‘Colin em Preto e Branco’ é retrato imperdível de líder de protestos antirracismo

Série de Ava DuVernay e Colin Kaepernick na Netflix mistura documentário a drama
Luciana Coelho

Colin em Preto e Branco’ (‘Colin in Black and White’), série biográfica que gira em torno da vida do ativista Colin Kaepernick.

Era mais um jogo da pré-temporada de futebol americano de 2016 quando Colin Kaepernick, o quarterback do San Francisco 49ers, decidiu protestar contra a violência policial de cunho racista nos Estados Unidos mantendo-se sentado durante a execução do hino nacional. No jogo seguinte, resolveu se ajoelhar. Nos meses seguintes, os protestos —dele e de outros— se multiplicaram.

No ano seguinte, após críticas do então presidente Donald Trump, já não havia time que o contratasse.

O que aconteceu depois desse momento e a história que o precede viraram objeto da cineasta Ava DuVernay (do magnífico “Olhos que Condenam“) em uma nova minissérie da Netflix que ela co-assina com o esportista-ativista.

“Colin em Preto e Branco”, que estreou sexta passada (29), é um misto de documentário com dramatização da infância e adolescência de Kaepernick, filho adotivo de pais brancos numa cidadezinha californiana predominantemente branca, alinhavado por uma espécie de aula conduzida pelo ativista sobre racismo estrutural ou escancarado.

Temperados por um humor sutil e contundente, os seis episódios firmam DuVernay como um dos nomes mais relevantes de sua geração, capaz de conduzir com destreza seus enredos e de transpô-los ao campo do drama sem desprovê-los da denúncia social que a move.

São também a plataforma perfeita para Kaepernick, uma figura eloquente e elegante que desde então acumulou prêmios por sua campanha de combate ao racismo.

A crítica americana pinçou o momento, no primeiro episódio, em que o esportista traça um paralelo entre as peneiras da liga de futebol americano (NFL) e os mercados de escravos. É uma comparação incômoda por sua crueza, mas não incorreta para o jogador, que ampara seu discurso em números (embora 70% dos jogadores sejam negros, só 30% dos quarterbacks, que lideram os times, o são).

O grande trunfo da minissérie, porém, é contrapor o Kaepernick ativista de 34 anos com o adolescente que, sendo mestiço e estando cercado de brancos, demorou a descobrir o racismo latente de seus vizinhos, de seus professores ou, ainda que num nível menos consciente, de seus amigos e seus pais.

A cena em que Theresa, a mãe (vivida pela ótima Mary-Louise Parker) entra em uma loja de moda black é hilária; aquela em que ela tenta empurrar para o filho uma crush “menos escura” é tristíssima. Nick Offerman também faz um belo trabalho como o pai que parece ser o único consciente da configuração de sua família e do que ela significa naquele ambiente tacanho.

Mas é Jaden Michael, como o Colin jovem, que dá ao personagem divisivo uma doçura insuspeita e fascinante. Como outras produções sobre figuras de esquerda, esta foi atacada com baixas avaliações no site de referência IMDB. Não se engane por elas. Ava DuVernay criou, novamente, uma série imperdível.

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