No Vale do Silício, há algo de podre no reino digital: escândalos em série mostram o lado sombrio das big techs

Meca da revolução que sempre atraiu jovens motivados com a construção de um futuro melhor, está em crise
Pedro Doria

Google, Facebook e Apple enfrentam uma série de escândalos que alertam para o lado obscuro das gigantes da tecnologia Foto: Arte O Globo

Nos tempos de Steve Jobs, algo assim seria inimaginável. Mas lentamente, durante a primavera californiana, foi se formando dentro da Apple um movimento. Começou com mensagens privadas no Slack, o sistema interno de conversas, ganhou corpo inicialmente em uma petição assinada por mais de dois mil funcionários e encontrou em uma programadora recém-contratada já durante a pandemia, uma mulher de 36 anos chamada Cher Scarlett, sua porta-voz.

Em uma corporação com uma pesada cultura de segredos e de não confronto à chefia, o conjunto exigia a demissão de um alto executivo. Antonio Garcia Martinez, também autor de um livro de memórias sobre a vida no Vale do Silício, havia descrito as mulheres da região como “suaves e fracas, mimadas e ingênuas”. Como Scarlett, ele estava fazia pouquíssimo tempo na empresa.

Diferentemente dela, ele não durou no cargo mais de três dias após o texto circular. Quando chegou o verão, o movimento encabeçado pela jovem programadora já tinha nome — #AppleToo. Tinha também novas exigências. E o fenômeno não está ocorrendo apenas lá.

Um Vale em crise

Em janeiro, 600 funcionários do Google conseguiram permissão legal para formar um sindicato. As exigências iniciais iam desde maior transparência a respeito da equiparação de cargos com salários até maior responsabilidade social.

O Facebook já vem lidando com episódios de vazamentos por funcionários que questionam a postura da empresa em relação a suas responsabilidades faz alguns anos

Mas o ápice foi em outubro, quando Frances Haugen, que era gerente de produto, demitiu-se e trouxe à luz do sol inúmeros documentos internos, relatórios e pesquisas, que mostram o quanto o comando do Face compreende os problemas causados pelas suas plataformas, mas nada faz.

O descontentamento de quem trabalha no Vale é tangível. Passa por uma insatisfação com as companhias, inclui questões de representatividade, e também o custo de vida.

‘Give me shelter’

Uma pesquisa encomendada por investidores da região com o nome Joint Venture Silicon Valley, em outubro, ouviu dos moradores que 71% consideram que a vida piorou muito nos últimos cinco anos. Do total, 34% gostariam de continuar trabalhando em casa após o período pandêmico.

Entre os empregados da indústria da tecnologia, 53% cogitam deixar a região. Deste mesmo conjunto, mais de 90% argumentam que o custo chegou a algo próximo do insuportável.

Há muito tempo que é caro viver no Vale do Silício. Palo Alto, a cidade onde vivem Mark Zuckerberg, Larry Page e Sergey Brin, do Google, e o presidente da Apple, Tim Cook, já tem algumas das melhores escolas públicas americanas desde os anos 1980. Como a lei da Califórnia determina que as crianças devem ser matriculadas nas escolas mais próximas de suas residências, os preços de imóveis na cidade sempre foram puxados para cima.

Muitos preferiam pagar um aluguel mais caro e ter os filhos em escolas públicas, abertas a todas as classes sociais, do que ir para colégios particulares. Os filhos do próprio Jobs estudaram na Palo Alto High School.

É um perfil progressista, há décadas predominante nos arredores de San Francisco, uma cidade ligada no âmago ao Partido Democrata. É a região que elegeu a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi. E é onde a vice-presidente, Kamala Harris, tem residência fora de Washington. Mas a cidade, que era um pouco mais cara de viver do que as vizinhas nos anos 1990, se tornou o metro quadrado mais caro do país.

Caro demais

Para a Universidade Stanford, que fica no coração do Vale e disputa com Harvard a cabeça da lista de melhor ensino do país, o problema se tornou uma desvantagem competitiva. Precisa pagar muito mais do que a rival para os professores estrelas que contrata. Viver bem em Cambridge, perto de Boston, é simplesmente muito mais barato.

A vida universitária e a da indústria de tecnologia estão interligadas. Porque Sand Hill Road, onde ficam os escritórios dos principais investidores do Vale, é a rua que delimita ao Norte o campus de Stanford. Os jovens doutorandos com ideias inovadoras estão a um atravessar de rua do dinheiro para erguer companhias.

Quando Stanford começa a ter dificuldade de recrutar professores, depois alunos, por conta do alto custo de vida na região, isso tem reflexo direto nos funcionários que a indústria poderá contratar hoje e nos fundadores das marcas inovadoras de amanhã.

Poder feminino

E como tem reflexo na questão da diversidade. Profundo reflexo. Não é à toa que Frances Haugen, a delatora do Facebook, e Cher Scarlett, a líder do #AppleToo, são mulheres. Timnit Gebru, uma cientista da computação etíope especializada em inteligência artificial, foi demitida pelo Google em dezembro por ter publicado um paper técnico que questionava vários aspectos dos algoritmos utilizados pela companhia.

Ela liderava um time responsável pelo estudo, justamente, da ética em inteligência artificial. Assim como o Facebook, a empresa não gostou de ver público o que preferia ter em privado

Em outubro, B. Pagels-Minor, uma pessoa trans não-binária que ocupava um cargo de gerência na Netflix, também perdeu seu emprego ao protestar contra o que muitos enxergaram ser transfobia em um especial do comediante Dave Chappelle, produzido para a empresa de streaming.

#wetoo

Segundo números do Pew Research Center, um instituto de pesquisas, homens recebem em média salários 40% maiores na área

Em uma região como o Vale do Silício, em que o PIB local é pesadamente influenciado pela indústria de tecnologia, a diferença grita. Grita também em uma cultura pesadamente masculina, na qual a violência aparece de formas distintas.

Assédio sexual é uma acusação cada vez mais comum. Quando Andy Rubin, o criador do sistema Android, deixou o Google, recebeu uma indenização de US$ 90 milhões. O que a empresa não divulgou na época é que ele deixava a companhia após ser acusado de ter forçado sexo oral com uma funcionária.

Rubin nega, e acordos de confidencialidade foram assinados por todos os envolvidos. Mesmo após o escândalo, o Google investiu na nova empresa do executivo. O sentimento geral entre os funcionários que não são estrelas é de que ele foi premiado.

Não faz muito, trabalhar no Vale do Silício era um pouco como o sonho de trabalhar em Hollywood em princípios do século XX

 Uma oportunidade de fazer fama e fortuna, viver uma vida de diversão e criatividade em empresas dedicadas a construir o futuro.

A pandemia acirrou um sentimento generalizado de que algo não está funcionando nas grandes empresas do setor. É um sentimento que está na sociedade. No tempo de Steve Jobs não era assim. Mas o tempo de Steve Jobs já faz uma década.

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