Designer da Sauer Stephanie Wenk dá sequência ao legado da joalheria da família, que completa oito décadas

Designer da Sauer se consolida como uma das mentes mais criativas do segmento
Gilberto Júnior

Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini

Stephanie Wenk tinha entre 11 e 12 anos quando ouviu, pela primeira vez, a história de Jules Sauer. Nascido em 1921, na região da Alsácia, na França, o filho de judeus vivia na Bélgica quando precisou escapar da perseguição nazista, aos 18 anos. Pedalou mais de 1.500 quilômetros até chegar à Espanha, onde foi detido, sem documentos. Conseguiu se livrar das autoridades e deu continuidade à saga, parando em Portugal. De lá, embarcou para o Brasil. Inicialmente, foi morar em Minas Gerais, onde começou a lecionar francês. Em seguida, por indicação do irmão de um aluno, conseguiu um trabalho no ramo das pedras preciosas. Em 1941, enfim, fundou em Belo Horizonte a Lapidação Amsterdam Limitada (a capital holandesa entrou na roda por ser uma referência no segmento), o embrião da joalheria Amsterdam Sauer — hoje, apenas Sauer.

Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini
Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini

“Como era de se esperar, fiquei muito consternada quando ouvi essa história pela primeira vez. Mas logo senti uma grande admiração por ele, por tudo o que construiu, por toda a resiliência. Sua força interna encontrou na natureza um campo infinito de criação e emoção”, ressalta Stephanie, a escolhida para manter vivo o legado de Jules, morto em 2017, aos 95 anos. Desde que passou a colaborar com a joalheria, a diretora criativa vem promovendo pequenas revoluções na tradicional empresa, que este mês completa oito décadas de trajetória. A data inspirou a coleção 80 Anos, que será apresentada na próxima quinta-feira, dia 11, na galeria Nara Roesler, em São Paulo. São releituras de vários clássicos, com foco em gemas brasileiras, em uma linha de seis joias. “Além dos ensinamentos técnicos, Jules me fez enxergar não só a beleza das pedras preciosas, mas também o lado emocional que cada uma das muitas variedades carrega. Não existem duas totalmente iguais. As pedras têm histórias, e ele me ensinou a interpretá-las”, diz Stephanie.

Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini
Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini

Autora do livro “O marketing e a arte do luxo na era da experiência — e inspirações para outros segmentos”, publicação de 2019, Rosana de Moraes afirma que a grife é um marco no instável mercado brasileiro. “Jules Sauer foi o responsável por consolidar no país a alta joalheria, aquela que cria peças únicas, fora de série. É muito bom vê-la chegar a oito décadas de vida traduzindo essa excelência numa linguagem tão contemporânea. Não há luxo sem inovação”, afirma a escritora.

Essa inovação iniciou-se nos idos de 2013, quando Stephanie voltou de uma temporada em Nova York, onde trabalhou para a marca de sapatos Schutz. “O Instagram começava a bombar e passei a dar, informalmente, uma espécie de consultoria no conteúdo. Fui me envolvendo na criação e pedi para ajudar na campanha. Deu certo, mas não era nada validado pelo conselho da empresa”, lembra ela.

As coisas ficaram realmente sérias no ano seguinte, quando a designer assinou uma linha com a mezzo brasileira mezzo italiana Bianca Brandolini d’Adda, filha da condessa Georgina Brandolini d’Adda. “Tinha passado alguns dias do verão europeu viajando com ela, trocamos muitas figurinhas sobre joias. Pouco tempo depois, Bianca estava no Rio. Fomos à praia e tive a ideia de fazer algo com ela para a Sauer, pois compartilhávamos o mesmo senso estético. O trabalho foi um grande sucesso. No showroom que armamos em Paris, o estilista Valentino Garavani foi o último a ir embora.” A temática das peças girava em torno do fundo do oceano, com opalas do Piauí lapidadas em formas de conchas e outras figuras desse universo, como peixes, caranguejos e estrelas-do-mar. Com os números dessa coleção em mãos, a família Sauer se reuniu e chamou Stephanie para uma conversa. “Eles me fizeram uma proposta para trabalhar full time na empresa. Aceitei. Para mim, era um desafio enorme.”

Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini
Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini

Apesar de não carregar o sobrenome que batiza a grife, a designer cresceu entre os descendentes do fundador. Filho de Jules, Daniel Sauer, que num passado recente foi presidente da grife e atualmente faz parte do conselho, é padrasto de Stephanie. “Quando fui contratada, o Daniel ainda estava presente no dia a dia. Ele é formado em Geologia e Gemologia, e entende muito de pedras e construção de uma joia. Aprendi tanto com ele. Pedia dicas, mas não as seguia toda vez. Sempre ponderava, e tirava lições.”

Entre as coleções mais icônicas criadas por Stephanie estão a Erótica, com anéis de pérolas em formato de seios e brincos de lápis-lázuli com desenho de silhuetas femininas, e a Abracadabra, com pingentes de caldeirão mágico e joias em formato de abóbora e carrossel. A pulseira de osso cravejada de pedras virou um hit, assim como as medalhas de signo. “A designer trouxe um frescor para a marca com seu humor sútil, delicado e delicioso”, elogia a editora de moda Lilian Pacce. Diretora da mostra Joia Brasil, Anna Clara Tenenbaum faz coro: “Stephanie conseguiu imprimir uma identidade moderna à grife. As coleções são primorosas, bem acabadas e com clima lúdico. Incrível como a etiqueta se reinventou e rejuvenesceu com o estilo cheio de personalidade da moça”.

Para Gabriel Sauer, diretor da joalheria e filho de Daniel, a diretora criativa conseguiu absorver o DNA da marca, sem deixar de imprimir sua personalidade irreverente. “Ela é uma pessoa muito atenta aos detalhes e empresta à grife sua paixão pelas artes. Tem plena liberdade para criar e ousar.”

Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini
Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini

Antes de conquistar essa total liberdade, Stephanie conta que cada joia tinha que ser vista e aprovada por muitas pessoas. “Eu sofria um pouco no processo. Eram vários homens e eu a única mulher, desenhando para mulheres. Aos poucos, fui ganhando confiança. Mas confesso que o conselho me ajuda e me puxa de volta para a terra quando estou indo longe demais. Ou se bate aquela insegurança. Dia desses, falei para o Gabriel: ‘Será que as consumidoras vão compreender isso? Ele virou-se e disse: ‘Então, a gente educa’. Esse é nosso espírito. Queremos fazer diferente, estar um passo à frente. Não somos conformistas.” Aí a fórmula para agradar clientes célebres, como a eterna modelo Jerry Hall e a cantora Miley Cyrus.

Stephanie e Gabriel fazem parte da terceira geração a comandar a empresa. Ou seja: a inovação vem, mas os valores continuam os mesmos — só atualizados. “Convivi bastante com Jules Sauer quando criança e sempre fui atraída pela figura excêntrica e fora da caixa que ele era e pelo que havia construído”, pontua. A designer ouviu inúmeras vezes a saga das esmeraldas, simbólica na trajetória da marca. “Jules ficou conhecido como o ‘caçador de pedras preciosas’. Era uma espécie de Indiana Jones de gemas brasileiras. Seus olheiros encontraram no Sul da Bahia uma espécie diferente de berilo. Ligaram para o chefe, que foi conferir in loco a novidade. Ao se deparar com os cristais brutos, imediatamente reconheceu: eram esmeraldas de uma tonalidade diferente. A descoberta mudou a história da gemologia no Brasil e no mundo. Jules foi homenageado e laureado por vários institutos e associações do ramo por sua contribuição.”

Fora da rotina da Sauer — hoje com sete lojas físicas, e-commerce, pontos de venda em Nova York, nos Hamptons, em Palm Beach e na loja virtual GOOP, da atriz Gwyneth Paltro —, Stephanie atualmente mora em São Paulo (as fotos foram feitas em sua casa) e gosta de cair na estrada para desbravar novos territórios. Diz que o marido, João Paulo Siqueira Lopes, que desenvolve projetos culturais, é o companheiro perfeito de aventura. “Gostamos muito de estar com os amigos. Tentamos nos cercar de pessoas de todas as idades e tribos. Sou muito falante, mas ultimamente ando escutando mais. Também não me levo muito a sério. Vivo fazendo piada de mim mesma e comentam por aí que tenho um bom senso de humor.”

Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini
Stephanie Wenk Foto: Cassia Tabatini

Mãe de Félix, de 3 anos, a designer, que costuma figurar nas listas das mais elegantes do Brasil e é amiga pessoal de estilistas como Cris Barros e Paula Raia, já teve mil e uma fases, do grunge à música eletrônica. “Aos 14, tingi meu cabelo de vermelho, raspei as sobrancelhas e coloquei um piercing no rosto. Ia para São Paulo e só me vestia com roupas da galeria Ouro Fino. Era nada ‘chique’, mas sempre tive a moda muito presente na minha vida como forma de me expressar”, diz a carioca, fã de Yves Saint Laurent, Phoebe Philo, Miuccia Prada, Helmut Newton e Diana Vreeland.

Para manter a cabeça sã, Stephanie, que trancou a faculdade de Psicologia na PUC-Rio para fazer roupa com a irmã, Alexia Wenk, anda praticando boxe e está pensando em voltar para as aulas de ioga. “E estou num detox de três meses do Instagram. Só vejo o da Sauer. Assim, me sinto mais presente nos momentos e com mais tempo para o que é importante. É impressionante as horas valiososas que perdemos nas redes sociais.” De preciosidade, Stephanie entende.

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