Dois homens condenados pelo assassinato de Malcolm X serão absolvidos mais de 50 anos depois

Investigação de 22 meses conclui que Muhammad A. Aziz e Khalil Islam foram presos injustamente pela morte do ativista, na década de 1960
O Globo e New York Times

Malcom X reza na Grande Mesquita de Mohammed Ali em Cairo Foto: John Launois / Camera Press / Reprodução

WASHINGTON — Dois homens condenados em 1966 pelo assassinato do ativista Malcom X, um dos maiores expoentes da luta contra o racismo, serão absolvidos, anunciou nesta quarta-feira o gabinete do promotor de Manhattan, Cyrus Vance. A exoneração de Muhammad A. Aziz e Khalil Islam representa um reconhecimento notável dos graves erros cometidos no caso.

— Esses homens não tiveram direito à justiça que mereciam — disse ao New York Times o promotor, cujo gabinete confirmou que haverá uma entrevista coletiva na quinta-feira, após a “anulação das condenações injustificadas” de Aziz e Islam.

Uma investigação de 22 meses, conduzida em conjunto pelo gabinete do procurador do distrito de Manhattan, o Projeto Inocência e o escritório de David Shanies, um advogado de direitos civis, descobriu que promotores e duas das principais agências de segurança do país — o FBI e o Departamento de Polícia de Nova York — ocultaram as principais evidências que provavelmente teriam levado à absolvição dos homens.

Os dois, conhecidos na época como Norman 3X Butler e Thomas 15X Johnson, passaram décadas na prisão pelo assassinato, ocorrido em 21 de fevereiro de 1965, quando três homens abriram fogo dentro de um salão lotado em Manhattan quando Malcolm X começava a discursar.

Os documentos incluem informações que envolviam outros suspeitos e não apontavam para Islam e Aziz. As notas dos promotores ainda indicam que eles não divulgaram a presença de policiais disfarçados no salão no momento do ataque. E os arquivos do Departamento de Polícia revelaram que um repórter do New York Daily News recebeu uma ligação na manhã do crime indicando que Malcolm X seria assassinado.

Os investigadores também entrevistaram uma testemunha viva, conhecida apenas como J.M., que apoiou o álibi de Aziz, sugerindo que ele não participou do crime, mas estava, como disse à época do julgamento, em casa cuidando de um ferimento nas pernas. 

— Isso não foi um mero descuido —  disse a advogada Deborah François. — Foi um produto de má conduta oficial extrema e grosseira.

A acusação contra eles era questionável desde o início e, nas décadas seguintes, historiadores levantaram dúvidas sobre a versão oficial. Uma revisão do caso, que foi realizada após um documentário explosivo sobre o assassinato e uma nova biografia, trouxe de novo o caso à tona. Mas não identificou quem os promotores agora acreditam que realmente matou Malcolm X,. Além disso, aqueles que foram anteriormente implicados, mas nunca presos, estão mortos.

Também não foi descoberta uma conspiração da polícia ou do governo para assassiná-lo. Outras perguntas, sobre como e por que a polícia e o governo federal não conseguiram evitar o assassinato, também ficaram sem resposta.

A investigação enfrentou sérios obstáculos. Muitos dos envolvidos no caso, incluindo testemunhas, investigadores e advogados, bem como outros possíveis suspeitos, morreram há muito tempo. Documentos importantes foram perdidos e as evidências físicas, como armas do crime, não estavam mais disponíveis.

— Isso aponta para a verdade de que a aplicação da lei ao longo da história muitas vezes falhou em cumprir suas responsabilidades — disse Vance, que se desculpou em nome da polícia. — Essas falhas não podem ser corrigidas, mas o que podemos fazer é reconhecer o erro, a gravidade do erro.

Em um momento em que o racismo e a discriminação no sistema de justiça criminal dos EUA são mais uma vez foco de protestos, a exoneração revela uma verdade amarga: duas das pessoas condenadas pelo assassinato de Malcolm X — homens muçulmanos negros detidos às pressas e julgados com provas instáveis — foram eles próprios vítimas da própria discriminação e injustiça que ecoou no país ao longo de décadas.

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