A guerra cultural incendeia as escolas americanas

Ameaças de morte, insultos e assédio são algumas das reações de pais irritados com os conselhos escolares devido aos cuidados sanitários com a Covid-19 ou pelos novos enfoques de igualdade racial no ensino
Antonia Laborde, do El País

Pais furiosos e membros da comunidade após uma reunião do conselho escolar do condado de Loudoun ter sido interrompida porque a multidão se recusou a ficar em silêncio, em Ashburn, Virgínia Foto: Evelyn Hockstein / Reuters

WASHINGTON — A guerra cultural de hoje nos EUA tem uma nova frente: os conselhos das escolas públicas. São reuniões em que moradores dos bairros onde ficam as escolas discutem assuntos como salários de professores ou serviços de limpeza. Há um ano, em diferentes cantos do país, tornaram-se palco de protestos, por vezes violentos, liderados por pais que são contra o que chamam de “agenda política tóxica” que inclui o uso obrigatório de máscaras nas salas de aula, as novas abordagens sobre igualdade racial no ensino ou políticas de integração de pessoas trans.

Vários membros de conselhos escolares têm recebido nos últimos meses ameaças de morte, estupros, insultos e perseguições dentro e fora das sessões dos conselhos que, desde outubro, são monitoradas por agentes de segurança por ordem do Departamento de Justiça. Os integrantes do conselho se dividem em grupos opostos, e é comum ver metade usando máscara e a outra não, para deixar claro a qual deles pertence. O nível de politização do debate é tal que grupos conservadores e progressistas têm desembolsado grandes somas de dinheiro em disputas para garantir que sua posição seja o mais representativa possível nos conselhos.

Nesse cenário inusitado, vários políticos de direita se apropriaram da mensagem dos “direitos dos pais” para obter ganhos eleitorais. Há algumas semanas, o republicano Glenn Youngkin venceu a eleição para governador da Virgínia, acenando contra a “doutrinação esquerdista” em sala de aula. Os republicanos descobriram uma fenda que atravessa todo o mapa nacional para ganhar o voto de pais indignados nas eleições legislativas de novembro de 2022, quando os conservadores tentarão retomar o controle da Câmara dos Deputados e do Senado.

No dia em que o engenheiro e professor universitário Sami al-Abdrabbuh foi reeleito membro do conselho escolar de Corvallis, no Oregon, em maio, um indivíduo avisou à vizinhança que iria assassiná-lo. Nesse mesmo dia, um cartaz de campanha do candidato, perfurado por vários projéteis, apareceu em um campo de tiro.

— Isso me perturbou — disse al-Abdrabbuh.

Com medo, o professor foi à polícia e mudou sua rotina em casa. Depois de contar sua história para o New York Times, explicando o quanto gostava de fazer parte da comunidade escolar, mas não queria “morrer por isso”, o bullying aumentou e ele decidiu instalar câmeras de segurança fora de sua casa. Há pais que também afirmam ter recebido ameaças de morte, embora sejam um grupo minoritário nesse cenário complexo.

Al-Abdrabbuh explica que “o que está acontecendo” é “muito estranho” para ele, porque normalmente “as pessoas que discordam expõem isso civilizadamente”. No entanto, “o que está acontecendo” já está cozinhando há algum tempo.

Para começar, a decisão de manter as escolas fechadas nas cidades governadas por democratas durante o outono de 2020, enquanto Trump pressionava para que as aulas presenciais voltassem, indignou muitos pais. No fim de 2020, os pais passaram a participar mais ativamente dos conselhos escolares para pedir explicações sobre as medidas sanitárias e ingressaram em grupos no Facebook onde compartilhavam suas frustrações. A pressão exercida por alguns nas reuniões foi frutífera, incentivando os pais a se envolverem mais, e as reuniões começaram a durar até uma ou duas da manhã.

Além disso, nos últimos anos, vários distritos, em sua maioria progressistas, aprovaram regulamentações para proteger os direitos dos alunos transgêneros e incluíram atividades para educar sobre “diversidade, igualdade e inclusão” em questões de raça e gênero. Algumas dessas iniciativas têm provocado a rejeição dos conservadores de cada localidade, que até agora não unificaram seus discursos. No entanto, no último ano foram criados 100 grupos em defesa do “direito dos pais”, onde partilham seus medos e revoltas. Eles passaram a rotular de “marxistas”, “pedófilos” e “traidores” os membros das diretorias que pensam de forma diferente, como pode ser visto nos vídeos que viralizaram nas redes.

A Action 1776 é uma dessas novas organizações. Seu objetivo é restabelecer a Comissão de 1776, criada durante o governo Donald Trump para promover uma “educação patriótica”. Joe Biden a desfez em seu primeiro dia na Casa Branca. A comissão foi uma resposta ao “Projeto 1619” do New York Times, uma análise histórica de como a escravidão moldou as instituições americanas em todas as áreas, concebida para marcar o 400º aniversário da chegada dos primeiros escravos africanos aos EUA.

— Não é correto dizer que os pais protestam contra o ensino dessas matérias. São contra a promoção desavergonhada de uma agenda ideológica radical que vai contra seus valores e os valores sobre os quais esta nação foi construída — afirmou Adam Waldeck, presidente da Action 1776. Para eles, o que desencadeou essa batalha foi que, durante a pandemia, os pais puderam ver em casa o que seus filhos estavam aprendendo e ficaram “horrorizados”.

Em distritos de estados conservadores como Texas, Kansas e Carolina do Sul, dezenas de biografias de personagens LGTBIQ foram temporariamente removidas dos programas escolares, assim como livros como “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Olhos azuis”, da Prêmio Nobel de Literatura Toni Morrison.  

— Acho que deveríamos jogar esses livros no fogo — disseram dois membros de um conselho escolar de Spotsylvania, na Virgínia, sobre livros com “conteúdo sexual explícito”.

No outono passado, Scott Mineo, um analista de segurança branco de 49 anos, fundou o grupo Pais Contra a Teoria Crítica da Raça, que desafia a doutrina acadêmica de que a escravidão nos EUA são a origem do racismo sistêmico ainda presente na sociedade. Ela não é ensinada nas escolas, e sim nas universidades, mas os colégios de todo o país, especialmente desde o assassinato de George Floyd, em maio de 2020, embarcaram em iniciativas para promover a justiça racial, adotando medidas como contratação de pessoal etnicamente mais variado, capacitação de professores sobre os preconceitos raciais e a inclusão de livros de autores afro-americanos.

Assim como dezenas de milhares de seguidores desse tipo de grupos, Mineo acredita que as escolas públicas estejam ensinando aos filhos que “os brancos são implicitamente oblíquos e inerentemente racistas, e nem se dão conta disso”:

— Ninguém tem direito a nos meter esse lixo pela garganta e nos dizer que ou acreditamos nisso ou seremos cancelados. A discussão honesta sobre esse tema é bem-vinda, a aceitação à força, não — defende ele.

Al-Abdrabbuh diz compreender os pais raivosos porque os currículos de hoje são diferentes do que eram.

— Mas também entendo que têm que ser conscientes de que é inaceitável que a educação pública seja para a comunidade ou para a raça privilegiada, e não para todas as culturas.

O Departamento de Justiça qualificou em outubro os acontecimentos dos últimos meses como “um alarmante pico de assédio, intimidação e ameaças de violência” contra membros de conselhos escolares. O  secretário de Justiça dos EUA, Merrick B. Garland, ordenou ao FBI e a procuradores federais que trabalhem com os agentes da lei locais para monitorar as ameaças as pessoas que trabalham nos 14 mil distritos escolares públicos do país. A Associação Nacional de Conselhos Escolares chegou a comparar alguns dos incidentes com o terrorismo doméstico, ainda que tenha se retratado depois que sua mensagem desencadeou uma reação violenta em alguns de seus membros.

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