, mas só há pouco tempo elas passaram a ocupar certo protagonismo.

E aí veio “Pantera Negra”, primeiro longa do Universo Cinematográfico Marvel, o MCU, protagonizado por um herói negro. A indicação ao Oscar de melhor filme, a aclamação da crítica e o US$ 1,3 bilhão de bilheteria —cerca de R$ 7,3 bilhões— pavimentaram o caminho para a diversidade dentro do gênero. Algo que, agora, “Eternos” eleva a um nível inédito.

Com estreia marcada para esta quinta-feira, o novo filme do universo compartilhado da Marvel, que não é nada boba, apresenta um leque plural de personagens superpoderosos, como se numa tentativa de se conectar com todo tipo de público.

No elenco estão Gemma Chan, de ascendência chinesa; Salma Hayek, mexicana; Kumail Nanjiani, paquistanês, e Ma Dong-seok, sul-coreano. Há ainda Lauren Ridloff e Brian Tyree Henry, que são negros —ela é surda, enquanto ele dá vida ao primeiro super-herói abertamente gay da Marvel, com direito até mesmo a beijo no meio do filme.

Eles ganham reforço dos “padrões” Angelina Jolie, Barry Keoghan, Lia McHugh —uma heroína mirim— e Richard Madden, que cumpre a cota de macho alfa viril —e é até comparado ao Super-Homem, da rival DC Comics, em cena.

“Eu acho que o propósito dos Eternos é representar a Terra e todos os que habitam nela. Então é uma equipe que tem como princípio dar a todos alguém com quem se identificar, englobando diferentes etnias, idades e poderes”, diz McHugh, por videoconferência.

Ao lado, Hayek concorda. “É isso mesmo. O que é incrível é que a diversidade desse filme não parece artificial, os atores estão lá porque eram as pessoas certas para aqueles papéis —só que, dessa vez, a busca pelo elenco ocorreu de forma livre, sem se restringir à mesma lista de atores que todos sempre procuram para esses projetos.”

Em “Eternos”, somos apresentados a tipos quase divinos, criados por uma entidade intergaláctica para protegerem os seres humanos. Na Terra há milênios, essa equipe imortal tem o objetivo de acabar com os “deviantes”, bestas alienígenas que impediriam a evolução no planeta. Mas há um porém –eles não podem se envolver em conflitos exclusivamente humanos, como guerras e genocídios.

A fuga do lugar comum da Marvel na nova trama se deve, em boa parte, à ocupante da cadeira de direção, Chloé Zhao. Este é o primeiro trabalho da chinesa desde que ela se tornou, em abril, a segunda mulher na história a vencer o Oscar de melhor direção —por “Nomadland”, também escolhido como filme do ano.

Richard Madden é dirigido por Chloé Zhao no filme "Eternos", da Marvel
Richard Madden é dirigido por Chloé Zhao no filme “Eternos”, da Marvel – Divulgação

A diversidade, no entanto, não é a única grande diferença de “Eternos”. Aqui, temos uma trama mais adulta —pela primeira vez, um longa do estúdio tem uma cena de sexo—, com tom mais sério, menos barulho e até mesmo um número reduzido de telas verdes.

As paisagens, tão plurais quanto o elenco —do agitado centro de Londres às densas florestas latino-americanas e às areias de um sítio arqueológico no deserto—, são em grande parte reais, o que permitiu a Zhao enquadrar, com sua câmera, belezas naturais por longos minutos e com certa melancolia, ecoando o que fez em “Nomadland”.

“Ela com certeza traz sua assinatura para ‘Eternos’”, diz Gemma Chan sobre a cineasta. “Eu sabia que ela era uma grande fã da Marvel, então eu estava curiosa para saber o que ela poderia fazer com esse filme. E eu acho incrível que diretores de diferentes contextos estejam sendo escalados para projetos como esse, para correr riscos, porque nós acabamos ganhando histórias totalmente distintas.”

Mas nem todo mundo aprovou a escolha. Apesar da grife da cineasta, “Eternos” amarga 54% de aprovação no agregador de críticas Rotten Tomatoes —a nota mais baixa para um filme do MCU, o que parece exagerado, mas, por ora, o site não encontrou indícios de boicote, como já aconteceu com outros títulos que priorizavam a diversidade.

“Eu vejo esse filme como um progresso em relação a tudo aquilo que o MCU trouxe para o cinema, e a partir de agora haverá mudança, coisas diferentes, e eu tenho muito orgulho disso e desse novo formato”, justifica Richard Madden, quando questionado sobre a recepção pouco calorosa de “Eternos”.

Parte disso talvez se deva à enorme, quase descomunal expectativa que envolve o projeto. Além de ser um filme com elenco diverso, comandado por Chloé Zhao, cheio de primeiras vezes —o primeiro beijo gay ou então o primeiro com diálogos em língua de sinais—, ele é o responsável por botar a casa em ordem depois do avassalador “Vingadores: Ultimato”.

No filme bilionário lançado há dois anos, vários heróis da Marvel se despediram do público e o vilão Thanos foi finalmente derrotado, deixando o caminho aberto para que outro malvado imponha uma ameaça à Terra. “Eternos” é a oportunidade para o MCU se reorganizar e, junto com as várias séries lançadas no Disney+ nos últimos meses, esboçar o futuro da franquia.

Esse objetivo fica muito claro desde os primeiros momentos do filme. Com incomuns 157 minutos de duração, “Eternos” parece ser, em sua primeira parte, uma longa introdução a esse novo capítulo do MCU. E aí, quando a trama começa a engrenar e ficar mais clara, recebemos a promessa de que os novos super-heróis retornarão em filmes futuros.

Por ora, “Eternos” funciona como uma celebração da humanidade —com seus êxitos, falhas, pluralismos e ambiguidades. O maniqueísmo típico do subgênero de heróis fica em segundo plano para mostrar que, apesar de tudo, nós merecemos ser salvos pelos superpoderosos, eles próprios gente como a gente.

Vários dos membros da equipe protagonista, afinal, traçam paralelos com lendas e crenças de civilizações antigas, principalmente a grega, que tinha no seu panteão de deuses figuras tão imperfeitas quanto aqueles que os veneravam.

Thena, personagem de Angelina Jolie, por exemplo, foi idolatrada no passado como a deusa Atena; já Ikaris, vivido por Madden, teria originado Ícaro, que nas histórias voou perto demais do Sol e perdeu as asas.

“Esse é um filme que cobre 7.000 anos da nossa história e um dos temas dele é a conexão”, diz Gemma Chan. “É uma trama que mostra como estabelecemos conexões uns com os outros através do tempo, como nos relacionamos com o nosso planeta.”

ETERNOS

  • Quando Estreia nesta quinta (4), nos cinemas
  • Elenco Gemma Chan, Richard Madden, Angelina Jolie e Salma Hayek
  • Produção EUA/Reino Unido, 2021
  • Direção Chloé Zhao

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